quarta-feira, 29 de setembro de 2021

A RECLAMAÇÃO QUE FUNCIONA E A DESCULPA QUE É ÚTIL




Pare para pensar sobre o quanto você reclama no seu dia: é o trânsito que está pesado, o preço da gasolina que aumentou, levou uma advertência do chefe, é o bife que ficou muito passado, o filho que não arrumou o quarto, o calor que está forte, a internet que está lenta, enfim, são inúmeras pequenas situações que podem deixar você aborrecido e irritado.

O professor Marcello Danucalov ensina que o aborrecimento acontece quando algo mal ocorreu e não deveria ter ocorrido. Um limite, um padrão justo foi transgredido, um compromisso foi quebrado. E todo aborrecimento pede ou gera uma reclamação.

Características da reclamação que funciona

Existem algumas características na reclamação para que ela seja efetiva e útil. Uma reclamação inútil só causa desconforto tanto para quem a produz, como para aqueles que estão ao seu redor, por isso devemos evitar esse tipo de reclamação.

A primeira coisa que precisamos identificar é para quem iremos dirigir nossa reclamação. Se não temos um destinatário, não há como nossa reclamação ser efetiva, porque não há ninguém que possa reparar de alguma forma o que aconteceu. Reclamar para alguém que não foi o responsável pela situação ou que não pode fazer nada a respeito, é perda de tempo e de energia.

Outro aspecto é sobre o que pode (e deve) ser objeto de uma reclamação. Existem acontecimentos que mesmo que nos causem certo tipo de aborrecimento, não merecem uma reclamação, pois não tem como ser reparados ou melhorados. Um exemplo seria se aborrecer com o calor ou o frio.

Por fim é preciso saber se havia um pacto prévio a respeito comportamento que gerou o aborrecimento. Se não havia um combinado, não há por que ter a reclamação, pois não houve o comprometimento da outra parte a agir de uma forma ou de outra.

Forma efetiva de reclamar

Se o acontecimento passou nessas três “peneiras”, então podemos fazer uma reclamação efetiva para a pessoa responsável, lembrando a outra parte que havia um acordo e esse foi quebrado. Pedir explicações sobre essa quebra e mostrar os danos que essa quebra produziu em você e no sistema como um todo e repactuar um novo acordo.

Por exemplo: se o filho deixou o quarto bagunçado, você deve chamá-lo, mostrar a bagunça, lembrar que o combinado é ele deixar o quarto arrumado antes de sair de casa e que a bagunça demonstra que ele não está se importando com o quanto você trabalha para conseguir comprar as coisas, já que deixar desorganizado pode também causar danos aos objetos. Além disso, a casa é sua e ele, como seu hóspede, deve manter a ordem que você determina. Um ambiente desorganizado afeta a todos que vivem na casa, pois o cérebro humano é conectado para buscar sempre a ordem e a desordem causa desconforto e estres. Assim, a atitude negativa dele afetou tanto você como toda a família.

A reclamação efetiva exige desculpas úteis

A reclamação que funciona exige um pedido de desculpas que também seja útil. Caso você se dê conta de que fez algo que prejudicou alguém, a primeira atitude é pedir perdão por ter quebrado o acordo, contando eventuais justificativas para você ter agido daquela forma. Depois deve perguntar qual foi a extensão do dano tanto para a pessoa ofendida como para o ambiente e o que você pode fazer para repará-lo. Faça o possível para reparar da forma mais eficiente e plena.

Mais um exemplo com relação aos filhos (para ensinarmos a se desculparem efetivamente): se sua filha derrubou um copo de leite na sala da tia, não basta que peçamos para ela pedir desculpas para a titia (que vai aceitar com o maior carinho). Além de pedir desculpas, precisa pegar um pano para ajudar a limpar.

Portanto devemos evitar gastar energia reclamando inutilmente e precisamos aprender a pedir desculpas de uma maneira eficiente, assim, além de crescermos em maturidade, ajudamos a equilibrar o ambiente em que vivemos.

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quarta-feira, 8 de setembro de 2021

SERÁ QUE REALMENTE SOMOS LIVRES?



A liberdade é um dos direitos fundamentais de todo ser humano. Mas ela também é um direito muito frágil, podemos perdê-la se não cuidarmos bem. Podemos falar em dois tipos de liberdade: aquela interior, de agir de acordo com a própria razão e vontade e a exterior, que é regulada pela sociedade em que cada pessoa vive, que pode limitar ou até extinguir o direito de ação do indivíduo. Esses dois tipos de liberdade vivem constantemente ameaçados.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 1731, assim define a liberdade: “A liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto de praticar atos deliberados. Pelo livre-arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.”

