sexta-feira, 5 de junho de 2020

PREPARAR OS FILHOS PARA O MARTÍRIO


Eu sempre me impressionei com a história da mãe e de seus sete filhos narrada em 2 Macabeus, capítulo 7. O relato bíblico nos conta que, para não ceder à pressão do rei e comer carne de porco que era proibida para os judeus, a mãe viu cada um de seus filhos serem torturados e mortos, sendo por fim, martirizada também. Um dos trechos que me chama a atenção é o seguinte:

“Ela, vendo morrer seus sete filhos num só dia, suportou tudo corajosamente, esperando no Senhor. Ela encorajava cada um dos filhos, na língua de seus antepassados. Com atitude nobre, e animando sua ternura feminina com força viril, assim falava com os filhos: ‘Não sei como vocês apareceram em meu ventre. Não fui eu que dei a vocês o espírito e a vida, nem fui eu que dei forma aos membros de cada um de vocês. Foi o Criador do mundo, que modela a humanidade e determina a origem de tudo. Ele, na sua misericórdia, lhes devolverá o espírito e a vida, se vocês agora se sacrificarem pelas leis dele.’” (2Mc 7, 20-23)

Que fé extraordinária possui essa santa mulher! Sabemos que o instinto materno tende a proteger os filhos de todo o sofrimento, mas ela, pensando no bem maior, na felicidade eterna de seus filhos, os encorajou ao martírio!

Isso me faz pensar até que ponto eu, como mãe, estou preparando meus filhos para um eventual martírio. Não falo aqui necessariamente de um martírio sangrento, de dar a vida pela fé em Jesus Cristo (apesar que, nos tempos difíceis e extraordinários em que vivemos, essa não é uma hipótese tão absurda). Mas talvez de um martírio da própria reputação, um martírio de ser considerado fundamentalista, radical, louco... Até que ponto meus filhos (e nós também, como pais) estão dispostos a abrir mão de ter a tranquilidade e paz daqueles que seguem os ensinamentos do mundo para viver a radicalidade exigida no seguimento de Jesus?

Essa entrega total só é possível se temos uma fé sólida no amor infinito que Deus Pai tem por cada um de nós e de que a felicidade completa só teremos quando chegamos no Céu. Para isso precisamos basicamente de duas coisas: oração incessante pedindo o dom da fé (“eu creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”) e o aprofundamento na vida e nos ensinamentos de Jesus. Só podemos amar quem conhecemos. Só nos sentiremos amados se meditarmos e enxergarmos o que Jesus fez por nós, fez por mim, ao se entregar livremente para ser torturado e morto na cruz.

Assim é importante, desde que os filhos são pequenos, a mostrar para eles como são amados por Deus, como são preciosos aos olhos de Deus, o quanto Jesus sofreu para que eles pudessem estar, um dia, no Céu. Conforme eles vão crescendo, devemos estimular que tenham também um relacionamento pessoal e íntimo com o Senhor, através da oração pessoal e frequência aos sacramentos, afinal, Deus não tem netos, só filhos...

Devemos também estudar a doutrina da Igreja, as razões da nossa fé, o porquê defendemos determinada causa ou somos contra outras. Nossa inteligência precisa ser iluminada pela luz natural da razão e pela luz sobrenatural da graça. As duas coisas andam juntas. Nossa fé tem fundamento racional, na inteligência, não é apenas um “sentimento”. Sem alimentarmos esse lado racional da nossa fé, na hora da tentação, na hora que precisamos justificá-la ou tomar um posicionamento mais firme, podemos fraquejar. “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade”, nos ensina o S. João Paulo II. Todo esse estudo deve ter como objetivo sempre a busca da Verdade, que é o próprio Jesus Cristo. “Conhecerão a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Desta forma, com uma vida de oração e de busca da verdade, com a força e as graças que recebemos através dos sacramentos, especialmente da Confissão e da Eucaristia, nós e nossos filhos estaremos preparados para enfrentarmos as dificuldades que o mundo nos apresenta e até o martírio, se assim estiver nos planos amorosos do Pai.



photo credit: babasteve <a href="http://www.flickr.com/photos/64749744@N00/25941203631">Easter Week No. 5</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A IMPORTÂNCIA DA ROTINA (PARA ADULTOS E CRIANÇAS)


Normalmente associamos a palavra “rotina” com algo monótono do qual muitas vezes queremos “fugir”. Porém, uma rotina bem estruturada nos ajuda a organizar as nossas vidas e não perdermos tempo. O tempo é o bem mais precioso que recebemos (depois do dom da nossa vida). Depois que ele passa, não podemos voltar atrás e o único tempo que realmente possuímos é o agora. O ontem já foi e o amanhã não sabemos se virá.

