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segunda-feira, 16 de outubro de 2023

ONDE SUA RAIZ ESTÁ PLANTADA?

 



A função da raiz numa planta é fixá-la no solo e absorver água e outros nutrientes, sendo essencial para a vida da planta. A raiz fica normalmente escondida embaixo da terra e quanto maior é a árvore, mais profunda está sua raiz.

O ser humano também cultiva sua raiz, não de forma biológica como as plantas, mas de forma espiritual, emocional, intelectual. Nós também precisamos de nossas raízes para nos estabelecermos na vida e nos abastecermos para enfrentarmos as diferentes dificuldades que a vida nos traz. Então a questão é: onde a sua raiz está plantada? Onde está o alicerce da sua vida, o local de onde você retira os nutrientes para sustentar seu espírito e produzir fruto?

O primeiro local onde começamos a crescer nossas raízes é no seio de nossa família. O amor e o cuidado que recebemos durante os anos de infância estimula o crescimento e o fortalecimento de nossa vida espiritual e emocional. Se tivemos algum tipo de trauma ou negligência nesses primeiros anos de nossa vida, nossas raízes já ficam prejudicadas. Mas sempre é possível replantá-las num lugar onde possam crescer e nos ajudar a dar fruto.

Nos anos da adolescência, onde começamos a refletir sobre quem somos e o que queremos ser, ficamos desorientados e corremos o risco de fixarmos nossas raízes em solo pedregoso, aquele da busca do prazer e da satisfação imediata. Quem tem raiz em solo desse tipo, não suporta a menor adversidade: o sol forte pode queimar e um vento mais forte pode arrancar.

O único solo onde estaremos verdadeiramente seguros e de onde podemos extrair os nutrientes necessários para termos uma vida emocional e espiritual saudável e fecunda é o amor de Deus. Saber que somos infinitamente amados, que fomos desejados, que temos uma missão para cumprir, que devemos dar frutos de amor, de justiça, de paz, de misericórdia. Isso tudo se torna verdade quando nossas raízes estão fixadas no amor infinito do Pai.

Mas como transplantar nossas raízes para esse solo fecundo? O primeiro passo é o querer, é o desejo de estar enraizado em Deus. Depois precisamos nos livrar de todo pecado grave, através do sacramento da Reconciliação. Lutar para permanecer em estado de graça, mas se cair, levantar-se e correr para os braços misericordiosos do Pai que nos espera no confessionário. Fortalecer esse desejo de estar no Pai através da eucaristia, o mais frequente que pudermos. Quanto mais recebermos Jesus que está realmente presente na sagrada Eucaristia, mais nos enraizaremos no amor do Pai.

E por fim, a oração, o contato direto do nosso coração com o coração do Pai. Rezar é conversar com Deus, da mesma forma que conversamos com quem amamos. Com simplicidade, com intimidade, com reverência e profunda gratidão. Deus é uma pessoa que está constantemente tentando entrar em contato conosco, através das coisas, da natureza, das pessoas e dos acontecimentos diários de nossa vida. Se pararmos para prestar atenção, é possível perceber esses sinais e responder esse chamado de amor com nossa oração.

Peçamos ao nosso anjo da guarda, a criatura que mais nos ama nesse mundo, com amor totalmente incondicional que só quer a nossa salvação, que nos ajude a aprofundarmos nossas raízes no amor do Pai, para que cresçamos fortes e produzamos abundantes frutos. 


Foto de Jeremy Bishop na Unsplash

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NÃO SE DEIXE ESCRAVIZAR!



A vida humana é o maior dom recebido de Deus. É uma graça imensa poder existir e dizer: eu sou! Eu existo! Depois da vida, o dom maior que recebemos é a liberdade. A liberdade é o que nos capacita a realizarmos nossa maior vocação: amar e ser amado. Sem a liberdade, o amor é impossível. Só quem é livre pode amar, pode se entregar para o outro, pode provar seu amor através do sacrifício e da doação.

Nós nascemos livres exteriormente, ou seja, não somos escravos, propriedade de ninguém. Porém, a liberdade interior, aquela que nos capacita para amar, precisa ser conquistada. Nascemos atados aos nossos desejos e aos nossos caprichos, egoístas, escravos do nosso próprio eu. A Igreja Católica ensina que isso acontece pois nascemos com o “pecado original”. Neste pecado, o homem preferiu-se a si próprio a Deus, e por isso desprezou Deus: optou por si próprio contra Deus, contra as exigências da sua condição de criatura e, daí, contra o seu próprio bem. Constituído num estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente «divinizado» por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis «ser como Deus», mas «sem Deus, em vez de Deus, e não segundo Deus» (CIC § 398) 

O Papa Bento XVI explica que o pecado original é um pecado relacional, já que ele rejeitou e danificou a relação entre o Criador e sua criatura, pois quis tornar o ser humano um deus. Cada um de nós entra numa situação na qual a relacionalidade está ferida. Consequentemente cada pessoa é, desde o começo, danificada nos relacionamentos e não se envolve neles como deveria. O pecado persegue o ser humano, e ele cede ao pecado.[1]

Para nos livrarmos dessas consequências do pecado, precisamos lutar para restabelecer a ordem desejada por Deus para a natureza humana: a condição de ser filho de Deus deve dominar a nossa inteligência e vontade que deve dominar os nossos instintos. Quando nascemos, nossos instintos (fome, frio, medo, etc) dominam inteiramente nosso ser. Conforme vamos crescendo e amadurecendo, precisamos aprender a dominar esses instintos e permitir que a luz da graça ilumine nossa inteligência para distinguir o que é um bem para nós e fortalecer nossa vontade para agir de acordo com essa inspiração. 