Portanto, para conseguirmos exercer bem esse poder de agir ou não agir, precisamos utilizar nossa inteligência para discernimos o que é o bem e fortalecermos nossa vontade para conseguir agir de acordo com esse discernimento. “Quanto mais pratica o bem, mais a pessoa se torna livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça.” (CIC 1733)

Ninguém pode tirar nossa liberdade

Essa liberdade interior, de agir de acordo com a própria consciência, ninguém pode nos tirar. Nós só perdemos essa liberdade por própria culpa, quando não discernimos o que é o bem ou quando, mesmo sabendo o que é o bem, nossa vontade não tem força para agir de acordo com o que a inteligência propõe. Cedendo aos nossos impulsos, nos tornamos escravos deles. E ao invés de agir, apenas reagimos.

O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, mesmo preso num campo de concentração durante a 2ª Guerra, manteve sua liberdade interior intacta. Apesar de fisicamente limitado pela prisão, ele vivia com o coração e a mente no Céu. Aceitou aquela circunstância como permissão divina e a utilizou para ajudar quem ele pode a sobreviver àquele verdadeiro inferno.

Não existe liberdade total

Ninguém é totalmente livre, pois existem várias limitações impostas pela própria natureza. Não somos livres para escolher onde nascemos, para sentir fome ou frio, para ser mais alto ou baixo. São inúmeras circunstâncias que não controlamos e que interferem em nossa vida. Porém, se buscarmos viver as virtudes, com o tempo conseguiremos um alto grau de liberdade interior e estas circunstâncias externas interferirão muito pouco no modo como agimos.

Conta-se que todos os dias um homem passava por uma banca de revista e cumprimentava o jornaleiro. Como resposta, sempre recebia alguma grosseria. Um dia seu amigo perguntou por que ele continuava sendo gentil e cumprimentando o jornaleiro se a resposta sempre era negativa. Ele respondeu que era livre para fazer o que achava certo e não era a atitude do outro que iria afetar seu modo de agir.

Desta forma para não perdermos nossa liberdade interior, precisamos lutar constantemente para adquirir as virtudes, como a paciência, temperança, fortaleza, prudência, entre outras. Cada um precisa analisar onde está seu ponto mais fraco, para iniciar essa luta que vai durar a vida toda.

A liberdade exterior não está em nossas mãos

Quanto a liberdade exterior, muito pouco podemos fazer para permanecermos livres. Basta um simples decreto de uma autoridade civil e não podemos mais sair de casa ou até expressarmos nossa opinião publicamente. Claro que devemos sempre lutar pela liberdade com os meios que possuímos, mas no fundo, vivemos em sociedade e, para termos segurança, abrimos mão dessa liberdade e a damos ao governo.

Isso não deve nos afligir, pois não adianta ter liberdade exterior, se interiormente somos escravos de nossos desejos e paixões. Façamos tudo o que está em nosso alcance para permanecermos livres exteriormente, mas lutemos bravamente contra nossas imperfeições para possuirmos o máximo de liberdade interior possível.

A liberdade torna o homem responsável por seus atos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus atos.” (CIC 1734)

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quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A QUESTÃO DA AUTORIDADE E A FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA

 


Nossa sociedade, a cada dia mais, rejeita a questão da autoridade. A figura da autoridade é vista hoje como sendo “opressora” e, por isso, deve ser combatida. “Todos somos iguais” então ninguém tem o “direito de mandar” em ninguém. Essa imagem distorcida da autoridade se refere a pais, professores, governantes, sacerdotes, policiais, enfim, todos que, por direito, possuem alguma autoridade, mas praticamente são impedidos de exercê-la.

A palavra autoridade deriva do latim auctoritas, que vem por sua vez de auctor, aquele que faz crescer. Quem possui autoridade tem a missão de conduzir seus dirigidos para que esses cresçam, amadureçam, sejam mais livres e aprendam, se for necessário, a exercer a autoridade algum dia. A pessoa com autoridade também tem a missão de proteger quem está sob os seus cuidados, tanto de eventuais ataques externos, como de condutas da própria pessoa que possa causar algum dano a ela própria ou aos outros.