Para as crianças, principalmente as menores, ter uma rotina com horários fixos para as várias atividades do dia, como acordar, banho, refeições, brincadeiras e sono, ajuda a dar segurança, elas ficam menos ansiosas, pois sabem o que vai acontecer depois. Para as maiores e para os adolescentes, seguir uma rotina é essencial para aprenderem a organizar o seu tempo e aproveitar melhor os momentos de estudos e de lazer.

Quem não tem uma rotina, vive sempre correndo, atribulado, querendo fazer tudo ao mesmo tempo e chega ao final do dia com a sensação de que não conseguiu fazer nada do que havia planejado. Isso gera muita frustração e desânimo. Ao contrário, quem tem horário para cada atividade, chega ao fim do dia sentindo a paz do dever cumprido.

Dependendo do seu temperamento, organizar e cumprir uma rotina pode ser um grande desafio. É preciso começar aos poucos e não desanimar com as falhas. Recomeçar com determinação no dia seguinte. A sugestão é organizar primeiro um período do seu dia, como por exemplo, a parte da manhã. Depois que conseguir cumprir por um bom tempo (algumas semanas) essa rotina, então acrescente os outros períodos (tarde e noite).

O que deve fazer parte da rotina?

A primeira coisa a se estabelecer é um horário para acordar. Depois, acrescente a cada meia hora as atividades do seu dia. É importante ter horários para refeições, para orações, para lazer/descanso e para atividades físicas. Você pode elaborar a rotina de cada dia da semana, não sendo necessário que todos os dias sejam exatamente iguais. Por exemplo, pode colocar horário para atividade física três vezes na semana e nos outros dias, nesse mesmo horário, colocar um momento de leitura. É muito importante também estabelecer o horário que vai dormir.

O ideal é que, após estabelecidos os horários, eles sejam rigorosamente cumpridos, na medida em que você saiba exatamente o que deve fazer em cada momento do dia. Pe. José Kentenich fala no “fiel e fidelíssimo cumprimento do dever” e S. Josemaria Escrivá tem uma frase que nos ajuda a focar na rotina: “Faze o que deves e estás no que fazes”. Ou seja, faça o que deve ser feito no horário que você mesmo estabeleceu e, naquele horário, esteja 100% concentrado naquela atividade, sem ficar pensando ou se distraindo com o que fez antes ou com o que irá fazer depois. Desta forma, cumprirá fielmente o seu dever.

Um paradoxo de quem cumpre a sua rotina é que quanto mais “escrava” a pessoa é dos horários estabelecidos, quanto mais fielmente cumpre os mesmos, mais livre se sente ao fim do dia, sabendo que fez tudo o que deveria ter feito e no momento em que deveria ter feito.

A virtude que está por trás da rotina é a virtude da ordem. Apesar de não ser considerada uma virtude de “primeira grandeza”, quem não se esforça para conquista-la, acaba por não conseguir também praticar bem as outras. Sem ordem, o tempo se perde, a vida passa e nós “somos vividos” ao invés de vivermos.

Nesse tempo de quarentena e confinamento que estamos vivendo, a rotina se torna fundamental até para mantermos nosso equilíbrio psicológico. Assim, incentivo a todos a fazerem essa experiência, também com os filhos, pois quanto antes aprenderem a gerenciar o tempo, mais livres serão quando se tornarem adultos.

photo credit: verchmarco <a href="http://www.flickr.com/photos/160866001@N07/48787135071">Calendar with pen and tablet symbolizes appointments</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 8 de abril de 2020

JESUS QUER CELEBRAR A PÁSCOA NA SUA CASA!



Na narrativa sobre os preparativos para a Última Ceia, São Lucas informa que Jesus pediu a Pedro e João que fossem preparar a Páscoa. O versículo 11, do capítulo 22 nos diz: “E direis ao dono da casa: o Mestre pergunta-te: Onde está a sala onde comerei a Páscoa com meus discípulos?” Esta pergunta que os apóstolos Pedro e João fizeram ao dono da casa onde foi celebrada a última ceia deve ser feita a cada um de nós, nesse ano tão conturbado onde não poderemos ir até a Igreja para celebrar a Páscoa. Nós não poderemos ir até a Igreja, mas Jesus quer vir celebrar a Páscoa em nossa casa!