Somente com esse exercício de domínio dos instintos é que realmente seremos livres para conseguirmos amar e sermos felizes. Não se trata de viver “reprimindo” os desejos ou de viver como se esses desejos não existissem, mas de direcionar e ordenar. Pensemos numa pessoa que não consegue ver um pedaço de bolo sem “precisar” comê-lo. Não importa se ela sofre de diabetes ou outro mal derivado do consumo de doces: quando ela vê o bolo, vai e come. Essa pessoa é livre ou se tornou escrava do seu desejo por doce? Outra pessoa “explode” e faz grosserias pela mínima contrariedade que aparece em seu caminho. Quem convive com ela está sempre “pisando em ovos”, angustiada esperando a próxima explosão. Essa pessoa é livre ou é dominada pelas circunstâncias? 

O amor exige que saiamos de nós mesmos para nos doarmos ao outro. Desta forma, quem é escravo dos próprios desejos tem muita dificuldade de amar e quem não ama, não consegue ser feliz. Essa luta deve começar primeiro com a decisão de vencer esses instintos. Depois, devemos escolher apenas um ponto a ser combatido com um propósito muito concreto, cujo cumprimento pode ser avaliado no fim do dia. Quando conseguimos conquistar o domínio desse ponto, então passamos para o próximo. E assim seguimos até o fim da vida! Por exemplo: quem tem dificuldade em controlar a comida, pode fazer o propósito de, ao menos em uma das refeições no dia, renunciar de comer algo que gosta ou trocar o suco por água durante a refeição ou ainda comer apenas o que serviu da primeira vez no prato. Quando isso já não for mais tão difícil, pode aumentar para duas refeições no dia, depois para uma renúncia mais forte, como não comer doces durante a semana ou trocar uma refeição durante a semana por pão e água. Por último, é aconselhável que deixemos anotado em algum lugar o nosso propósito e todos os dias, antes de deitar-se, verificar se cumprimos ou não. Isso ajuda também a não esquecermos do que nos comprometemos a fazer. 

Outras atitudes que podemos ter durante o dia para fortalecer nossa vontade e dominar os instintos é acrescentar pequenos incômodos, como por exemplo, esperar alguns minutos antes de beber água quando está com sede, esperar um pouco antes de ligar o ar-condicionado, tomar banho um pouco mais frio do que gostaria, esperar alguns minutos antes de olhar o celular de manhã, controlar o impulso de comentar em alguma publicação, etc. Enfim, são inúmeras pequenas coisas que podemos fazer para nos tornar mais fortes e mais livres. 

É muito importante dizer que, sem a ajuda da graça, não avançaremos. Precisamos pedir insistentemente que nosso Senhor Jesus Cristo, quem tanto amou e foi verdadeiramente livre, nos ajude nessa caminhada. Precisamos ainda de ajuda a sermos perseverantes, a não desanimar quando cairmos e não conseguirmos cumprir os propósitos. O essencial é levantar-se e continuar lutando! Por isso, avante! Não se deixe escravizar por seus próprios caprichos! Fomos criados para sermos livres e amar! 


[1] Ratzinger, Joseph, In the Beginning – A Catholic understanding of the story of creation and the Fall, Ed. Ressourcement, 1995, EUA, pg. 72-73

photo credit: JobsForFelonsHub <a href="http://www.flickr.com/photos/144110575@N07/27144250713">Female in handcuffs</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

sábado, 5 de dezembro de 2020

AMOR AO PRÓXIMO



“O amor é a lei fundamental do mundo”, nos ensina S. Francisco de Salles. Segundo essa lei, Deus faz tudo por amor, com amor e através do amor. Por isso, o ser humano, como obra prima da Criação, é chamado a amar como Deus ama. 

O amor de Deus por cada um de nós é um amor incondicional, que se oferece inteiramente, não importando nossas limitações e pecados. Ele está sempre pronto a perdoar e a nos acolher em seus braços. Amar desse jeito, para nós, é muito difícil, pois somos criaturas inclinadas ao egoísmo, a pensar só em nós mesmos, em nosso bem, em nosso prazer. Mas não é impossível. Deve ser um exercício diário de renúncia aos próprios desejos, para fazer o bem para o outro, pois o amor não é sentimento, mas sim, ação, atitude. 

Somos chamados a amar a todos sem preconceito. O preconceito é uma ideia que temos do outro, que pode ser em relação a sua cor, sua raça, sua religião, seu sexo, seu estilo de vida, suas escolhas políticas, que nos impede de nos aproximar, de nos vincular e consequentemente de amar. O preconceito também faz com que julguemos os outros, muitas vezes sem nem conhecer direito a situação. 

Para conseguir vencer o preconceito precisamos fazer o exercício de nos colocar no lugar do outro e pensar com empatia. Aqui vale a “regra de ouro” de Jesus, expressa em Mt 7,12: "Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles". Vale refletir também sobre a razão de minha repulsa frente ao outro, qual a origem dessa barreira que levantei e que me impede de amar e servir. 

