quarta-feira, 10 de abril de 2019

CUIDADO! VOCÊ PODE ESTAR VICIANDO SEU FILHO!



Um dia desses assisti um trecho de uma entrevista do psicólogo Leo Fraiman no programa do Roni Von onde ele fala da “síndrome do imperador”, que resumidamente significa a atitude dos pais de quererem fazer os filhos felizes realizando todos os desejos deles. Gostaria de comentar sobre alguns aspectos desse vídeo, acrescentando um pouco da visão sobrenatural, pois essa reflexão é muito necessária nos dias de hoje.

Primeiramente precisamos ter a consciência de que nesse mundo não existe felicidade plena. Esse tipo de realização só acontecerá quando, um dia, estivermos na presença de Deus no Paraíso. Até lá, o que temos aqui são momentos felizes que vem e vão. Assim, é impossível fazer os filhos integralmente felizes.

Os pais que tentam proporcionar um estado de felicidade constante para os filhos realizando todos os seus desejos, na verdade estão criando pessoas egoístas, que serão sempre frustradas e insatisfeitas. E o pior: ao proporcionar um prazer imediato que não exigiu do filho nenhum esforço, podem estar viciando os filhos nesse tipo de sentimento, que quando crescerem e verem que o mundo não lhes trata da mesma forma, buscarão esse prazer no álcool, nas drogas, na promiscuidade.

Esse comportamento dos pais é um reflexo da ideologia que paira em nossa sociedade onde somos estimulados a buscar o prazer e fugir da dor. Nosso cérebro já é programado para isso como é o dos animais, mas como seres humanos, que possuem inteligência e vontade, temos a capacidade de negar um prazer se vemos que aquilo será um bem para nós ou para o outro. E essa capacidade só os seres humanos possuem. Essa capacidade é o que chamamos de amor. Só sabe amar quem aprendeu a renunciar a si mesmo pelo bem do outro.

Isso é muito sério. Os pais tem o grave dever de educar os filhos para viverem bem na sociedade, saberem que tem responsabilidade pelo bem comum, que tem deveres e não só direitos. A forma de aprender isso é através da frustração do desejo, de aprender a esperar, de saber que precisa contribuir de alguma forma para o bem da família (pequenos serviços domésticos), da responsabilidade pelo estudo e bom desempenho escolar, de respeitar a autoridade dos pais e professores. E com o amadurecimento, as crianças também precisam aprender a amar, a se sacrificarem pelo bem dos pais, dos irmãos, para um dia poderem também se sacrificar pelo bem do marido, da esposa, dos filhos.

Para experimentarmos o sentimento de felicidade precisamos também experimentar o sentimento de tristeza, de frustração. Nossa experiência vem do contraste. O branco aparece melhor com o preto de fundo e vice-versa. Só saberemos o que é verdadeira alegria ao possuir alguma coisa se isso no custou esforço.

Fomos criados para amar e sermos amados, mas amar requer sacrifício, doação de si mesmo, desapego dos próprios gostos e caprichos. Sabemos que somos amados quando vemos o outro se sacrificar por nós. E quanto antes ensinarmos isso aos filhos, mais fácil eles aprenderão. Quanto mais tempo eles permanecerem centrados em si mesmos, exigindo tudo e a todo momento e tendo esses desejos prontamente realizados pelos pais, mais difícil será aprenderem realmente o que é o amor.


Precisamos cuidar muito para não aleijar nossos filhos, tirar deles a capacidade de serem pessoas plenas e realizadas. E isso custa muito esforço por parte dos pais. É preciso tempo, paciência e muito amor, amor de verdade, onde os pais renunciam ao prazer do descanso, da televisão, da internet, da saída com os amigos, da viagem, pelo bem de seus filhos, para ensina-los a serem pessoas capazes de amar. E é só amando que somos realmente felizes, com a máxima felicidade que podemos ter nessa vida.  