Não é fácil exercer a autoridade com essa visão, principalmente quando se é pai ou mãe e os filhos já estão crescidos. Os pais precisam “treinar” desde cedo os filhos a fazerem boas escolhas, sofrendo as consequências quando escolhem mal. Quando são crianças, o exercício dessa autoridade é um pouco mais fácil, pois, mesmo que os filhos “esperneiem” um pouco, no final, precisam acatar o que os pais decidem, afinal eles são os adultos e responsáveis pela família.

A partir da adolescência a questão fica um pouco mais complicada, porque não basta o filho obedecer, ele precisa entender o porquê daquela determinada ordem. Se ele não entende a razão de agir dessa ou daquela forma, assim que se tornar adulto ou quando achar que os pais não vão descobrir, pode agir de forma totalmente diferente da que os pais gostariam, ou entendem ser melhor.

Marge Fenelon, em seu livro “Strenghtening your Family”, explica que, quando os filhos crescidos têm algum tipo de dilema moral e são tentados a tomar decisões que os pais não concordam, os pais tendem a dois extremos: ou simplesmente ignoram o que o filho quer fazer ou partem para cima do filho tentando forçá-lo a seguir a linha de pensamento deles. Nenhuma dessas opções são realmente efetivas. Ignorar pode dar a falsa impressão de que a escolha que ele está fazendo é permissível e forçar só vai fazê-lo correr para a direção oposta. Essas duas escolhas são uma abdicação da responsabilidade como pais; o trabalho dos pais é educar os filhos para que tenham uma consciência cristã bem formada. Isso leva tempo, paciência, diligência e frequentemente algum “frio na barriga” e unhas roídas...

As consciências são desenvolvidas e formadas pela autoridade. Uma boa autoridade é muito diferente de autoritarismo, ela significa liderança. Como pais, devemos liderar os filhos através de nosso próprio exemplo e direcionamento. É preciso conversar muito. Falar de todos os assuntos polêmicos em casa. Entender a visão de cada filho e mostrar onde podem estar pensando errado, onde estão sendo manipulados pela cultura, pela mídia, pelos amigos. Sempre fazê-los refletir sobre o que estão falando, o que estão acreditando e repetindo.

O Catecismo da Igreja Católica fala sobre o papel dos pais na formação da consciência no parágrafo 1784: “A formação da consciência é tarefa para toda a vida. Desde os primeiros anos, a criança desperta para o conhecimento e para a prática da lei interior reconhecida pela consciência moral. Uma educação prudente ensina a virtude: preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos ressentimentos da culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das faltas humanas. A formação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração.”

Importante ressaltar que, como pais, precisamos estudar e entender a doutrina moral católica para poder viver e transmitir esses valores aos filhos. Atualmente temos a imensa vantagem de ter todo esse conhecimento a nosso alcance, graças a inúmeros bons livros e tecnologia da internet. Existem vários blogs e sites católicos que oferecem uma enorme gama de opções de cursos, palestras, vídeos para aprofundarmos no conhecimento da nossa doutrina, então não podemos desperdiçar essas oportunidades.

Por fim, para termos sucesso nessa empreitada de exercer bem a autoridade e formar a consciência de nossos filhos para que possam fazer escolhas condizentes com sua condição de cristão e não simplesmente decidirem baseado no medo, na pressão dos outros ou no que está na moda, precisamos pedir muito as luzes do Espírito Santo e o cuidado maternal de Maria Santíssima. Peçamos a Nossa Senhora, como Mãe e Educadora, que nos ajude a educarmos nossos filhos no caminho que os conduzirão ao Céu.

domingo, 27 de junho de 2021

A ROUPA QUE USO NA MISSA, INTERFERE NAS GRAÇAS RECEBIDAS?

 

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Lembro quando era criança que nós tínhamos a “roupa de missa”, que era normalmente um vestido muito bonito que ficávamos esperando o domingo para poder usar. Essa roupa só era usada para ir à Santa Missa ou para algum outro evento muito importante. Com o passar do tempo esse costume foi se perdendo e na minha juventude, já frequentava a missa de jeans e camiseta.


Atualmente vemos pessoas frequentando a Santa Missa com os mesmos trajes que utilizam para ir ao clube ou fazer esportes. Mas será que a roupa que usamos pode interferir nas graças que recebemos? Será que Deus se importa como estamos vestidos para o santo sacrifício da Missa?