Jesus então nos pergunta: onde está a sala onde comerei a Páscoa com vocês? Como vocês estão preparando esse momento tão único, o ponto alto do ano litúrgico na igreja doméstica de vocês? Esse ano será diferente, mas não significa que não possamos viver o Tríduo Pascal e o Domingo de Páscoa de forma muito rica e profunda, talvez até mais intensamente do que nos outros anos.

Todos estamos sofrendo pelo fato de as igrejas estarem fechadas, de não podermos nem visitar Jesus Eucarístico. O Pe. José Kentenich nos lembra que os governos podem até fechar ou destruir todas as igrejas, mas na igreja doméstica, no santuário de nosso lar, a fé continuará viva e ninguém pode destruir!

Devemos aproveitar esse momento único na história e preparar de forma extraordinária a vivência da Páscoa em nosso lar. Podemos encontrar na internet muitas sugestões criativas de como tornar essa vivência de Páscoa em nossa igreja doméstica um momento inesquecível. Vou elencar algumas sugestões:

5ª Feira Santa
- cobrir as imagens e crucifixo que tenham em casa, pode ser com fronhas, toalhas ou tecido TNT
- fazer um momento de “lava-pés” em família. Podem encenar esse momento da última ceia, com o marido lavando os pés da esposa e dos filhos, ou se revezando um lavando os pés do outro. Podem também fazer um momento de pedido de perdão, cada um pedindo perdão ao outro por alguma ofensa cometida ou por deixar de fazer algo que causasse alegria ao outro.
- assistir a missa pela TV ou internet em família

6ª Feira Santa
- lembrar que é um dia de silêncio, jejum e abstinência de carne
- fazer um momento de adoração espiritual, pedindo ao seu Santo Anjo da Guarda que vá até um Sacrário e adore a Jesus Sacramentado. Santo Antonio Maria Claret elaborou uma oração muito bonita para fazer diante de Jesus Sacramentado e pode ser vista aqui
- oração dos mistérios dolorosos do Santo Terço em família
- assistir pelos meios de comunicação a celebração da Paixão de Cristo às 15h
- preparar as estações da Via Sacra nos cômodos da casa, pode ser com cruzes de papel ou gravetos, ou imprimir as fotos de cada estação. Na Sexta Feira Santa, rezar a Via Sacra com os membros da família, caminhando para cada estação.

Sábado Santo
- preparar alguns enfeites para colocar na casa no Domingo de Páscoa. Podem usar a criatividade para fazer coisas com material reciclável
- como ainda é dia de silêncio, determinar os horários que poderão assistir TV ou usar o computador e celular. Manter as luzes da casa todas apagadas, para acende-las apenas no momento da Vigília Pascal
- assistir a missa da Vigília Pascal pelos meios de comunicação, podendo utilizar velas. Levar uma bacia com água e alguns ramos para o momento da renovação das promessas do Batismo. Descobrir as imagens e crucifixos que ficaram velados nesses dias
- preparar um jantar festivo em família

Domingo de Páscoa
- colocar os enfeites preparados no sábado para deixar a casa bem alegre
- assistir a missa de Páscoa pelos meios de comunicação
- almoço festivo em família, colocando na mesa o que há de melhor com relação a toalhas, pratos, talheres. Se possível, enfeitar com flores
- fazer uma vídeo chamada com os membros da família estendida: avós, tios, primos, para desejar uma Feliz Páscoa
- rezar os mistérios gloriosos do Santo Terço

Então, sem desânimo! Esse é o tempo favorável, o tempo para a nossa conversão, o tempo de intensificarmos nossas orações e o tempo de celebrarmos com muito amor a Páscoa em nossa família!




quinta-feira, 2 de abril de 2020

FOMOS COLOCADOS NO “CANTINHO” PARA PENSAR



A maioria dos pais conhece a técnica pedagógica de colocar o filho em um “cantinho”, quando a criança apresenta algum comportamento errado. Tirar do local onde o mau comportamento está ocorrendo e levá-lo a outro lugar para que fique por um tempo “pensando” no que fez de errado. Geralmente o tempo nesse “cantinho” é contado em minutos, de acordo com a idade da criança. Essa técnica tem se mostrado eficiente (pelo menos é a minha experiência quando tinha os filhos pequenos), pois a criança passa a entender que determinadas formas de agir podem ter como consequência a ida para o “cantinho”.