photo credit: josstyk <a href="http://www.flickr.com/photos/33632522@N00/248920216">Done</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

terça-feira, 19 de março de 2019

O PIEDOSO USO DO VÉU NA IGREJA

Há cerca de dois anos, começaram a aparecer em minha timeline do facebook alguns posts sobre o uso do véu pelas mulheres na missa. Achei interessante e passei a ler a esse respeito e me aprofundar no tema. Após alguns meses senti um verdadeiro chamado a usar o véu e, depois de alguma resistência, decidi seguir esse chamado, que tem transformado o modo como eu participo da Santa Missa e das adorações eucarísticas. Compartilho aqui o que eu aprendi e as razões que me levaram a tomar essa decisão. 

Desde o início do cristianismo, era costume as mulheres cobrissem a cabeça quando estavam na Igreja. No Código de Direito Canônico de 1917, que vigorou até 1983, havia um cânon que falava sobre o assunto. Lá era dito o seguinte:

“Os homens, na Igreja ou fora dela, enquanto assistem aos ritos sagrados, devem trazer a cabeça descoberta, a não ser que os costumes aprovados do povo ou circunstâncias peculiares determinem de outra maneira; as mulheres, no entanto, devem trazer a cabeça coberta e estarem vestidas de forma modesta, especialmente quando se aproximarem da mesa da comunhão”
. (Cân. 1262 §2).

Todavia, após as reformas litúrgicas oriundas do Concilio Vaticano II, aos poucos as mulheres no ocidente começaram a abandonar esse costume e no Código de Direito Canônico atual, não se encontra mais nenhum cânon referente ao tema, inexistindo assim obrigatoriedade do uso do véu pelas mulheres. Mas isso não significa que ele esteja proibido, por isso não é lícito ninguém impedir quem quiser usar. 

Provavelmente o abandono do uso do véu se deu por influência do feminismo, que em sua ideologia de querer “igualar” as mulheres aos homens, rechaça tudo aquilo que pode ressaltar a feminilidade e a diferença de se vestir e se comportar entre os sexos.

Em minhas pesquisas, descobri também que durante o Concílio Vaticano II, foi perguntado ao Arcebispo Bugnini (responsável pela reforma litúrgica) por alguns jornalistas se as mulheres ainda precisariam cobrir suas cabeças na Santa Missa. Sua resposta foi que essa questão não estava sendo discutida pelos Bispos. Porém, os jornalistas entenderam essa resposta como um “não” e publicaram as manchetes por todo o mundo essa informação equivocada. Desde então, praticamente todas as mulheres abandonaram essa tradição.

Vejamos o que explica o Pe. Edison de Oliveira, sobre o fundamento bíblico do uso do véu:

“Na primeira carta de São Paulo aos Coríntios, o apóstolo Paulo trata de assuntos referentes à conduta daquela comunidade. Basicamente, seu pedido diz respeito ao que se refere à masculinidade e feminilidade, de forma que homens e mulheres não se vistam de maneira confusa.

Pelo contexto, é claramente expresso que, de maneira geral, as mulheres cristãs tinham herdado da tradição judaica o costume de cobrir os cabelos com o véu (v. 16). Realidade que parecia não ser comum naquela comunidade. Neste sentido, São Paulo faz tal pedido também para que o não uso do véu pelas mulheres daquela comunidade não as deixassem parecidas com as mulheres que não seguiam os costumes cristãos. 

Em Corinto, as mulheres pareciam exercer papel ativo e de presença na comunidade, para tal era necessário o máximo de prudência e pudor para que não houvesse confusão”.

Assim, o primeiro argumento a favor do véu é justamente para distinguir o masculino do feminino, fato que na nossa cultura atual é de fundamental importância. A ideologia do gênero, a moda unissex, tem tentado “uniformizar” a natureza humana, pregando que não há diferenças entre o homem e a mulher. Quando uma mulher usa o véu na Igreja, ressalta a sua feminilidade e atesta de forma silenciosa, mas eloquente, que Deus criou o homem e a mulher com a mesma dignidade, mas com funções diferentes e complementares.

