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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

OS SAPATOS VERMELHOS DO PAPA


 

Olhando as imagens do funeral de S. João Paulo II, mais uma vez me deparei com os sapatos vermelhos do Papa. Sempre achei que eram muito bonitos, mas não sabia de seu profundo significado. Recentemente aprendi que a cor vermelha dos sapatos do Sumo Pontífice nos recorda do amor de Cristo por sua Igreja pois derramou seu sangue por ela e também do sangue de todos os mártires que deram sua vida por amor a Cristo e a sua Igreja.

Desta forma, quando o Papa usa os sapatos vermelhos está nos lembrando que a Igreja está edificada sobre o sangue de Jesus e o sangue dos mártires! O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2473, nos ensina: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina cristã. Suporta a morte com um ato de fortaleza. «Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus» (Sto. Inácio de Antioquia)”

Os mártires têm sua inteligência iluminada pela luz natural da razão e a luz sobrenatural da fé que lhes diz que a verdadeira vida e a verdadeira felicidade estão no Céu, junto a Nosso Senhor Jesus Cristo e que não vale a pena trocar a felicidade eterna por mais alguns anos de vida nessa terra. Assim, dar a vida para testemunhar sua fé em Jesus é a escolha mais lógica a se fazer. 

Na audiência pública do dia 25/09/2019, a qual eu tive a alegria de estar presente, o Papa Francisco nos disse: “A Igreja de hoje é rica de mártires. Hoje há mais mártires do que no tempo do início da Igreja. Os mártires estão em todos os lugares. A Igreja é irrigada pelo sangue deles que é a semente de novos cristãos e garante crescimento e fecundidade ao povo de Deus. Os mártires não são "santinhos", mas homens e mulheres de carne e osso que, como diz o Apocalipse, “lavaram suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro". Estes são os verdadeiros vencedores.” 

Segundo levantamento do site World Watch List de 2020, oito cristãos são mortos e dez são presos injustamente todos os dias virtude de sua fé e 182 igrejas cristãs são atacadas todas as semanas. Esses números são expressivos e quase não são noticiados. Apenas quando acontecem em grandes cidades do Ocidente, como foi o caso das três pessoas mortas a facadas por um adepto do islamismo na cidade francesa de Nice no fim do mês de outubro, é que recebemos alguma informação. 

Será que nós estamos preparados para dar a vida por nossa fé? Ou se chegar esse momento, renegaremos a Cristo para não perdermos a nossa vida? Claro que por nós mesmos, não conseguimos nada. Quem dá a graça da perseverança até o fim é o próprio Jesus. Mas isso não significa que devemos ficar esperando a graça sem fazermos nada. Podemos e devemos nos preparar para defender a nossa fé a qualquer custo. 

Essa preparação se dá primeiramente com uma vida de oração constante e com a frequência aos sacramentos, especialmente a confissão e a eucaristia. O estudo da doutrina católica e do magistério da Igreja também nos fortalece. Ler a biografia de tantos santos que deram sua vida por Jesus pode ser uma grande inspiração. 

Nem todos seremos chamados ao martírio de sangue, isso também é um privilégio reservado a alguns escolhidos, de acordo com a amorosa providência de Deus Pai. Porém, no mundo em que vivemos, em alguma medida cada um de nós, cristãos, passa por algum tipo de martírio. Viver segundo o Evangelho significa valorizar mais o ser do que o ter; significa renunciar a si mesmo, aos nossos gostos e desejos para fazer o bem para o outro; significa ser contrário a tantas ideologias que estão na moda ou são “politicamente corretas” e isso pode resultar em perda de amizades, dificuldades no trabalho e às vezes dentro da própria família. 