A resposta é sim e não. Sim, o modo de nos vestirmos interfere nas graças que recebemos, mas não é porque Deus está preocupado com a nossa roupa, ou que vai dar mais graças para quem estiver melhor vestido, como se fosse um concurso. Nosso Pai é infinito amor, misericórdia e justiça e jamais nos julgaria por causa de nossas roupas. Porém, Ele também respeita muito a nossa liberdade e nos dará as graças de acordo com a nossa intenção e disposição em recebê-las.

S. Leonardo de Porto Mauricio nos ensina: “Eis o meio mais adequado para assistir com fruto à Santa Missa: consiste em irdes à igreja como se fôsseis ao Calvário, e de vos comportardes, diante do altar, como o faríeis diante do trono de Deus, em companhia dos Santos Anjos. Vede, por conseguinte, que modéstia, que respeito, que recolhimento são necessários para receber o fruto e as graças que Deus costuma conceder àqueles que honram, com sua piedosa atitude, mistérios tão santos.”

Então, para assistirmos a Santa Missa de uma forma que possamos aproveitar de todas as inúmeras graças concedidas por tal atitude, precisamos estar conscientes de que estamos participando do mesmo sacrifício oferecido por Jesus no Calvário. Essa consciência se reflete tanto em nosso comportamento quando estamos diante do altar como na forma de nos vestirmos para tal ato.

Não é fácil termos essa consciência hoje pelo fato de existir uma grande campanha de dessacralização da liturgia, dificultando essa visão sobre o que realmente acontece na Santa Missa. Por isso é importante nos esforçar para nos vestirmos com o melhor que temos para participarmos desse grande momento, pois essa atitude nos ajuda a nos lembrarmos para onde estamos indo e o que iremos testemunhar lá.

Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt dizia: “um homem piedoso se ajoelha para rezar, mas ajoelhar para rezar também torna o homem piedoso.” Ou seja, a forma com que nos comportamos externamente, expressa o que temos em nosso interior, mas da mesma forma, se mudarmos nossa atitude exterior, isso também vai influir em nosso interior, em nossa alma.

Posso testemunhar que aconteceu exatamente isso em nossa casa. Já faz alguns anos que começamos a nos preocupar mais com as roupas para irmos a Santa Missa. Os meninos usam camisa social e as meninas saia ou vestido mais sociais. Esse cuidado com o traje refletiu diretamente no sentimento que temos ao participar desse grande mistério. Os modos ficaram mais contidos, as conversas paralelas praticamente acabaram, o olhar ficou mais voltado para o altar, os gestos de reverência ao Santíssimo Sacramento ficaram mais intensos. Outro fruto foi o testemunho que damos para as outras pessoas que estão presentes. Várias vezes já vieram elogiar a forma com que nossos filhos se vestem e eles mesmos falam que precisam estar bem-vestidos para receberem o Rei dos Reis.

Assim, convido a todos a fazerem essa experiência. Não importa a classe social, não é uma questão de usar roupas caras, mas dessa preocupação de escolher, dentro daquilo que possui, a roupa mais apropriada para um momento tão sublime e uma graça tão extraordinária que é receber o próprio Deus, com seu corpo, sangue, alma e divindade em nosso coração, através da Sagrada Eucaristia.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

A SANTA MISSA: UMA MÁQUINA DO TEMPO

 



Nestes tempos de pandemia, onde muitos de nós fomos privados de participar da Santa Missa e outros, infelizmente, já se acostumaram com a “missa virtual”, gostaria de lembrar o que realmente acontece nesse momento tão especial, de acordo com a doutrina da Igreja.   

A Santa Missa pode ser dividida em duas grandes partes: a liturgia da palavra e a liturgia eucarística, tendo como seu ápice a transubstanciação, quando o pão se torna corpo e o vinho se torna o sangue de Jesus Cristo e onde somos convidados a comungarmos desse corpo, sangue alma e divindade de Jesus, tornando-nos uma só carne com ele, nosso divino Salvador.

Gostaria de focar nossa reflexão sobre a liturgia eucarística. Assim que que ela começa e o sacerdote nos convida a elevar nossos corações, tem início à chamada “comunhão dos santos”, ou seja, a união da Igreja Militante (nós que estamos ainda aqui nesta terra), a Igreja Padecente (as almas que estão no Purgatório) e a Igreja Triunfante (as almas, os santos que já estão no Céu).