Outro argumento interessante é que faz parte da tradição cobrir com o véu tudo o que é sagrado: o sacrário, a âmbula que contém a Eucaristia, enfim, tudo o que se refere diretamente a Deus e ao sagrado é coberto com o véu. Então, ao pedir que a mulher se cobrisse com o véu, a Igreja está ressaltando o caráter sagrado do ser feminino. É na mulher que um novo ser humano é concebido, uma nova vida, uma nova alma imortal é gerada e cuidada. O uso do véu, desta forma, ressalta toda a dignidade e valor do ser mulher.

Apesar de ter praticamente abandonado o uso do véu na Igreja, quase toda mulher ao subir ao altar para o seu casamento, continua usando o véu. Então, o véu é o símbolo da noiva, do matrimônio. Quando vemos uma mulher de véu na Igreja se aproximando da Eucaristia, isso deve lembrar a todos nós que estamos a caminho das eternas Núpcias do Cordeiro. Devemos recordar que nossa caminhada aqui na terra deve nos levar ao Céu, devemos nos comportar de tal modo que, ao fim da vida, possamos entrar no grande banquete do Céu. 

As mulheres, em geral, gostam muito de cuidar dos cabelos, pois é um adorno importante para a beleza feminina. Ao balançar os cabelos a mulher exalta muito de sua glória, de seu charme e pode ser também um instrumento de sedução. Portanto, ao cobrir os cabelos com um véu na Santa Missa a mulher está cobrindo a sua glória, aquilo que enaltece sua beleza, para dar glórias e louvores somente para Deus. O véu deixa a mulher mais discreta, mais “escondida”, para que ninguém se distraia olhando a sua beleza. Na Igreja os olhares devem se voltar todos para o altar, para o grande sacrifício, para o nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. 

Usar o véu é também uma forma de testemunhar publicamente que acredito na real presença de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia e, como forma de reverência à sua Divina Majestade, cubro minha cabeça com o véu. Isso é um privilégio atualmente dado apenas às mulheres, pois os homens já não usam mais o chapéu no dia a dia, para demonstrar sua reverência tirando o chapéu dentro da Igreja.

Por fim, talvez o que mais me “convenceu” a usar o véu é o sentido de reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria. Esse é um argumento pessoal meu: uso o véu, cubro meus cabelos, para “compensar” aquelas mulheres que praticamente andam despidas até mesmo dentro da Igreja. Tenho certeza que a maioria absoluta dessas mulheres se vestem mal por pura ignorância, por achar que precisam exibir seus corpos para serem valorizadas, amadas. Então eu uso o véu pedindo que Nossa Senhora possa tocar o coração delas, para que comecem a valorizar realmente o que é ser mulher e não se exibam por aí como um pedaço de carne para ser usado e depois descartado. 

Depois que comecei a usar o véu, senti mais facilidade de me concentrar durante a missa e durante as adorações eucarísticas. Eu sinto como se Nossa Senhora estivesse me cobrindo com seu manto, me ajudando a rezar e a participar com mais dignidade do santo sacrifício da missa. Por incrível que pareça, as pouquíssimas pessoas que, ao longo desses quase 20 meses, vieram falar sobre o véu, foram sempre para elogiar! 


Desta forma, espero que este testemunho possa, quem sabe, despertar em outras mulheres o desejo de também mostrarem sua fé e reverência a Nosso Senhor Jesus Cristo presente no Sacrário através do uso do véu.

photo credit: profcarlos <a href="http://www.flickr.com/photos/35083636@N00/6459174557">Meditando</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

TREINAR A ALMA PARA SUPORTAR AS DIFICULDADES

Todos sabemos da importância de uma alimentação saudável e de exercícios físicos para termos uma boa saúde do corpo. Porém, muita gente não sabe que a nossa alma, aquilo que dá vida ao corpo, também precisa de cuidados para se manter saudável. Hoje vemos um grande número de pessoas, principalmente os mais jovens, que não suportam o menor sofrimento, sucumbem frente as contrariedades da vida, chegam até a adoecer fisicamente pela incapacidade de enfrentar os problemas e dificuldades que a vida lhes apresenta.