Não devemos desanimar com o sofrimento e as dificuldades. Devemos contar com a ajuda sempre pronta de nosso santo anjo da guarda que quer nos ver no Céu, um dia. Temos uma Mãe Santíssima que cuida de nós com amor infinito. E o próprio Jesus nos encoraja: “Mas quem perseverar até o fim, será salvo!” Mt 10,22


photo credit: Beyond Forgetting <a href="http://www.flickr.com/photos/23342600@N00/8226888">POPE JOHN PAUL II</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

sexta-feira, 5 de junho de 2020

PREPARAR OS FILHOS PARA O MARTÍRIO


Eu sempre me impressionei com a história da mãe e de seus sete filhos narrada em 2 Macabeus, capítulo 7. O relato bíblico nos conta que, para não ceder à pressão do rei e comer carne de porco que era proibida para os judeus, a mãe viu cada um de seus filhos serem torturados e mortos, sendo por fim, martirizada também. Um dos trechos que me chama a atenção é o seguinte:

“Ela, vendo morrer seus sete filhos num só dia, suportou tudo corajosamente, esperando no Senhor. Ela encorajava cada um dos filhos, na língua de seus antepassados. Com atitude nobre, e animando sua ternura feminina com força viril, assim falava com os filhos: ‘Não sei como vocês apareceram em meu ventre. Não fui eu que dei a vocês o espírito e a vida, nem fui eu que dei forma aos membros de cada um de vocês. Foi o Criador do mundo, que modela a humanidade e determina a origem de tudo. Ele, na sua misericórdia, lhes devolverá o espírito e a vida, se vocês agora se sacrificarem pelas leis dele.’” (2Mc 7, 20-23)

Que fé extraordinária possui essa santa mulher! Sabemos que o instinto materno tende a proteger os filhos de todo o sofrimento, mas ela, pensando no bem maior, na felicidade eterna de seus filhos, os encorajou ao martírio!

Isso me faz pensar até que ponto eu, como mãe, estou preparando meus filhos para um eventual martírio. Não falo aqui necessariamente de um martírio sangrento, de dar a vida pela fé em Jesus Cristo (apesar que, nos tempos difíceis e extraordinários em que vivemos, essa não é uma hipótese tão absurda). Mas talvez de um martírio da própria reputação, um martírio de ser considerado fundamentalista, radical, louco... Até que ponto meus filhos (e nós também, como pais) estão dispostos a abrir mão de ter a tranquilidade e paz daqueles que seguem os ensinamentos do mundo para viver a radicalidade exigida no seguimento de Jesus?

Essa entrega total só é possível se temos uma fé sólida no amor infinito que Deus Pai tem por cada um de nós e de que a felicidade completa só teremos quando chegamos no Céu. Para isso precisamos basicamente de duas coisas: oração incessante pedindo o dom da fé (“eu creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”) e o aprofundamento na vida e nos ensinamentos de Jesus. Só podemos amar quem conhecemos. Só nos sentiremos amados se meditarmos e enxergarmos o que Jesus fez por nós, fez por mim, ao se entregar livremente para ser torturado e morto na cruz.

Assim é importante, desde que os filhos são pequenos, a mostrar para eles como são amados por Deus, como são preciosos aos olhos de Deus, o quanto Jesus sofreu para que eles pudessem estar, um dia, no Céu. Conforme eles vão crescendo, devemos estimular que tenham também um relacionamento pessoal e íntimo com o Senhor, através da oração pessoal e frequência aos sacramentos, afinal, Deus não tem netos, só filhos...

Devemos também estudar a doutrina da Igreja, as razões da nossa fé, o porquê defendemos determinada causa ou somos contra outras. Nossa inteligência precisa ser iluminada pela luz natural da razão e pela luz sobrenatural da graça. As duas coisas andam juntas. Nossa fé tem fundamento racional, na inteligência, não é apenas um “sentimento”. Sem alimentarmos esse lado racional da nossa fé, na hora da tentação, na hora que precisamos justificá-la ou tomar um posicionamento mais firme, podemos fraquejar. “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade”, nos ensina o S. João Paulo II. Todo esse estudo deve ter como objetivo sempre a busca da Verdade, que é o próprio Jesus Cristo. “Conhecerão a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Desta forma, com uma vida de oração e de busca da verdade, com a força e as graças que recebemos através dos sacramentos, especialmente da Confissão e da Eucaristia, nós e nossos filhos estaremos preparados para enfrentarmos as dificuldades que o mundo nos apresenta e até o martírio, se assim estiver nos planos amorosos do Pai.



photo credit: babasteve <a href="http://www.flickr.com/photos/64749744@N00/25941203631">Easter Week No. 5</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>