Se essa barreira se deve a alguma atitude do outro que eu considero errada, então o amor deve me levar a buscar o diálogo. Expor o meu ponto de vista, mas sempre com respeito, sabendo que o outro terá a liberdade de aceitar ou não; de mudar de atitude ou continuar agindo daquela forma. Independente de qual seja a resposta, devo oferecer acolhimento e compreensão. 

O outro lado dessa questão é qual deve ser a minha atitude se eu sofro algum tipo de discriminação ou preconceito. Nesse caso, devemos ter a consciência de que não podemos controlar as atitudes dos outros, apenas controlamos como reagir frente a elas. A atitude de “vitimismo” não ajuda em nada e demonstra imaturidade, pois transfere para o outro a responsabilidade do seu sentimento, da sua postura em relação à vida. 

Aqui também vale o exercício de me colocar no lugar do outro e pensar: talvez se tivesse tido a mesma educação, sofrido os mesmos traumas, vivido as mesmas experiências, poderia estar agindo muito pior do que essa pessoa. Então, não posso julgar e muito menos condenar o outro. O que devo é perdoar, lembrando as palavras de Jesus frente a seus algozes: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34) 

Isso não significa que não devemos corrigir se vemos a outra pessoa agindo de maneira errada. A correção fraterna também é uma atitude de amor. Mas a ênfase deve ser sempre na atitude errada e não na pessoa em si. Cada ser humano tem um valor inestimável para Deus, então precisamos também reconhecer esse valor do outro, independentemente de suas atitudes. 

Uma coisa que não podemos esquecer é que, para nos amarmos como irmãos, precisamos reconhecer que temos um Pai em comum. “Fraternidade sem paternidade é um contra senso”, já disse o Pe. Kentenich. Dessa forma, sem a dimensão sobrenatural, sem pedirmos insistentemente ao Pai a graça de aprendermos a nos amar, nada conseguiremos. O braço horizontal da cruz, que nos lembra que somos irmãos e estamos no mesmo nível, não está solto no ar, ele está fixo na haste vertical, que nos recorda que precisamos ter os pés no chão, mas buscar o alto, só assim amaremos fraternalmente. 

Amar não é fácil, pois significa um tipo de morte. Devemos matar o egoísmo em nós, a tendência a nos colocarmos no centro do mundo, de buscar só o que nos agrada e nos dá prazer e sair ao encontro do outro, para servi-lo em suas necessidades. Sozinhos, não conseguimos. Além de pedir insistentemente: “Senhor, ensina-me a amar!”, podemos contar com o auxílio de nossos irmãos, os santos, que dominaram a arte de amar e conhecer a biografia deles para ver como conseguiram colocar o mandamento do amor na prática. Devemos pedir ainda o auxílio de Maria Santíssima, nossa Mãe e Rainha e grande Educadora, nessa caminhada de crescimento no amor.


photo credit: Caitlinator <a href="http://www.flickr.com/photos/21484712@N00/2700430636">Alex & Ashley</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

OS SAPATOS VERMELHOS DO PAPA


 

Olhando as imagens do funeral de S. João Paulo II, mais uma vez me deparei com os sapatos vermelhos do Papa. Sempre achei que eram muito bonitos, mas não sabia de seu profundo significado. Recentemente aprendi que a cor vermelha dos sapatos do Sumo Pontífice nos recorda do amor de Cristo por sua Igreja pois derramou seu sangue por ela e também do sangue de todos os mártires que deram sua vida por amor a Cristo e a sua Igreja.

Desta forma, quando o Papa usa os sapatos vermelhos está nos lembrando que a Igreja está edificada sobre o sangue de Jesus e o sangue dos mártires! O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2473, nos ensina: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina cristã. Suporta a morte com um ato de fortaleza. «Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus» (Sto. Inácio de Antioquia)”

Os mártires têm sua inteligência iluminada pela luz natural da razão e a luz sobrenatural da fé que lhes diz que a verdadeira vida e a verdadeira felicidade estão no Céu, junto a Nosso Senhor Jesus Cristo e que não vale a pena trocar a felicidade eterna por mais alguns anos de vida nessa terra. Assim, dar a vida para testemunhar sua fé em Jesus é a escolha mais lógica a se fazer. 

Na audiência pública do dia 25/09/2019, a qual eu tive a alegria de estar presente, o Papa Francisco nos disse: “A Igreja de hoje é rica de mártires. Hoje há mais mártires do que no tempo do início da Igreja. Os mártires estão em todos os lugares. A Igreja é irrigada pelo sangue deles que é a semente de novos cristãos e garante crescimento e fecundidade ao povo de Deus. Os mártires não são "santinhos", mas homens e mulheres de carne e osso que, como diz o Apocalipse, “lavaram suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro". Estes são os verdadeiros vencedores.” 

Segundo levantamento do site World Watch List de 2020, oito cristãos são mortos e dez são presos injustamente todos os dias virtude de sua fé e 182 igrejas cristãs são atacadas todas as semanas. Esses números são expressivos e quase não são noticiados. Apenas quando acontecem em grandes cidades do Ocidente, como foi o caso das três pessoas mortas a facadas por um adepto do islamismo na cidade francesa de Nice no fim do mês de outubro, é que recebemos alguma informação. 