O que está faltando é a resiliência, que pode ser definida como a capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar aos infortúnios ou às mudanças. Mas como conseguir essa resiliência? A melhor maneira é praticar a virtude da temperança, que é caracterizada pelo autodomínio e pela moderação dos desejos. Ou seja, para sermos resilientes, fortes, precisamos treinar a nossa alma através da privação dos nossos desejos e vontades.

O cérebro animal, incluindo o cérebro humano, é programado para buscar o prazer e fugir da dor. Todos os nossos instintos seguem essa “programação”. Porém, diferente do animal, o ser humano é capaz de dizer não ao instinto em benefício de um bem maior. Essa capacidade de autonegação é típica da alma, que o animal não possui.

Quando satisfazemos todos os nossos desejos, nossa alma se enfraquece e nos tornamos escravos desses mesmos desejos. Não conseguimos dominar a nossa vontade e podemos cair até no vício. Por exemplo, aquela pessoa que come o que quer, na hora que quer, tem extrema dificuldade em seguir uma dieta, mesmo que seja para a sua sobrevivência, como é o caso de uma diabetes.

Então, precisamos nos habituar a fazer pequenas mortificações da nossa vontade, negando a nós mesmos pequenos prazeres, assim, aos poucos, nossa alma se fortalece e se nos for exigido algum sacrifício maior, estaremos preparados para enfrenta-lo sem sucumbir. O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, testemunhou que só conseguiu sobreviver com a alma íntegra ao campo de concentração nazista, onde chegou com 57 anos e viveu lá por mais de 3 anos, porque durante toda a sua vida habituou seu corpo a algumas renúncias.

Esse treinamento pode ser feito por qualquer pessoa, inclusive por crianças e quanto antes nos habituarmos, mais fácil se torna. Esperar alguns minutos antes de beber água quando está com sede, não repetir o prato depois do almoço, renunciar a uma bebida durante a refeição, acordar alguns minutos mais cedo, tomar banho mais rápido, desligar o rádio quando está no carro, deixar de assistir um programa que gosta uma vez na semana, tomar um dia o café sem açúcar, renunciar a um doce, esperar alguns minutos antes de olhar o celular depois de ter ouvido que recebeu uma mensagem, tudo isso são formas de praticar a temperança para conseguir a resiliência.

Não é preciso fazer muita coisa de uma vez. Da mesma forma que na academia começamos o treino com pouco peso e vamos aumentando conforme nosso corpo se fortalece, também para o treinamento da alma precisamos começar aos poucos e conforme formos ficando mais resilientes, conseguimos aumentar a dose, até termos o completo domínio sobre nossas paixões e instintos.


Somente aquele que domina a si mesmo é verdadeiramente livre e consegue amar de verdade e servir aos demais. Assim, essas renúncias vão conduzir à plena liberdade dos filhos de Deus para a qual todos nós fomos criados.

photo credit: Free For Commercial Use (FFC) <a href="http://www.flickr.com/photos/156555495@N04/40924322190">Exercise As Part Of A Healthy Lifestyle</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

ENSINAR OS FILHOS A PENSAR

A educação formal há mais de um século é no estilo do professor passar o conteúdo e o aluno aprender, sem muito espaço para reflexão se o que está sendo passado é verdadeiro ou como aquela matéria pode ser usada na vida prática. A forma preferida de entretenimento, principalmente dos mais jovens, também segue o mesmo estilo: absorvem o conteúdo das inúmeras telas (TV, computador, celular, tablets) passivamente, sem qualquer questionamento.

Este estilo de vida acaba criando pessoas com muito pouco senso crítico, que não sabem refletir se a informação recebida realmente corresponde com a verdade, ou qual o sentido de assistir determinado programa, o que aquilo traz de bom, de saudável, para a vida.

