Mostrando postagens com marcador oração. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador oração. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de agosto de 2025

MATERNIDADE ESPIRITUAL DOS SACERDOTES

 

                                  

Há alguns anos li a biografia da beata Conchita (María Concepción Cabrera Arias de Armida) uma mexicana mãe de 9 filhos que possuía uma profunda vida mística entre os afazeres de esposa e mãe. Ela recebeu um chamado especial para ser “mãe espiritual dos sacerdotes”. Todas as obras que fundou tinham o objetivo de ajudar e rezar pelos sacerdotes.

Muitas vezes pensei que ter uma vida mais contemplativa não é para mim, afinal sou esposa, mãe agora de filhos adultos e há algum tempo voltei à vida profissional, então esse estilo de vida espiritual seria reservada às religiosas que vivem no convento. Então, olho para a vida da beata Conchita e vejo que, se me entregar inteiramente a Cristo através dos meus afazeres diários, conseguirei contemplar e viver a busca pela santidade nas minhas circunstâncias.

Conchita recebeu graças extraordinárias e tinha uma vida verdadeiramente mística, mas mesmo assim é exemplo, pois se Deus escolheu uma esposa e mãe para uma missão tão grande, também chamou a cada esposa e mãe para cumprir sua própria missão, com uma vida espiritual plena, sem a qual o mundo não será tão bom e tão belo.

A importância de rezar pelos sacerdotes

Outra coisa muito importante que aprendi com a Beata Conchita foi a importância de rezarmos pelos sacerdotes. Ela chama de “maternidade espiritual dos sacerdotes”. É como se adotássemos os sacerdotes como verdadeiras mães espirituais, para rezarmos e nos sacrificarmos por eles.

Santa Teresinha do Menino Jesus também dedicou muitas orações aos sacerdotes. Em uma carta à sua irmã Celine, escrita em 14 de outubro de 1890 ela diz: Celine querida, é sempre a mesma coisa que tenho para te dizer. Ah! rezemos pelos sacerdotes, cada dia mostra como são raros os amigos de Jesus... Parece-me que deve ser isso que deve ser mais sensível a ele do que a ingratidão, principalmente ver as almas consagradas a Deus darem a outros o coração que lhe pertence tão absolutamente... (LT 122)

Rezar e cuidar espiritualmente dos sacerdotes é também uma forma de cuidar de nós mesmas, afinal, sem o sacerdote não temos os sacramentos, que são fundamentais para a salvação das nossas almas e das almas de todos os que amamos. Existe uma verdadeira batalha espiritual, onde o demônio quer afastar os sacerdotes de sua verdadeira vocação, de seu chamado para serem os instrumentos de Cristo para salvar as almas. E cada uma de nós pode ajudá-los, rezando e nos sacrificando por eles.

Salvar os outros

Imagine que você vê uma criança se afogando numa piscina. Imediatamente a reação é pular na piscina para salvá-la, mesmo se você não sabe nadar muito bem. Nosso instinto nos impele a tentar salvar a vida dessa criança.

Se tivéssemos olhos para enxergar o mundo sobrenatural, veríamos muitas almas literalmente se afogando num mar de pecados e se arriscando a morrer uma morte muito pior que a morte física, a morte eterna no inferno, um local de sofrimento, dor e ódio que jamais passarão. Nosso instinto também deveria nos levar a tentar salvar essas almas e uma das formas que podemos fazer isso é rezando pelos sacerdotes, que são os salva-vidas dessas almas, os paramédicos que tem o poder de restaurar a vida da graça àqueles que estão mortos pelo pecado.

Como praticar a maternidade espiritual

Existem algumas formas de viver essa maternidade espiritual dos sacerdotes. Você pode incluí-los nominalmente (os padres que você conhece) em suas orações, terços, adorações. Pode incluir os padres e todo clero em geral. Pode ainda fazer orações específicas pelos sacerdotes. Existem várias que pode encontrar online. Aqui vou mencionar uma que foi composta por Sta. Teresinha do Menino Jesus:

Ó Jesus, Sacerdote Eterno, guardai os Vossos sacerdotes no Vosso sagrado Coração, onde nada de mal lhes possa acontecer, conservai imaculadas as suas mãos ungidas, que tocam todos os dias o Vosso sagrado Corpo.

Conservai imaculado os seus lábios, diariamente, tingidos com o Vosso Preciosíssimo Sangue. Conservai os seus corações, que selastes com o sublime Sacramento da Ordem, puros e livres de todo o terreno.

Que o Vosso amor os proteja e os preserve do contágio do mundo. Abençoai os seus trabalhos apostólicos com abundantes frutos.