A parte que provavelmente não é muito eficaz é a de que a criança deva pensar na atitude errada que estava fazendo. Eu realmente não acredito que meus filhos ficavam pensando no que o comportamento deles não estava correto, principalmente por serem muito novos. Mas como o resultado era atingido, nunca dei muita importância para essa parte da técnica.

Agora, porém, com essa quarentena obrigatória que o mundo inteiro está passando, fiquei pensando se Deus, como um bom Pai, não achou que era hora de colocar cada um de nós no “cantinho” para pensarmos em nossas atitudes, para refletirmos como estamos preparando nosso encontro com Ele, nossa vida futura na eternidade.

O “cantinho” é o nosso próprio lar, a nossa família. Estamos todos confinados em casa, com um tempo que jamais imaginamos que possuíamos, muitos estão ansiosos, outros entediados, outros super atarefados com as questões domésticas e também do teletrabalho, mas será que esse tempo no “cantinho” está realmente sendo eficiente? Será que estamos aproveitando para pensar no “para que” de tudo isso?

Sabemos que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rm 8,28) e que a Divina Providência tudo conduz para que cada ser humano possa, um dia, gozar da alegria eterna no Céu, respeitando sempre a liberdade de cada um de querer ou não seguir esse caminho. Deus nunca quer o mal, mas muitas vezes o permite para tirar um bem maior. Acredito que essa é a nossa situação atual. Deus está falando “alto”, como que bradando para o mundo (e cada um de nós) acordar e refletir que caminho está seguindo.

Proponho aqui que façamos uma séria reflexão sobre a nossa vida, o caminho que estamos trilhando. Será que nossa meta é o Céu? Será que estamos mais preocupados com nosso bem estar físico do que com o nosso bem estar espiritual? Será que me relaciono com Deus como a um pai amoroso, que deseja o meu bem e que um dia quer me ver com Ele no Paraíso? Eu pelo menos converso com ele todo dia através de uma oração pessoal?

Outra reflexão que precisamos fazer é sobre nossa vida sacramental. A grande maioria de nós está privada da recepção dos sacramentos, especialmente aqueles que nos ajudam em nossa caminhada espiritual, a Confissão e a Eucaristia. Daí a pergunta: será que eu aproveitei bem as oportunidades de receber a Santa Eucaristia? Será que sempre a recebi com o devido respeito e amor? Confessei-me regularmente ou só uma vez ao ano como pede a Santa Igreja? Como fazia minhas confissões? Tinha arrependimento e o firme propósito de não mais pecar?

Precisamos levar esse tempo muito a sério. Já diz o ditado que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Não podemos desperdiçar nosso tempo, que é um dos bens mais preciosos que possuímos. Sabemos que, cedo ou tarde, essa quarentena irá acabar e a pergunta que fica é se fizemos aquilo que Deus gostaria que fizéssemos nesse período. Ainda estamos gozando do tempo da misericórdia de Deus, mas sabemos que um dia virá o tempo da justiça. Vamos dar a resposta que o nosso Pai espera de nós: acertar nosso rumo, fazer as mudanças de vida necessárias, para que possamos a cada dia amar mais e melhor a Deus e a nosso próximo e assim cumprir a missão para a qual cada um de nós foi criado.

photo credit: donnierayjones <a href="http://www.flickr.com/photos/11946169@N00/25771614245">Reese is Sad</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>



sábado, 22 de fevereiro de 2020

"SAIDINHA" COM OS FILHOS


A Nicole e eu em nossa "saidinha" da semana

Quando meus filhos eram pequenos, li sobre a importância de ter um tempo individual com cada um deles para conhecê-los melhor e aumentar o vínculo entre mãe e filho. Na época aquele conselho pareceu meio estranho, pois passava todo o meu tempo com eles e não conseguia imaginar como eles não estariam tão vinculados a mim no futuro.

Porém, eles foram crescendo, tendo suas próprias atividades e ficando menos tempo comigo. Foi então que iniciamos o costume da “saidinha com a mãe”. Combinamos que uma vez na semana eu levaria um deles para um passeio, onde eles escolhessem. Nesse tempo, nós conversaríamos sobre o que eles quisessem. Para que desse certo, o celular ficava desligado (tanto o meu quanto o deles).

Eles ficaram empolgados com a ideia, mais pelo fato de ir num lugar que eles gostam e que possam comer “porcarias”, do que pela conversa em si. O lugar tem que propiciar um ambiente de diálogo, então normalmente é uma lanchonete ou sorveteria. Cinema não conta, a menos que tenha um tempo para conversar antes ou depois do filme. O tempo gira em torno de uma hora.