Quando respondemos: “o nosso coração está em Deus”, é como se o Céu se abrisse e nós nos transportássemos até lá, para depois nos unir aos anjos e santos para louvar a Deus, cantando ou dizendo: Santo, santo, santo...

Logo depois, o sacerdote inicia a oração eucarística, pedindo ao Pai, que santifique as oferendas do pão e do vinho que estão no altar e que irão se transformar no Corpo e no Sangue de Jesus Cristo, com a força do Espírito Santo. Nesse momento, ao ouvir a sineta, os fiéis se ajoelham e são transportados no tempo, para o local e o momento da Última Ceia. Apesar de nossos sentidos não perceberem, acontece essa verdadeira “viagem no tempo” e, a partir daquele momento, o sacerdote já não é mais ele, mas sim o próprio Jesus e todos os participantes estão realmente presentes naquele momento sagrado.

Quando Jesus, utilizando-se da voz do sacerdote, diz “Isto é o meu Corpo”, a hóstia se transforma realmente no Corpo de Jesus e então já não estamos mais na Última Ceia, mas sim aos pés da Cruz no Calvário. Nesse momento, somos testemunhas do sacrifício de amor infinito que Jesus fez por cada um de nós, morrendo na Cruz.

Se prestarmos atenção nos gestos do sacerdote/Jesus poderemos captar um pouco mais da beleza infinita desse momento. Da mesma forma que Jesus, na cruz, primeiro inclinou a cabeça e depois, entregou seu espírito, dando seu último suspiro (Jo 18,1), o sacerdote primeiro se inclina sobre a hóstia e depois pronuncia as palavras da consagração, sendo o suspiro do sacerdote o mesmo suspiro de Jesus, transformando a hóstia em Corpo e o vinho em Sangue.

É importante salientar que na cruz, o sacrifício foi consumado pelo sangue sendo separado do corpo de Cristo fisicamente, quando o soldado usou a lança e abriu uma chaga no lado de Jesus, de onde jorraram sangue e água. Na Santa Missa, o sacrifício é consumado pelo sangue sendo separado do corpo de Cristo sacramentalmente, por isso são consagrados separadamente, primeiro o corpo, depois o sangue.

O Céu, a terra e o purgatório nesse momento estão unidos, testemunhando esse gesto de amor incomparável que redimiu toda a humanidade. O sacrifício do Filho, ao Pai, com a presença do Espírito Santo, a Trindade derramando torrentes de amor sobre toda a humanidade. É um momento tão sublime, que se pudéssemos captar algo com nossos sentidos, como alguns santos puderam, não poderíamos parar de chorar. 

A liturgia segue com as orações pelos fiéis presentes, pelos fiéis defuntos, pela Santa Igreja e seus ministros e para que todos, possam, um dia, participar da vida eterna com todos os anjos e santos que continuam ainda ali presentes, louvando e glorificando a Santíssima Trindade.

Chega então o momento mais esperado, quando cada um de nós é convidado a participarmos desse sacrifício de amor, a nos unirmos intimamente com Jesus, tornando-nos um só corpo com Ele. É um mistério insondável como o próprio Deus quis se unir dessa forma conosco, suas criaturas pecadoras. Ele se deu inteiramente a nós, sem reserva, e o melhor que podemos fazer para retribuir tamanha graça, é nos entregarmos inteiramente a Ele.

Esse momento tão sublime deve ser seguido de uma profunda ação de graças por parte de cada um de nós. Aproximadamente nos próximos 15 minutos depois que comungamos, Jesus está ali fisicamente conosco, então devemos aproveitar ao máximo essa presença, nos entregando a ele, agradecendo por esse momento e fazendo nossos pedidos, principalmente o de sermos filhos fiéis e amorosos.  

Vejamos o que nos falam alguns santos sobre a Santa Missa:

“Fica sabendo, ó cristão, que mais se merece em ouvir devotamente uma só Missa do que distribuir todas as riquezas aos pobres e a peregrinar toda a terra” S. Bernardo

“Nosso Senhor nos concede tudo o que lhe pedimos na Santa Missa: e o que mais vale é que nos dá ainda o que nem sequer cogitamos pedir-lhe e que, entretanto, nos é necessário” S. Jerônimo

“Se conhecêssemos o valor do Santo Sacrifício da Missa que zelo não teríamos em assistir a ela!” S. Cura D´Ars