Então cabe a nós, pais, desenvolver primeiramente em nós mesmos e depois ensinar os filhos, já na pré-adolescência, a ter um senso crítico com relação às coisas que eles vêm por aí. Isso vai ajuda-los a se protegerem de informações e ideologias que sejam contrárias aos princípios e valores importantes para a vida deles.

Começamos fazendo perguntas: por que você gosta de assistir isso? Qual a mensagem que esse vídeo quer passar pra você? É possível que esteja querendo vender algum produto ou serviço? Quais os sentimentos/desejos que esse programa desperta em você?

No começo as respostas podem ser bem vagas: “ah, porque é legal...”, ou “porque eu gosto...”, então devemos insistir e ensiná-los a reconhecer o que está acontecendo dentro deles e colocar em palavras, para então, com o tempo, conseguirem escolher o que realmente é melhor para eles.

Exemplificando: vamos supor que seu filho está assistindo um vídeo onde o youtuber se propõe a ficar 24 horas dentro da piscina, sem poder sair nem para ir ao banheiro. O pai então pergunta:

P: Por que alguém se submeteria a isso?
Filho: Pra ganhar visualizações.
P: E o que ele pode ganhar tendo muitas visualizações?
F: Fama e dinheiro.
P: Será que passar 24h dentro de uma piscina é uma atitude que faz bem para a pessoa?
F: Ah, não sei... No começo deve ser legal, mas depois deve cansar
P: Quais será que são os efeitos no corpo de uma pessoa que fica 24h dentro da água? E o que acontece se uma pessoa fica muito tempo sem fazer xixi? E se ela faz xixi na piscina e continua na água?
F: Ah, pai, sei lá...
P: Percebi que esse vídeo tem uns 20 minutos. Será que o youtuber realmente ficou as 24h na piscina? É possível que ele tenha saído e não tenham filmado? É possível que tudo seja uma “armação” para enganar quem está assistindo?
F: Acho que não... mas não tenho certeza
P: Você acha que ficar 24h numa piscina é uma boa forma de ganhar dinheiro? Será que vale a pena? Quantas pessoas, depois de assistir esse vídeo, podem querer fazer a mesma coisa? Será que todas vão ganhar muitas visualizações e ganhar dinheiro também?
F: Não tinha pensado nisso...
P: Por que você gosta de assistir vídeos desse tipo?
F: Porque eu me divirto.
P: Você já pensou que para você se divertir, uma outra pessoa está se submetendo a tudo isso, que pode prejudicar a saúde, além de ter desperdiçado um dia inteiro de vida, onde ele poderia ter feito tantas cosias boas, ajudado outras pessoas, mas ficou dentro de uma piscina, sofrendo?
F: Ai, pai, você está exagerando...
P: Será que estou exagerando, filho? Você sabia que quando você assiste este tipo de vídeo você está estimulando esse youtuber a fazer coisas cada vez mais loucas para ter as visualizações? Será que você está fazendo o bem para ele?
F: Não tinha pensando nisso...

Conversas desse tipo são cansativas, mas são necessárias. Não adianta apenas proibir os filhos de assistirem determinados programas. É preciso leva-los a refletir os motivos pelos quais aquele conteúdo não é apropriado para eles. É preciso também ensiná-los a ter argumentos para justificar para os amigos o porquê não vêm determinadas coisas.

Os pais precisam saber o que os filhos gostam de assistir, como eles gostam de se divertir. Muitas vezes isso implicará assistir coisas juntos (mesmo que seja extremamente entediante para os pais) e então discutirem sobre o que viram. Isso toma tempo e energia, mas é uma das melhores coisas que os pais podem fazer pelos filhos: ensinarem a pensar!

O “efeito colateral” desse aprendizado, é que os filhos podem passar a questionar também a atitude dos pais. Mas isso é bom, pois propiciará aos pais a oportunidade de mostrar os seus valores, o que é importante e o que os motiva. Claro que deve ser feito com respeito, os filhos precisam aprender a questionar sem desrespeitar.