A regra é sair com um filho de cada vez, então todos sabem que terão esse tempo comigo, com atenção exclusiva e em determinada semana do mês. Quando começamos, meu filho mais velho já tinha 14 anos, e os outros tinham 11 e 10. Com os menores foi mais fácil, porque a conversa fluía mais naturalmente, mas com o adolescente, demorava um certo tempo para “engrenar”.

Quando não há nenhum fato específico que eles queiram conversar, daí o assunto é comigo. Eu conto da minha vida, do que tem acontecido ou de como foi minha infância, adolescência, juventude... Falo também sobre o pai, os tios, os avós, enfim, sobre a nossa família. As vezes conto fatos da infância deles que eles não lembram mais. Esses são os assuntos preferidos deles. Conhecer a história, ver como as épocas eram diferentes e como as coisas aconteceram para chegarem até eles hoje.

Essa troca de experiências é super importante, porque não só os pais precisam conhecer melhor os filhos, mas também os filhos precisam conhecer o que seus pais pensam, o que gostam, o que não gostam, quem admiram etc. Só é possível amar quem conhecemos, assim o fato de gastar tempo para nos conhecer, aumenta e fortalece o amor e consequentemente o respeito entre nós. Nesses anos, fui surpreendida várias vezes com a profundidade da troca de experiências que esses diálogos proporcionaram.  

Esse ano o mais velho completa 18 anos e veio me perguntar esses dias se as nossas “saidinhas” iriam acabar porque ele já será oficialmente um adulto. Tranquilizei-o dizendo que iríamos continuar com as “saidinhas” até quando ele quisesse...

Assim, meu testemunho é que ter esse tipo de experiência e relacionamento com cada filho é muito importante e gratificante também. Na correria do dia a dia, acabamos não dialogando, só falamos sobre o cumprimento das obrigações, acabamos por resumir o relacionamento de pai e filho como ordens e obrigações por parte dos pais e pedidos de coisas por parte dos filhos. Tudo muito mecânico.

Não somos pais perfeitos, sabemos que muitas vezes erramos na educação dos filhos, mas vejo que ter esse momento de intimidade com cada um deles tem feito a diferença nessa época mais conturbada da adolescência.

domingo, 8 de dezembro de 2019

“EU TENHO DIREITO DE SER FELIZ”



“Eu tenho direito de ser feliz!” Essa frase tem justificado muitas atitudes em nossos dias. Mas será que ela é verdadeira? Será que realmente cada um de nós tem o “direito” de ser feliz?
Possuir um direito significa que posso exigi-lo, que tenho ferramentas para obrigar que ele seja respeitado. Mas quando falamos em felicidade, como podemos exigir tal direito? Quem podemos obrigar a nos fazer felizes? A resposta é simplesmente: não podemos. E se não podemos exigir, não podemos falar em direito.

Nós nascemos para sermos felizes, mas a nossa estrutura humana, a forma que fomos criados, não foi feita para que consigamos ser felizes por nós mesmos. Precisamos do outro para realmente atingir a felicidade. É como aquela história de várias pessoas numa mesa, cada um com seu prato de sopa, mas com uma colher de 2 metros de comprimento. Se cada um tentar se alimentar sozinho, todos vão morrer de fome. Mas se um pegar a sua colher e colocar na boca do outro, todos se alimentam e ficam satisfeitos.

Da mesma forma, a nossa felicidade depende do nosso empenho em fazer o outro feliz. Nosso esforço, nossa luta deve ser para tentar proporcionar o máximo de felicidade para aqueles que convivem conosco. A felicidade do meu marido, da minha esposa, dos meus filhos, dos meus netos, dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus avós, dos meus amigos deve ser prioridade. E o que veremos é que a nossa felicidade vem como consequência desse empenho na felicidade dos outros.

Então, por trás da frase: “Eu tenho o direito de ser feliz”, encontramos, no fundo, uma motivação egoísta, que está pensando em seu próprio bem em primeiro lugar, e o egoísmo é o contrário do amor, é aquilo que mata o amor. Quem busca a própria felicidade sem se preocupar com a felicidade de quem está ao seu redor, no final, acabará infeliz.