O Maravilhoso Valor da Santa Missa

“Na hora da morte, as Missas que houveres assistido serão a tua maior consolação. Toda Missa implora o teu perdão junto da justiça divina. Em toda Missa, podes diminuir a pena temporal devida aos teus pecados, e diminuí-la mais ou menos consoante o teu fervor. Assistindo com devoção à Missa, prestas a maior das honras à santa humanidade de Jesus Cristo. Ele compadece-se de muitas das tuas negligências e omissões. Perdoa-te os pecados veniais não confessados, dos quais, porém, te arrependeste. Diminui o império de Satanás sobre ti. Sufraga as almas do purgatório da melhor maneira possível. A missa preserva-te de muitos perigos e desgraças que te abateriam. Toda Missa diminui o teu purgatório. Toda Missa alcança-te um grau de glória maior no céu. Na Missa, recebes a bênção do sacerdote, a qual Nosso Senhor ratifica no céu. És abençoado em teus negócios e interesses pessoais. (livro As 15 Orações de Santa Brigida)

Depois de refletir sobre o valor da Santa Missa, que compromisso mais importante do que esse você pode ter no seu dia? Vamos nos esforçar para participarmos o mais frequente possível da Santa Missa, lembrando que a chamada “missa virtual” não se equipara à missa presencial, sendo apenas um momento de oração e não tendo o poder de nos transportar ao Calvário, como acontece quando estamos fisicamente presentes junto ao sacerdote.


terça-feira, 11 de maio de 2021

A NOITE ESCURA DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA


O livro “Conchita´s Spiritual Journey” do Pe. Ignacio Navarro narra os estágios da vida espiritual da beata Concepción Cabrera de Armida, conhecida como “Conchita”, uma esposa e mãe de 09 filhos, mística e fundadora de várias famílias religiosas, que tinha revelações privadas de Jesus Cristo através de locuções interiores, ou seja, não eram estritamente visões de Jesus, mas ela “ouvia” Jesus falar interiormente a seu coração.  Mesmo tendo sido beatificada em 04 de maio de 2019, nenhum católico é obrigado a acreditar nessas revelações, porém a Igreja atesta que não há nenhum erro teológico nas mesmas.

O livro possui vários relatos dessas “conversas” que ela tinha com Jesus e podemos perceber como Jesus a vai preparando para todas as graças que Ele lhe concede para cumprir sua missão aqui na terra. De todas essas experiências extraordinárias narradas no livro, a que mais me chamou atenção foi quando Jesus lhe revela sobre o martírio do coração de Maria Santíssima.

O sofrimento de Maria foi permitido por Deus não para purificá-la, ao contrário do sofrimento de todos os outros seres humanos, mas para pedir perdão e expiar os pecados dos outros, foi para a purificação de seus filhos. O coração de Maria ganhou essas graças após a Ascenção de Jesus, quando sofreu o martírio de se sentir sozinha e desamparada.

Essa profunda solidão não era em relação aos seres humanos ou à falta da presença física de Jesus, pois como ela é uma criatura perfeita e tem uma enorme fé viva, ela era consolada pela presença real de Jesus na Eucaristia.

O que ela experimentou foi o que S. João da Cruz chama de “noite escura”, um profundo abandono espiritual, o divino abandono da Trindade, que se escondeu dela. Esse abismo infinito de amor foi sua grande provação.

Maria sofreu mais que todas as almas porque ela sofreu um reflexo do abandono de Jesus na cruz e isso não há nenhuma comparação na linguagem humana. O seu martírio foi de amor e o desamparo que a envolveu por tantos anos foi um ato de amor de Deus Pai que queria derramar os tesouros e o mar de suas graças nas almas através desse sofrimento de nossa Mãe do Céu.

Durante a vida de Jesus, apesar de Maria saber e refletir a dor interna dele nela, o amor filial de Jesus velava essa dor para que ela sofresse menos. Mas depois da Ascenção, esses martírios a feriram com toda sua intensidade e amargura, derramando de sua alma pura para o bem de seus filhos até o fim do mundo.

Quanto a humanidade deve a Maria Santíssima! E como essas amargas dores não são conhecidas, honradas ou apreciadas! Nesse ano em que celebraremos a solenidade da Ascenção de Jesus ao Céu no dia de Nossa Senhora de Fátima, vamos recordar esse martírio do Imaculado Coração de Maria e, com nossas orações e mortificações, consolar um pouco nossa querida Mãe e Rainha que tanto sofreu por nós.



quinta-feira, 8 de abril de 2021

JESUS CAMINHAVA COM ELES, MAS NÃO O RECONHECERAM


Shaojie on Unsplash 

"Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram." (Lc 24, 13-16)

Esse é o trecho que dá início à passagem bíblica dos discípulos de Emaús, narrando uma das aparições de Jesus depois da ressurreição. O que eu gostaria de destacar desse trecho foi comentado por um sacerdote numa homilia e diz respeito justamente ao fato de os discípulos estarem discutindo e não reconhecerem Jesus.