Será que nós estamos preparados para dar a vida por nossa fé? Ou se chegar esse momento, renegaremos a Cristo para não perdermos a nossa vida? Claro que por nós mesmos, não conseguimos nada. Quem dá a graça da perseverança até o fim é o próprio Jesus. Mas isso não significa que devemos ficar esperando a graça sem fazermos nada. Podemos e devemos nos preparar para defender a nossa fé a qualquer custo. 

Essa preparação se dá primeiramente com uma vida de oração constante e com a frequência aos sacramentos, especialmente a confissão e a eucaristia. O estudo da doutrina católica e do magistério da Igreja também nos fortalece. Ler a biografia de tantos santos que deram sua vida por Jesus pode ser uma grande inspiração. 

Nem todos seremos chamados ao martírio de sangue, isso também é um privilégio reservado a alguns escolhidos, de acordo com a amorosa providência de Deus Pai. Porém, no mundo em que vivemos, em alguma medida cada um de nós, cristãos, passa por algum tipo de martírio. Viver segundo o Evangelho significa valorizar mais o ser do que o ter; significa renunciar a si mesmo, aos nossos gostos e desejos para fazer o bem para o outro; significa ser contrário a tantas ideologias que estão na moda ou são “politicamente corretas” e isso pode resultar em perda de amizades, dificuldades no trabalho e às vezes dentro da própria família. 

Não devemos desanimar com o sofrimento e as dificuldades. Devemos contar com a ajuda sempre pronta de nosso santo anjo da guarda que quer nos ver no Céu, um dia. Temos uma Mãe Santíssima que cuida de nós com amor infinito. E o próprio Jesus nos encoraja: “Mas quem perseverar até o fim, será salvo!” Mt 10,22


photo credit: Beyond Forgetting <a href="http://www.flickr.com/photos/23342600@N00/8226888">POPE JOHN PAUL II</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

sexta-feira, 5 de junho de 2020

PREPARAR OS FILHOS PARA O MARTÍRIO


Eu sempre me impressionei com a história da mãe e de seus sete filhos narrada em 2 Macabeus, capítulo 7. O relato bíblico nos conta que, para não ceder à pressão do rei e comer carne de porco que era proibida para os judeus, a mãe viu cada um de seus filhos serem torturados e mortos, sendo por fim, martirizada também. Um dos trechos que me chama a atenção é o seguinte:

“Ela, vendo morrer seus sete filhos num só dia, suportou tudo corajosamente, esperando no Senhor. Ela encorajava cada um dos filhos, na língua de seus antepassados. Com atitude nobre, e animando sua ternura feminina com força viril, assim falava com os filhos: ‘Não sei como vocês apareceram em meu ventre. Não fui eu que dei a vocês o espírito e a vida, nem fui eu que dei forma aos membros de cada um de vocês. Foi o Criador do mundo, que modela a humanidade e determina a origem de tudo. Ele, na sua misericórdia, lhes devolverá o espírito e a vida, se vocês agora se sacrificarem pelas leis dele.’” (2Mc 7, 20-23)

Que fé extraordinária possui essa santa mulher! Sabemos que o instinto materno tende a proteger os filhos de todo o sofrimento, mas ela, pensando no bem maior, na felicidade eterna de seus filhos, os encorajou ao martírio!

Isso me faz pensar até que ponto eu, como mãe, estou preparando meus filhos para um eventual martírio. Não falo aqui necessariamente de um martírio sangrento, de dar a vida pela fé em Jesus Cristo (apesar que, nos tempos difíceis e extraordinários em que vivemos, essa não é uma hipótese tão absurda). Mas talvez de um martírio da própria reputação, um martírio de ser considerado fundamentalista, radical, louco... Até que ponto meus filhos (e nós também, como pais) estão dispostos a abrir mão de ter a tranquilidade e paz daqueles que seguem os ensinamentos do mundo para viver a radicalidade exigida no seguimento de Jesus?

Essa entrega total só é possível se temos uma fé sólida no amor infinito que Deus Pai tem por cada um de nós e de que a felicidade completa só teremos quando chegamos no Céu. Para isso precisamos basicamente de duas coisas: oração incessante pedindo o dom da fé (“eu creio, Senhor, mas aumentai a minha fé”) e o aprofundamento na vida e nos ensinamentos de Jesus. Só podemos amar quem conhecemos. Só nos sentiremos amados se meditarmos e enxergarmos o que Jesus fez por nós, fez por mim, ao se entregar livremente para ser torturado e morto na cruz.

Assim é importante, desde que os filhos são pequenos, a mostrar para eles como são amados por Deus, como são preciosos aos olhos de Deus, o quanto Jesus sofreu para que eles pudessem estar, um dia, no Céu. Conforme eles vão crescendo, devemos estimular que tenham também um relacionamento pessoal e íntimo com o Senhor, através da oração pessoal e frequência aos sacramentos, afinal, Deus não tem netos, só filhos...