Um dos grandes objetivos da educação dos filhos é ensiná-los que aquilo que faz “bem” deve sempre ter prioridade sobre aquilo que é “bom”.  Não é porque uma coisa causa prazer, é gostoso, que devemos fazer. A motivação sempre deve ser o bem para a saúde, o bem para a inteligência, o bem para o espírito, o bem para o outro. Quando eles aprendem a pensar e a questionar suas próprias atitudes, aprendem também a fazer a escolha certa.


photo credit: danielfoster437 <a href="http://www.flickr.com/photos/17423713@N03/3752652055">Me, Myself, and I</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

LIÇÕES DA MANJEDOURA

O Natal se aproxima e somos convidados a refletir sobre as maravilhas e ao mesmo tempo a singeleza do nascimento de Deus feito homem numa gruta, em Belém, há mais de dois mil anos. A história da nossa salvação começa na solidão desse momento único, apenas na presença de José e Maria que, profundamente comovidos, contemplavam aquele menino recém-nascido.

Quanto amor, quanta ternura envolviam esse momento! Tudo aconteceu sem barulho, sem alarde, no silêncio de uma noite feliz. A primeira lição que podemos tirar da manjedoura é a necessidade do silêncio para contemplar a Deus. Sem o silêncio, o coração é incapaz de admirar-se com os mistérios do Pai, que age e fala no silêncio. Sem silêncio não há vida interior, não há como elevar a alma para o mundo sobrenatural, é impossível encontrar a Deus. Quem foge do silêncio, foge de si mesmo, foge de Deus.

Para conseguirmos esse silêncio interior é necessário primeiro o silêncio exterior, calar os sentidos, aquietar o coração. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate nos ensina: “todos precisamos deste silêncio repleto de presença adoradora. A oração confiante é a resposta do coração que se abre a Deus face a face, onde são silenciados todos os rumores para escutar a voz suave do Senhor que ressoa no silêncio.” (GE 149) E nos convida a uma profunda reflexão: “Tens momentos em que te colocas na sua presença em silêncio, permaneces com Ele sem pressa e te deixas olhar por Ele? Deixas que o seu fogo inflame o teu coração? Se não permites que Jesus alimente nele o calor do amor e da ternura, não terás fogo, e assim, como poderás inflamar o coração dos outros com o teu testemunho e as tuas palavras?” (GE 151)

Assim, precisamos aprender a nos silenciar para nos encontramos com nosso Pai, que quer se relacionar conosco. Nosso mundo é muito agitado, temos estímulos visuais e sonoros por todos os lados, então precisamos fazer pequenas mortificações de nossos sentidos, renunciando a olhar todas aquelas fotos, aqueles vídeos, aquelas notícias. Tirando um pouco o fone de ouvido, desligando o rádio e a televisão, freando a nossa curiosidade. Isso nos ajudará a conseguirmos o silêncio necessário e a serenidade que o controle das paixões nos dá para entramos em sintonia com nosso Criador.

Outra grande lição da manjedoura é a humildade. Nosso Deus todo poderoso se humilhou assumindo nossa natureza humana, nascendo pobre, numa gruta e colocado numa simples manjedoura. Precisamos aprender a sermos humildes, seguir o exemplo de Jesus. Deus se serve dos humildes para grandes coisas.

O Papa Francisco continua ensinando: “a humildade só pode enraizar no coração através das humilhações. Sem elas, não há humildade nem santidade. Se não fores capaz de suportar e oferecer a Deus algumas humilhações, não és humilde e nem estás no caminho da santidade. (...) A humilhação faz-te semelhante a Jesus, é parte ineludível da imitação de Jesus: ‘Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, para que sigais os seus passos.(1Pd 2,21)" (GE 118)

Peçamos nesse Natal o grande presente de aprendermos a fazer silêncio e rezar com muita introspecção e também a graça de sermos pessoas humildes e agradecidas por tantos dons e bênçãos que recebemos diariamente.


photo credit: Felipe Sasso <a href="http://www.flickr.com/photos/32133548@N04/5376535732"></a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nd/2.0/">(license)</a>

domingo, 28 de outubro de 2018

A ESSÊNCIA DA SANTIDADE



Gostaria de analisar hoje o Capítulo III da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (“Alegrai-vos e Exultai”), que fala sobre a essência da santidade, sobre o que é necessário para chegarmos a ser santos. O Papa Francisco indica o caminho: fazer, cada um a seu modo, o que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. “A palavra ‘feliz’ ou ‘bem-aventurado’ torna-se sinônimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade.”