Isso acontece frequentemente em nossas vidas. Andamos preocupados, são muitas tarefas para realizar, decisões para tomar, conversamos com um e com outro e não percebemos que Jesus está ali, ao nosso lado, querendo nos ajudar e só esperando uma oportunidade para falar conosco, para mostrar sua presença.

Mas como podemos reconhecer a presença de Jesus em nossa vida cotidiana? O primeiro passo é a busca frequente dos sacramentos da Confissão e da Eucaristia. A Igreja nos ensina que Jesus está presente realmente, com seu corpo, sangue, alma e divindade na Sagrada Eucaristia e, quando comungamos, ele se torna uma só carne conosco. Se permitirmos e se pedirmos, ele aos poucos vai transformando nossa vida a partir de dentro do nosso coração. Para quem ainda tem alguma dúvida da presença real de Jesus na Eucaristia, eu sugiro que pesquisem sobre os vários milagres eucarísticos acontecidos ao longo dos séculos, em especial o milagre eucarístico de Lanciano, na Itália, onde, por misericórdia e para aumentar a nossa fé, Jesus mostrou que ali, na hóstia consagrada, estão presentes carne e sangue humanos. Um site interessante sobre esse tema foi elaborado pelo Beato Carlo Acutis e aqui está o link.

A Confissão é outro sacramento onde nos encontramos diretamente com Jesus, que está ali, “disfarçado” de sacerdote e deseja perdoar nossos pecados, lavar a nossa culpa e nos deixar mais leves para seguir nosso caminho rumo ao Céu. Assim, a Confissão e a Eucaristia são os primeiros locais onde podemos nos encontrar frequentemente com Jesus e pedir sua graça para nos orientar em nossas decisões do dia a dia.

Além dos sacramentos, devemos procurar Jesus em nossa vida diária, através do exercício da meditação, que nos ajuda a perceber onde e como ele se comunica conosco em nosso dia a dia. Ao percebemos o quanto Deus se esforça para se fazer presente na nossa vida, o quanto ele cuida, com muito amor de cada um de nós, nosso amor por ele cresce e dá frutos. Assim, o objetivo da meditação não é conhecer mais, mas AMAR mais.

Deus está sempre tentando se comunicar conosco, mas muitas vezes não conseguimos escutar a sua voz. Ele nos fala através dos acontecimentos, não só na nossa própria vida, mas todos os acontecimentos da história, no mundo inteiro. Ele deseja que sejamos seus cooperadores livres para construir a história conosco. Devemos buscar interpretar esses sinais através dos quais Deus nos fala. Guiados pela luz da fé, devemos tentar entendê-los, aprendendo a distinguir sua voz.

Assim, precisamos nos conscientizar da importância de fazer nossa meditação diária, esse momento de encontro com o Deus da minha vida. Para começar, pode ser apenas 15 minutos, onde nos conectamos com Deus através da oração, pedindo ao Espírito Santo e ao nosso anjo da guarda que nos ajude a ver e entender o que Deus quer falar conosco naquele dia. Escolhemos um acontecimento daquele dia ou do dia anterior e nos perguntamos: o que Deus quis falar para mim com esse acontecimento? O que eu digo a mim mesmo? O que respondo a Deus?

Essa atitude simples pode transformar a sua vida. Você pode anotar em um caderno as respostas diárias a essas perguntas simples e, depois de um tempo, ler novamente para agradecer todas as maravilhas que Deus opera em sua vida e que estavam passando desapercebidas. E, como um “bônus”, verá que tomar decisões no mundo material ficará muito mais fácil depois de ter um relacionamento mais íntimo com o mundo sobrenatural.

Viver dessa forma, consciente da presença amorosa e atuante de Jesus em nossas vidas, nos transformará em pessoas mais pacientes, mais amorosas, mais atentas às necessidades dos outros, pois Jesus também está presente no meu irmão. “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40)

Peçamos a Jesus que caminhe sempre conosco e que possamos sentir sua ação em nossa história.