Devemos também estudar a doutrina da Igreja, as razões da nossa fé, o porquê defendemos determinada causa ou somos contra outras. Nossa inteligência precisa ser iluminada pela luz natural da razão e pela luz sobrenatural da graça. As duas coisas andam juntas. Nossa fé tem fundamento racional, na inteligência, não é apenas um “sentimento”. Sem alimentarmos esse lado racional da nossa fé, na hora da tentação, na hora que precisamos justificá-la ou tomar um posicionamento mais firme, podemos fraquejar. “A fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade”, nos ensina o S. João Paulo II. Todo esse estudo deve ter como objetivo sempre a busca da Verdade, que é o próprio Jesus Cristo. “Conhecerão a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).

Desta forma, com uma vida de oração e de busca da verdade, com a força e as graças que recebemos através dos sacramentos, especialmente da Confissão e da Eucaristia, nós e nossos filhos estaremos preparados para enfrentarmos as dificuldades que o mundo nos apresenta e até o martírio, se assim estiver nos planos amorosos do Pai.



photo credit: babasteve <a href="http://www.flickr.com/photos/64749744@N00/25941203631">Easter Week No. 5</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

domingo, 8 de dezembro de 2019

“EU TENHO DIREITO DE SER FELIZ”



“Eu tenho direito de ser feliz!” Essa frase tem justificado muitas atitudes em nossos dias. Mas será que ela é verdadeira? Será que realmente cada um de nós tem o “direito” de ser feliz?
Possuir um direito significa que posso exigi-lo, que tenho ferramentas para obrigar que ele seja respeitado. Mas quando falamos em felicidade, como podemos exigir tal direito? Quem podemos obrigar a nos fazer felizes? A resposta é simplesmente: não podemos. E se não podemos exigir, não podemos falar em direito.

Nós nascemos para sermos felizes, mas a nossa estrutura humana, a forma que fomos criados, não foi feita para que consigamos ser felizes por nós mesmos. Precisamos do outro para realmente atingir a felicidade. É como aquela história de várias pessoas numa mesa, cada um com seu prato de sopa, mas com uma colher de 2 metros de comprimento. Se cada um tentar se alimentar sozinho, todos vão morrer de fome. Mas se um pegar a sua colher e colocar na boca do outro, todos se alimentam e ficam satisfeitos.

Da mesma forma, a nossa felicidade depende do nosso empenho em fazer o outro feliz. Nosso esforço, nossa luta deve ser para tentar proporcionar o máximo de felicidade para aqueles que convivem conosco. A felicidade do meu marido, da minha esposa, dos meus filhos, dos meus netos, dos meus pais, dos meus irmãos, dos meus avós, dos meus amigos deve ser prioridade. E o que veremos é que a nossa felicidade vem como consequência desse empenho na felicidade dos outros.

Então, por trás da frase: “Eu tenho o direito de ser feliz”, encontramos, no fundo, uma motivação egoísta, que está pensando em seu próprio bem em primeiro lugar, e o egoísmo é o contrário do amor, é aquilo que mata o amor. Quem busca a própria felicidade sem se preocupar com a felicidade de quem está ao seu redor, no final, acabará infeliz.

Obviamente é impossível agradar a todos e também é impossível ser feliz o tempo todo enquanto vivermos nesse mundo. Dificuldades, sofrimento, decepções fazem parte da vida de todos. Mas a felicidade é muito maior do que momentos de alegria e de prazer. A felicidade é a paz que temos em estar cumprindo bem o nosso papel, em estar cumprindo a missão, o ideal para o qual Deus nos criou.

Assim, a primeira pessoa que temos que nos preocupar em agradar é a Deus. Ele nos deu os Mandamentos e a doutrina moral da Igreja para nos ajudar nessa caminhada rumo ao Céu. Ele nos enviou seu próprio Filho para nos dar o modelo de amor e serviço. Ele nos alimenta e fortalece através dos sacramentos, em especial da confissão e da eucaristia. Ele é a fonte última de nossa felicidade, porque foi Ele quem nos criou para a felicidade sem fim que experimentaremos, um dia, no Céu.

Portanto, não nos deixemos iludir pela mentalidade egoísta de nossa sociedade que prega esse falso “direito” à felicidade. Isso é armadilha do inimigo, que deseja o ser humano cada vez mais egoísta, pois quanto mais egoísmo existir no mundo, menos amor haverá. E Deus é Amor. Menos amor, menos Deus...

photo credit: Gareth1953 All Right Now <a href="http://www.flickr.com/photos/40837632@N05/44073174905">Hyde Park - June 2018 - Smile For Daddy</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>





quarta-feira, 10 de abril de 2019

CUIDADO! VOCÊ PODE ESTAR VICIANDO SEU FILHO!



Um dia desses assisti um trecho de uma entrevista do psicólogo Leo Fraiman no programa do Roni Von onde ele fala da “síndrome do imperador”, que resumidamente significa a atitude dos pais de quererem fazer os filhos felizes realizando todos os desejos deles. Gostaria de comentar sobre alguns aspectos desse vídeo, acrescentando um pouco da visão sobrenatural, pois essa reflexão é muito necessária nos dias de hoje.

Primeiramente precisamos ter a consciência de que nesse mundo não existe felicidade plena. Esse tipo de realização só acontecerá quando, um dia, estivermos na presença de Deus no Paraíso. Até lá, o que temos aqui são momentos felizes que vem e vão. Assim, é impossível fazer os filhos integralmente felizes.

