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domingo, 28 de outubro de 2018

A ESSÊNCIA DA SANTIDADE



Gostaria de analisar hoje o Capítulo III da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (“Alegrai-vos e Exultai”), que fala sobre a essência da santidade, sobre o que é necessário para chegarmos a ser santos. O Papa Francisco indica o caminho: fazer, cada um a seu modo, o que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. “A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinônimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade.”

Como diz S. Francisco de Salles, o amor é a lei fundamental do mundo. Devemos fazer tudo por amor, para o amor e através do amor. O contrário do amor é o egoísmo. Todo ser humano nasce egoísta por herança do pecado original. Assim, o trabalho de nossa vida deve ser matar o egoísmo em nós e aprendermos a amar de verdade, nos doando totalmente a Deus e ao próximo. É nisto que consiste a santidade.

O Papa analisa uma por uma das oito bem aventuranças expressas no Evangelho de S. Mateus (Mt 5, 3-12). Exporemos aqui apenas alguns pensamentos de algumas delas, para estimular o leitor a uma mudança real de vida, respondendo com atitudes o amor infinito do Pai por cada um de nós.

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”: as riquezas não dão segurança nenhuma e quando o coração se sente rico, não tem espaço para as coisas de Deus. Esta pobreza de espírito está intimamente ligada à “santa indiferença” proposta por S Inácio de Loyola, ou seja, aceitar com amor o que Deus enviar, seja saúde ou doença, riqueza ou pobreza, paz ou turbulências. Ser pobre no coração: isso é santidade.

“Felizes os mansos, porque possuirão a terra”: se vivemos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. O correto é olharmos para os defeitos e limites dos outros, com ternura e mansidão, sem nos sentirmos superiores. Um santo ensina que devo olhar para a atitude do outro e pensar: “se eu tivesse tido a mesma educação, sofrido os mesmos traumas, vivido as mesmas experiências dessa pessoa, provavelmente me comportaria muito pior”. Pensar assim nos mantém humildes e gratos a Deus por tudo o que somos e temos e nos impele a estender a mão para ajudar o outro, evitando gastar nossas energias com lamentações inúteis. Reagir com humilde mansidão: isso é santidade.

“Felizes os que choram, porque serão consolados”: o mundo não quer chorar, prega a ideologia do “fuja da dor e busque o prazer”, prefere ignorar as situações dolorosas, escondê-las. Quem vê as coisas como realmente são e chora no seu coração, é capaz de alcançar as profundezas da vida e ser autenticamente feliz. Essa pessoa é consolada com a consolação de Jesus. Desta forma pode ter a coragem de compartilhar o sofrimento alheio e descobre que a vida tem sentido socorrendo o outro em sua aflição. Saber chorar com os outros: isso é santidade.

 “Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”: muitas vezes somos causas de conflitos e incompreensões. O mundo das murmurações e fofocas, feito por pessoas que se dedicam a criticar e destruir, não constrói a paz. Os pacíficos são fontes de paz, constroem a paz e a amizade social. E na nossa comunidade, se alguma vez tivermos dúvidas sobre o que fazer, “busquemos tenazmente tudo o que contribui para a paz” (Rm 14,19) porque a unidade é superior ao conflito. Não é fácil construir essa paz evangélica que não exclui ninguém; antes integra mesmo aqueles que são um pouco estranhos, as pessoas difíceis e complicadas, os que reclamam atenção, aqueles que são diferentes, aqueles que cultivam outros interesses. Isso requer uma grande abertura da mente e do coração. Construir a paz é uma arte que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza. Semear a paz ao nosso redor: isso é santidade.


 photo credit: marcoverch <a href="http://www.flickr.com/photos/149561324@N03/29280283258">Ausgestreckte Hand und verschwommener Hintergrund</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A PUREZA NO SÉCULO XXI

As coisas puras sempre tiveram um grande valor na sociedade: quanto mais pura a água, melhor; quanto mais puro o ouro, maior o valor de mercado; os animais puro sangue são os mais valorizados. A pureza, segundo o dicionário, é a condição daquilo que não tem mistura ou impurezas, ou seja, uma coisa pura é 100% ela mesma.