Fazei que as almas confiadas aos seus cuidados e direção sejam a sua alegria na Terra e formem no Céu a sua gloriosa e imperecível coroa. Amém. (PR 8)

A maternidade espiritual dos sacerdotes é acima de tudo uma preocupação com a santificação de todo o clero, a mesma preocupação que temos com nossos próprios filhos. Pode incluir cuidados materiais, se você tiver a oportunidade de ajudar algum sacerdote concretamente, seja oferecendo uma refeição, roupas, presentes em datas especiais. Muitos padres sentem-se solitários, então convidar para visitar a sua casa e passar algum tempo com a sua família pode ser uma forma de cuidar maternalmente deles.

A maternidade espiritual é uma devoção privada, não é preciso nenhum ato externo e ninguém precisa saber que você assumiu essa missão. Por ser espiritual, pode ser assumida também por aquelas mulheres que não são mães, sejam consagradas à vida religiosa ou não. Incentivo você a discernir em oração se esse seria um apostolado que possa assumir, juntando-se a muitas mães espirituais de sacerdotes em todo o mundo.




crédito da foto: 

Foto de Shannon Douglas na Unsplash

domingo, 23 de fevereiro de 2025

VISITA À NOSSA MÃE DE GUADALUPE

 




No dia 10 de janeiro de 2025 nossa família recebeu a grande graça de poder visitar a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México. Foi uma viagem sonhada há muito tempo e fazer essa peregrinação com meu marido e meus três filhos foi uma experiência maravilhosa.

A história das aparições de Nossa Senhora ao índio Juan Diego sempre me cativou. Para quem não conhece a história, eu incentivo muito que pesquisem sobre essas aparições. Vou descrever aqui apenas algumas partes que me marcaram mais.

A primeira coisa que me chamou atenção foi a idade de Juan Diego quando ele recebeu a missão de levar ao Bispo o pedido de Nossa Senhora para a construção de uma igreja dedicada a ela: 56 anos! E 56 anos em 1531 já podia ser considerada uma pessoa idosa. Isso para mim significa que nunca é tarde para seguirmos o chamado de Deus em nossa vida, mesmo não sendo um chamado sobrenatural como foi o de S. Juan Diego.

A simplicidade e humildade desse índio são impressionantes, pois nunca duvidou de quem ele estava vendo e nunca se sentiu digno nem capaz de cumprir o que Nossa Senhora havia pedido. Mas Deus sempre escolhe os pequeninos e humildes para as maiores missões e os capacita para que consigam realizar.

O que realmente faz meu coração transbordar e me marcou desde a primeira vez que ouvi, foi o que Nossa Senhora disse a ele na terceira aparição: “Não estou eu aqui, que sou tua Mãe? Você não está debaixo da minha sombra e sob o meu cuidado? Não sou eu a fonte da sua alegria?” Sempre que estou com alguma preocupação, lembro dessas palavras e me sinto confortada. Nossa Mãe querida também dirige essa mensagem a cada um de nós, sempre que precisamos dela.

E por fim a prova do milagre, a imagem estampada num tecido rudimentar, que em condições normais se desmancharia em 30 anos, está lá, intacto, há quase 500 anos... A cada novo estudo sobre essa imagem, mais maravilhas são descobertas. Vou mencionar apenas algumas: a tinta utilizada não existe nada parecido conhecido em nosso planeta (atestado por químicos renomados); os olhos da imagem, quando observados por oftalmologistas, parecem olhos de alguém vivo; e na córnea da imagem, que tem cerca de 7mm (0,27inches) está estampada a cena de Juan Diego mostrando o manto com as rosas ao Bispo.

Nossa experiência



Chegamos na Basílica pela manhã. O tamanho já impacta e no complexo todo, há outras igrejas mais antigas, além do museu e uma área imensa onde é possível montar acampamento. Entramos primeiro na Basílica onde está o manto, vimos de longe e a emoção foi grande. Estava acabando uma santa missa (que lá tem de hora em hora das 6h da manhã até as 8h da noite todos os dias).

Fomos até o local onde poderíamos ver mais de perto a imagem. Tem algumas esteiras rolantes para as pessoas não ficarem paradas, mas você pode passar quantas vezes quiser para ver e rezar. Não tem como descrever a emoção. Rezamos em família, cada um também fez seu momento de oração individual. Ver a emoção dos meus filhos é maravilhoso. Ela é Mãe deles também.

Assistimos a missa das 10h e logo depois encontrar a guia que nos levou conhecer todo o complexo e contar toda a história. Essa visita guiada vale muito a pena, então é uma coisa que recomendo para quem for até lá. Subimos o cerro até o local das aparições, vimos as outras igrejas mais antigas e o local onde estão os restos mortais de S. Juan Diego.