Os pais que tentam proporcionar um estado de felicidade constante para os filhos realizando todos os seus desejos, na verdade estão criando pessoas egoístas, que serão sempre frustradas e insatisfeitas. E o pior: ao proporcionar um prazer imediato que não exigiu do filho nenhum esforço, podem estar viciando os filhos nesse tipo de sentimento, que quando crescerem e verem que o mundo não lhes trata da mesma forma, buscarão esse prazer no álcool, nas drogas, na promiscuidade.

Esse comportamento dos pais é um reflexo da ideologia que paira em nossa sociedade onde somos estimulados a buscar o prazer e fugir da dor. Nosso cérebro já é programado para isso como é o dos animais, mas como seres humanos, que possuem inteligência e vontade, temos a capacidade de negar um prazer se vemos que aquilo será um bem para nós ou para o outro. E essa capacidade só os seres humanos possuem. Essa capacidade é o que chamamos de amor. Só sabe amar quem aprendeu a renunciar a si mesmo pelo bem do outro.

Isso é muito sério. Os pais tem o grave dever de educar os filhos para viverem bem na sociedade, saberem que tem responsabilidade pelo bem comum, que tem deveres e não só direitos. A forma de aprender isso é através da frustração do desejo, de aprender a esperar, de saber que precisa contribuir de alguma forma para o bem da família (pequenos serviços domésticos), da responsabilidade pelo estudo e bom desempenho escolar, de respeitar a autoridade dos pais e professores. E com o amadurecimento, as crianças também precisam aprender a amar, a se sacrificarem pelo bem dos pais, dos irmãos, para um dia poderem também se sacrificar pelo bem do marido, da esposa, dos filhos.

Para experimentarmos o sentimento de felicidade precisamos também experimentar o sentimento de tristeza, de frustração. Nossa experiência vem do contraste. O branco aparece melhor com o preto de fundo e vice-versa. Só saberemos o que é verdadeira alegria ao possuir alguma coisa se isso no custou esforço.

Fomos criados para amar e sermos amados, mas amar requer sacrifício, doação de si mesmo, desapego dos próprios gostos e caprichos. Sabemos que somos amados quando vemos o outro se sacrificar por nós. E quanto antes ensinarmos isso aos filhos, mais fácil eles aprenderão. Quanto mais tempo eles permanecerem centrados em si mesmos, exigindo tudo e a todo momento e tendo esses desejos prontamente realizados pelos pais, mais difícil será aprenderem realmente o que é o amor.


Precisamos cuidar muito para não aleijar nossos filhos, tirar deles a capacidade de serem pessoas plenas e realizadas. E isso custa muito esforço por parte dos pais. É preciso tempo, paciência e muito amor, amor de verdade, onde os pais renunciam ao prazer do descanso, da televisão, da internet, da saída com os amigos, da viagem, pelo bem de seus filhos, para ensina-los a serem pessoas capazes de amar. E é só amando que somos realmente felizes, com a máxima felicidade que podemos ter nessa vida.  

photo credit: josstyk <a href="http://www.flickr.com/photos/33632522@N00/248920216">Done</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

TREINAR A ALMA PARA SUPORTAR AS DIFICULDADES

Todos sabemos da importância de uma alimentação saudável e de exercícios físicos para termos uma boa saúde do corpo. Porém, muita gente não sabe que a nossa alma, aquilo que dá vida ao corpo, também precisa de cuidados para se manter saudável. Hoje vemos um grande número de pessoas, principalmente os mais jovens, que não suportam o menor sofrimento, sucumbem frente as contrariedades da vida, chegam até a adoecer fisicamente pela incapacidade de enfrentar os problemas e dificuldades que a vida lhes apresenta.

O que está faltando é a resiliência, que pode ser definida como a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar aos infortúnios ou às mudanças. Mas como conseguir essa resiliência? A melhor maneira é praticar a virtude da temperança, que é caracterizada pelo autodomínio e pela moderação dos desejos. Ou seja, para sermos resilientes, fortes, precisamos treinar a nossa alma através da privação dos nossos desejos e vontades.

O cérebro animal, incluindo o cérebro humano, é programado para buscar o prazer e fugir da dor. Todos os nossos instintos seguem essa “programação”. Porém, diferente do animal, o ser humano é capaz de dizer não ao instinto em benefício de um bem maior. Essa capacidade de autonegação é típica da alma, que o animal não possui.

Quando satisfazemos todos os nossos desejos, nossa alma se enfraquece e nos tornamos escravos desses mesmos desejos. Não conseguimos dominar a nossa vontade e podemos cair até no vício. Por exemplo, aquela pessoa que come o que quer, na hora que quer, tem extrema dificuldade em seguir uma dieta, mesmo que seja para a sua sobrevivência, como é o caso de uma diabetes.

Então, precisamos nos habituar a fazer pequenas mortificações da nossa vontade, negando a nós mesmos pequenos prazeres, assim, aos poucos, nossa alma se fortalece e se nos for exigido algum sacrifício maior, estaremos preparados para enfrenta-lo sem sucumbir. O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, testemunhou que só conseguiu sobreviver com a alma íntegra ao campo de concentração nazista, onde chegou com 57 anos e viveu lá por mais de 3 anos, porque durante toda a sua vida habituou seu corpo a algumas renúncias.