E quando falamos de uma pessoa pura, de uma alma pura? Por incrível que possa parecer, todos nós gostaríamos de possuir um diamante puro e até faríamos muito esforço para obtê-lo, porém, quando falamos em buscar possuir uma alma pura, quase ninguém está disposto a se sacrificar por isso. A pureza da alma é confundida com ingenuidade, com uma pessoa “boba”, inocente. “Coisa de criança”, que as pessoas adultas e maduras não precisam se preocupar.

Porém, Jesus mesmo nos ensinou: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8). A pureza é uma virtude que deveríamos lutar muito para conseguir, pois o fruto dessa atitude é conseguir ver a Deus. Não apenas ver Deus depois que morrermos, mas quem tem um coração puro consegue ver o agir de Deus em sua vida enquanto está ainda aqui na Terra. Enxerga cada acontecimento como uma saudação de amor do Pai para a sua vida e tem mais clareza de como deve responder a tantas provas de amor. Consegue entender melhor a ação da divina providência no cotidiano, nos acontecimentos da história e reconhece sua presença nas pessoas com as quais encontra e convive.  

A pessoa que busca a pureza é uma pessoa que busca tirar de seu coração tudo aquilo que a impede de ser ela mesma, ou seja, que a impede de ser aquilo que Deus sonhou que ela fosse para realizar sua missão. É uma pessoa que luta, dia a dia, para vencer os seus defeitos e ser uma pessoa melhor.

A pureza também está intimamente ligada com a nossa sexualidade, pois o corpo é o instrumento da alma, não podemos separar um do outro. Só há separação do corpo da alma, quando morremos. Para ter um coração puro, uma alma pura, é necessário que as paixões e instintos que fazem parte do nosso corpo, sejam devidamente ordenados e treinados.

Precisamos treinar nosso olhar e nosso desejo de usar o nosso corpo e o corpo do outro apenas para um prazer egoísta e passageiro. São Paulo nos ensina: “A vontade de Deus é que vivam consagrados a ele, que se afastem da libertinagem, que cada um saiba usar o próprio corpo na santidade e no respeito, sem deixar-se arrastar por paixões libidinosas, como os pagãos que não conhecem a Deus. (...) Deus não nos chamou para a imoralidade, mas para a santidade.” (1Tes 4, 3-5.7)

Vivemos num mundo pagão, onde tudo remete ao uso desordenado de nossa sexualidade. Todos os meios de comunicação apelam para os instintos sexuais, com a finalidade de nos tornar mais animais e assim, mais suscetíveis à manipulação e exploração. Aquele que não controla seus instintos, certamente será um consumidor impulsivo, gastará mais dinheiro para ter um corpo mais “desejável”, mas ao usar e ser usado, sentirá um grande vazio na alma que tentará preencher consumindo mais coisas. E o ciclo está formado.

Portanto precisamos nos libertar dessas influências negativas, tomando muito cuidado com o que deixamos entrar em nossas casas e em nossas almas através da televisão e da internet. Precisamos dizer um grande NÃO a toda imoralidade que tentam passar como se fosse algo natural e bom. Precisamos lutar para trocar de canal, para fechar aquela página da internet, para não comprar aquela revista, para usar uma forma de linguagem mais polida, sem palavrões ou palavras chulas. Como diz Santa Madre Teresa de Calcutá, seremos uma pequena gotinha de água pura em meio a um oceano poluído, mas se cada um lutar para purificar a sua gotinha, um dia o oceano também se purificará.

photo credit: streetphotos <a href="http://www.flickr.com/photos/38471468@N00/3566007126">The Ring</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/">(license)</a>