Como diz S. Francisco de Salles, o amor é a lei fundamental do mundo. Devemos fazer tudo por amor, para o amor e através do amor. O contrário do amor é o egoísmo. Todo ser humano nasce egoísta por herança do pecado original. Assim, o trabalho de nossa vida deve ser matar o egoísmo em nós e aprendermos a amar de verdade, nos doando totalmente a Deus e ao próximo. É nisto que consiste a santidade.

O Papa analisa uma por uma das oito bem aventuranças expressas no Evangelho de S. Mateus (Mt 5, 3-12). Exporemos aqui apenas alguns pensamentos de algumas delas, para estimular o leitor a uma mudança real de vida, respondendo com atitudes o amor infinito do Pai por cada um de nós.

“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu”: as riquezas não dão segurança nenhuma e quando o coração se sente rico, não tem espaço para as coisas de Deus. Esta pobreza de espírito está intimamente ligada à “santa indiferença” proposta por S Inácio de Loyola, ou seja, aceitar com amor o que Deus enviar, seja saúde ou doença, riqueza ou pobreza, paz ou turbulências. Ser pobre no coração: isso é santidade.

“Felizes os mansos, porque possuirão a terra”: se vivemos tensos, arrogantes diante dos outros, acabamos cansados e exaustos. O correto é olharmos para os defeitos e limites dos outros, com ternura e mansidão, sem nos sentirmos superiores. Um santo ensina que devo olhar para a atitude do outro e pensar: “se eu tivesse tido a mesma educação, sofrido os mesmos traumas, vivido as mesmas experiências dessa pessoa, provavelmente me comportaria muito pior”. Pensar assim nos mantém humildes e gratos a Deus por tudo o que somos e temos e nos impele a estender a mão para ajudar o outro, evitando gastar nossas energias com lamentações inúteis. Reagir com humilde mansidão: isso é santidade.

“Felizes os que choram, porque serão consolados”: o mundo não quer chorar, prega a ideologia do “fuja da dor e busque o prazer”, prefere ignorar as situações dolorosas, escondê-las. Quem vê as coisas como realmente são e chora no seu coração, é capaz de alcançar as profundezas da vida e ser autenticamente feliz. Essa pessoa é consolada com a consolação de Jesus. Desta forma pode ter a coragem de compartilhar o sofrimento alheio e descobre que a vida tem sentido socorrendo o outro em sua aflição. Saber chorar com os outros: isso é santidade.

 “Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus”: muitas vezes somos causas de conflitos e incompreensões. O mundo das murmurações e fofocas, feito por pessoas que se dedicam a criticar e destruir, não constrói a paz. Os pacíficos são fontes de paz, constroem a paz e a amizade social. E na nossa comunidade, se alguma vez tivermos dúvidas sobre o que fazer, “busquemos tenazmente tudo o que contribui para a paz” (Rm 14,19) porque a unidade é superior ao conflito. Não é fácil construir essa paz evangélica que não exclui ninguém; antes integra mesmo aqueles que são um pouco estranhos, as pessoas difíceis e complicadas, os que reclamam atenção, aqueles que são diferentes, aqueles que cultivam outros interesses. Isso requer uma grande abertura da mente e do coração. Construir a paz é uma arte que requer serenidade, criatividade, sensibilidade e destreza. Semear a paz ao nosso redor: isso é santidade.


 photo credit: marcoverch <a href="http://www.flickr.com/photos/149561324@N03/29280283258">Ausgestreckte Hand und verschwommener Hintergrund</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>