Obviamente é impossível agradar a todos e também é impossível ser feliz o tempo todo enquanto vivermos nesse mundo. Dificuldades, sofrimento, decepções fazem parte da vida de todos. Mas a felicidade é muito maior do que momentos de alegria e de prazer. A felicidade é a paz que temos em estar cumprindo bem o nosso papel, em estar cumprindo a missão, o ideal para o qual Deus nos criou.

Assim, a primeira pessoa que temos que nos preocupar em agradar é a Deus. Ele nos deu os Mandamentos e a doutrina moral da Igreja para nos ajudar nessa caminhada rumo ao Céu. Ele nos enviou seu próprio Filho para nos dar o modelo de amor e serviço. Ele nos alimenta e fortalece através dos sacramentos, em especial da confissão e da eucaristia. Ele é a fonte última de nossa felicidade, porque foi Ele quem nos criou para a felicidade sem fim que experimentaremos, um dia, no Céu.

Portanto, não nos deixemos iludir pela mentalidade egoísta de nossa sociedade que prega esse falso “direito” à felicidade. Isso é armadilha do inimigo, que deseja o ser humano cada vez mais egoísta, pois quanto mais egoísmo existir no mundo, menos amor haverá. E Deus é Amor. Menos amor, menos Deus...

photo credit: Gareth1953 All Right Now <a href="http://www.flickr.com/photos/40837632@N05/44073174905">Hyde Park - June 2018 - Smile For Daddy</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>





terça-feira, 3 de dezembro de 2019

ADVENTO: NÃO DEVEMOS PERDER TEMPO!


Iniciamos mais um ano litúrgico com as semanas que nos preparam para a vinda do Menino Jesus no Natal. Mais do que nos lembrar de um nascimento fora do comum de milênios passados, esse tempo do Advento deve nos ajudar a estarmos preparados para o nosso encontro pessoal com Cristo que ocorrerá no dia de nossa morte ou no dia de sua segunda vinda (o que acontecer primeiro!).

É um tempo de reflexão e de penitência, não tão forte quanto a Quaresma, mas também somos convidados a fazer um balanço de nossa vida de vinculação com Deus, pedir perdão pelas falhas, oferecer algum tipo de sacrifício em reparação e fazer o firme propósito de melhorar, pelo menos um pouquinho. Intensificar nossa luta contra o “homem velho” que existe dentro de nós, abraçando a salvação que Jesus já mereceu por cada um, fazendo a nossa parte, colocando a “mão na massa” e cumprindo fielmente nossos propósitos de ser uma pessoa melhor, que procura amar mais e servir melhor quem está ao nosso redor.

Para quem tem filhos (ou netos), esse é um tempo privilegiado para cultivar a fé no coração de cada um deles. Eles precisam saber e também experimentar na prática, que fazem parte de uma família maior, a Igreja, que são membros do Corpo Místico de Cristo. Participar da novena de Natal com amigos e vizinhos, montar o presépio em casa, fazer as orações da coroa do advento acendendo cada domingo uma vela, montar a Árvore de Jessé, fazer um ato concreto de caridade para uma família mais carente, enfim, são muitos meios que a Igreja proporciona para vivermos intensamente essa época.

Para os filhos maiores, é importante salientar a importância de preparar o coração para receber Jesus no Natal, através de uma boa confissão. Quem sabe participar de mais alguma missa durante a semana ou rezar mais vezes o terço como forma de preparar um presente espiritual para o aniversariante, com o estímulo de saber que no mundo todo, a família cristã inteira, está se preparando para esse grande momento.

O Papa Bento XVI, em sua mensagem Urbi et Orbi de 2006, fala dessa realidade do Corpo Místico de Cristo: “Em Belém nasceu o povo cristão, corpo místico de Cristo no qual cada membro está unido intimamente ao outro por uma total solidariedade. O nosso Salvador nasceu para todos. Devemos proclamá-lo não somente com palavras, mas também com toda a nossa vida, dando ao mundo o testemunho de comunidades unidas e abertas, nas quais reina a fraternidade e o perdão, a acolhida e o serviço recíproco, a verdade, a justiça e o amor.”

Nós precisamos saber e nossos filhos também precisam saber que, cada ato de amor, cada oração, cada sacrifício que eu faça, mesmo que ninguém veja, faz bem para toda a Igreja, para todo o Corpo de Cristo. Então não devemos perder tempo! Nossa meta é o Céu! E para chegarmos um dia lá, precisamos viver bem o nosso hoje, o nosso agora.

photo credit: Joe Shlabotnik <a href="http://www.flickr.com/photos/40646519@N00/46478200181">Fourth Sunday Of Advent</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>