Esse treinamento pode ser feito por qualquer pessoa, inclusive por crianças e quanto antes nos habituarmos, mais fácil se torna. Esperar alguns minutos antes de beber água quando está com sede, não repetir o prato depois do almoço, renunciar a uma bebida durante a refeição, acordar alguns minutos mais cedo, tomar banho mais rápido, desligar o rádio quando está no carro, deixar de assistir um programa que gosta uma vez na semana, tomar um dia o café sem açúcar, renunciar a um doce, esperar alguns minutos antes de olhar o celular depois de ter ouvido que recebeu uma mensagem, tudo isso são formas de praticar a temperança para conseguir a resiliência.

Não é preciso fazer muita coisa de uma vez. Da mesma forma que na academia começamos o treino com pouco peso e vamos aumentando conforme nosso corpo se fortalece, também para o treinamento da alma precisamos começar aos poucos e conforme formos ficando mais resilientes, conseguimos aumentar a dose, até termos o completo domínio sobre nossas paixões e instintos.


Somente aquele que domina a si mesmo é verdadeiramente livre e consegue amar de verdade e servir aos demais. Assim, essas renúncias vão conduzir à plena liberdade dos filhos de Deus para a qual todos nós fomos criados.

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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O SACRIFÍCIO QUE ADÃO NÃO FEZ


Scott Hahn, em seu livro “Primeiro, é o Amor”, apresenta um ponto de vista muito interessante sobre o que teria sido o pecado original e que pode ser a chave para que nós consigamos entender a influência que essa herança que recebemos de nossos primeiros pais tem em nossa vida hoje.

Em Gênesis 2,15 está escrito: “Javé Deus tomou o homem e o colocou no Jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse. Aqui vem a primeira reflexão: por que Adão precisaria guardar, proteger o Paraíso? Ou melhor, quem seria uma ameaça a Adão? Certamente Deus já estava avisando que o Demônio poderia tentar acabar com sua criação predileta.

E a narração continua: “E Javé Deus ordenou ao homem: ‘Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá”. (Gn 2,16-17) A morte a que Deus se refere é muito pior do que a morte física, à qual Adão estava imune até aquele momento, mas a morte que corresponde a uma alma atolada em paixões e maldades de todo tipo, a morte da inimizade com Deus. 

Chega então o momento da prova: a serpente entra no jardim e faz a proposta para Adão e Eva desobedecerem a Deus. Aqui precisamos destacar que a serpente era seguramente um animal imponente e mortífero. Em outras partes do Antigo Testamento essa mesma palavra que aqui é traduzida como serpente, é usada como dragão (Is 27,1) ou monstro marinho (Jó 26,13). 

Assim, podemos entender que a Serpente, terrível monstro que poderia efetivamente matar os dois, fez uma ameaça quando disse “vocês não morrerão” (Gn 3,4) se comerem o fruto, mas se não comerem, morrerão, porque eu irei mata-los.

Agora vemos sob outra perspectiva a decisão que Adão precisava tomar: ou ele permanecia fiel à Deus e aceitava ter seu corpo morto pela serpente, ou desobedecia, quebrava a Aliança, e aceitava aquele outro tipo de morte, a morte da desordem da alma e da inimizade com Deus. E o que Adão fez? Ficou calado e deixou que Eva continuasse a conversa com o demônio.

Adão não respondeu à serpente e também não pediu ajuda a Deus. “Por orgulho e por medo, manteve-se silencioso. E junto com sua mulher desobedeceram ao mandato divino. Isso (...) é falta de fé, esperança e amor. Os medos de Adão o fizeram afastar do seu dever de custodiar o paraíso. Impediram-no de confiar no seu Pai Deus e caíram sobre ele na forma de orgulho. (...) Conhecendo o poder da serpente, foi incapaz de oferecer a sua vida, por amor de Deus, ou mesmo salvar a vida da sua amada. Recusar o sacrifício, foi este o pecado original de Adão. Cometeu-o mesmo antes de provar o fruto, mesmo antes de Eva o fazer.”(pg. 61)

Recusar o sacrifício, não querer se doar por amor, pensar em primeiro lugar em si mesmo e no seu bem estar, ou seja, o egoísmo, esse é a raiz de todo pecado. Por isso todos nós temos essa tendência ao egoísmo e precisamos lutar a vida inteira para matar o egoísmo em nós e deixar crescer nosso amor a Deus e ao próximo. 

Desta forma nosso grande exemplo é Jesus Cristo, o novo Adão. Ele veio ao mundo para se doar por amor por todos nós, para cumprir o sacrifício que Adão não fez e assim abrir novamente o Céu para cada um de nós. 

Todos nós nascemos 100% egoístas. O recém nascido exige todo o cuidado, pois o mundo está centrado nele, em suas necessidades. Quer tudo para si, não sabe renunciar nada em favor dos outros. Conforme a criança cresce, deve aprender a fazer pequenos sacrifícios, esperar, adiar um desejo, em benefício dos outros. E essa luta contra o egoísmo deve permanecer por toda a vida. Devemos diariamente pedir a ajuda de Deus, com o apoio de nosso santo anjo da guarda, de sermos menos egoístas, para podermos amar mais e melhor.

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quarta-feira, 9 de maio de 2018

DA CASTIDADE NASCE O AMOR


Castidade e amor, duas palavras tão mal interpretadas nos dias de hoje. Castidade normalmente está relacionada com repressão, falta de liberdade, puritanismo. E o amor muitas vezes é confundido com paixão, sexo, sentimento espontâneo que não exige esforço. Porém, existe uma íntima relação da castidade, entendida como a capacidade de adiar a satisfação de um desejo, com o amor conjugal verdadeiro e duradouro, que pode ser entendido como a capacidade de sacrificar a si mesmo para o bem e a felicidade do outro.

A natureza humana é tanto animal como espiritual. Possuímos corpo e espírito. O nosso corpo, para se manter vivo, possui alguns instintos básicos, como se alimentar, descansar e se reproduzir. O instinto sexual, portanto, faz parte da nossa natureza, porém, ao contrário dos outros animais, que não tem espírito e por isso não tem a capacidade de controlar seus instintos, deve ser conduzido para a realização plena (corpo e espírito) e não apenas para a satisfação imediata do corpo.

Todos temos o anseio por nos realizarmos, por sermos felizes e essa realização pessoal vai muito além da realização de nossos instintos físicos. Não basta estarmos alimentados, vestidos, descansados para nos sentirmos realizados. A realização espiritual do ser humano só acontece na medida em que se sente útil, importante, que faz diferença. E isso só se dá através dos relacionamentos que construímos durante nossa vida. O ser humano é um ser que precisa se relacionar, não foi criado para viver isolado.

O amor é a forma mais sublime do relacionamento humano, pois vai muito além de querer bem o outro, ou se alegrar com a companhia. O amor verdadeiro nos impulsiona a desejar fazer o outro feliz e somente amando dessa forma, nos livrando do egoísmo que quer nos aprisionar em nossos próprios desejos, é que nos sentimos realizados. Mas como aprendemos a amar dessa forma?

Vamos falar aqui especificamente do amor conjugal. Os outros tipos de amor (materno/paterno, filial, de amizade, etc) também precisam sem aprendidos, mas a forma é um pouco diferente e podemos falar disso em outro post. O amor não é instinto, precisa ser ensinado e aprendido. O instinto relacionado ao amor conjugal é o da atração para a satisfação do desejo sexual. Esse desejo sexual pode ser de três tipos: “vênus”, “eros” e reprodutivo.

O desejo tipo “vênus” é aquele mais animal, que quer o corpo do outro para a própria realização. Aqui não importa a pessoa, com suas qualidades intelectuais e afetivas, apenas o seu corpo. É o instinto mais primitivo.

O desejo tipo “eros” (ou cupido), é o “filho de vênus”, ou seja, parte desse primeiro instinto que quer só o corpo, para desejar também a alma, os sentimentos, os afetos. É a paixão, que envolve a pessoa como um todo.

Porém, “vênus” e “eros” ainda não estão completos, porque quando o relacionamento com a pessoa ultrapassa a fase da paixão, amadurece e quer ver aquele sentimento prolongado no tempo, através dos filhos. Assim, para chegarmos ao verdadeiro amor conjugal, a pessoa precisa, através do uso da razão, saber administrar esses três tipos do desejo sexual.

E é aqui que entra a castidade. Qualquer instinto primário que é imediatamente satisfeito, gera um certo repúdio para aquilo que o satisfez. Se estamos com muita fome e comemos um enorme prato de feijoada, estando satisfeitos não conseguimos nem mais olhar para o prato de comida. O mesmo acontece com o desejo “vênus”. Se a atração pelo corpo é satisfeita logo com a relação sexual, o natural é que, em breve, esse “corpo” que me satisfez me cause repulsa. E aí vou procurar outro corpo que me satisfaça, entrando num ciclo vicioso que jamais irá me realizar plenamente.

Adiar a satisfação do desejo sexual gera o interesse pela pessoa e não só pelo corpo. A castidade faz com que o instinto saia da fase puramente animal e se torne mais humano. O interesse passa a ser para uma pessoa específica, essa que me atraiu primeiramente pelo corpo, mas em virtude da castidade, fez com que me interessasse também pelo espírito.

A castidade permite ainda que a pessoa passe a considerar a satisfação do instinto sexual reprodutivo, ou seja, ter filhos com a pessoa amada e ajuda os dois a enxergarem que a forma mais adequada de satisfazer esse instinto é através do casamento. O casamento é um compromisso assumido publicamente que deve garantir a união daquele homem e daquela mulher, por toda a vida. Uma união exclusiva que tem como finalidade o bem dos filhos.

Os filhos são a prova que os dois se tornaram uma só carne. Com os filhos aprendemos a nos doar totalmente para o outro, sem esperar nada em troca. Aprendemos a amar de verdade, a nos sacrificarmos pelo bem do outro. Amando os filhos, aprendemos cada dia a amar mais o cônjuge.


E esse amor verdadeiro nasce da castidade. Sem a castidade, nos tornamos cada vez mais egoístas, pensando apenas na própria realização, em usar o outro para o meu prazer. Essa atitude a longo prazo (às vezes nem tão longo assim) traz frustação e infelicidade. Ser casto não é ser reprimido. Ser casto é aprender a controlar uma satisfação imediata tendo em vista a felicidade futura. Aprender a ser casto é aprender a amar. 

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