Conforme o tempo ia passando, mais pessoas chegavam e as demonstrações de fé eram as mais variadas. Grupos de crianças e jovens, muitos idosos, caravanas de outras cidades e países. Algumas pessoas caminhando de joelhos (isso foi bem impressionante). Depois do almoço, voltamos para rezar mais um pouco e levar todas as intenções de pedidos que nossos amigos e parentes haviam nos entregue. Voltamos aos pés de Nossa Senhora e entregamos tudo.

Depois fomos comprar algumas lembranças para trazer para casa. Uma coisa muito interessante que tem por lá é a “Capela das Bênçãos”. Na verdade, é um local semi-aberto onde um sacerdote fica o dia todo esperando que as pessoas levem objetos para serem abençoados. Quando chegamos, ele fez a oração da bênção e aspergiu muita água benta em tudo o que compramos. Antes de terminar, já estavam chegando mais pessoas. E é assim durante todo o dia.

Apesar do cansaço, não dava vontade de ir embora. Ficamos um tempo em adoração na Capela do Santíssimo, que tem um sacrário gigantesco. Não sei se em algum lugar do mundo pode ter algum maior, mas é impressionante o tamanho. Depois passamos pela última vez em frente ao manto, nos despedimos e agradecemos por tão imensa graça.



Meu marido e eu já tivemos a graça de conhecer o Santuário de Nossa Senhora de Fátima, em Portugal e o de Nossa Senhora de Lourdes, na França. Mas nós dois chegamos à conclusão de que Guadalupe é especial, porque é o único lugar onde existe uma prova física deixada pela Mãe de Deus, seu autorretrato. Para nós essa peregrinação também foi mais especial pois nossos filhos estavam conosco e puderam compartilhar desse momento extraordinário juntos.

 





 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

SURSUM CORDA - CORAÇÕES AO ALTO



No início da liturgia eucarística na Santa Missa, o sacerdote faz um convite a todos para elevarmos nossos corações a Deus. Em latim “sursum corda”, corações ao alto. E a nossa resposta é: “nosso coração está em Deus”. Esse é um momento importante, pois elevamos nosso coração ao Céu, para participarmos de alguma forma também da liturgia celeste, pois na Santa Missa o sacrifício de Jesus na Cruz é renovado na presença dos anjos e dos santos, então é como se o Céu estivesse ali conosco.

Esse chamado para elevar nossos corações a Deus não deve se restringir ao momento da liturgia eucarística. Os santos, aqueles que aprenderam a viver unidos a Deus ainda aqui na terra, estavam sempre com o coração no Céu. Por isso que São Paulo podia dizer: “porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21). Ele estava tão unido a Jesus e ao mundo sobrenatural, que enxergava o momento de sua morte como um ganho, pois poderia contemplar eternamente a face de Deus.

Significado do “sursum corda”

O que significa então o “sursum corda”? Algumas poucas pessoas são chamadas a viver isso de maneira radical, abandonando as coisas desse mundo e vivendo enclausuradas ou isoladas, apenas adorando e servindo a Deus com essa renúncia das coisas materiais. Assim, seus corações e suas mentes estão exclusivamente no Céu.

Como viver o “sursum corda”

Porém a grande maioria de nós é chamada a viver o “sursum corda” no meio dos afazeres do nosso cotidiano. Viver no mundo, sem negligenciar nossas obrigações profissionais, familiares e sociais, mas com o coração no Céu, lembrando sempre que estamos num caminho cuja meta é o Céu.

As nossas obrigações do dia a dia são sementes da vida eterna. A forma como cumprimos com essas obrigações podem trazer o fruto de uma eternidade feliz no Paraíso. Ganhamos o Céu não apesar das nossas tarefas mundanas, mas justamente por causa dessas tarefas.

O Pe. José Kentenich costumava dizer que precisamos fazer o ordinário extraordinariamente bem e um fiel e fidelíssimo cumprimento do dever. (1º Documento de Fundação – Documentos de Schoenstatt, Atibaia 2002 e Santidade de Todos os Dias, Santa Maria 2018) Procurar o máximo de cuidado em cada coisa que precisamos fazer durante o dia e oferecer esse cuidado para Deus, é a forma de elevarmos sempre nossos corações ao alto.

Em nossa rotina agitada tudo quer chamar nossa atenção. As redes sociais com inúmeros estímulos a cada segundo podem tirar o nosso foco daquilo que é o mais importante, nossa salvação eterna. Nossas paixões e fraquezas também podem nos arrastar para baixo, para prender nosso coração nas coisas passageiras desse mundo. Então, para vivermos o “sursum corda” precisamos de coragem e de força para lutar contra tudo aquilo que nos afasta de Deus.

Essa luta vai durar toda a nossa vida, pois também o inimigo de Deus quer possuir nosso coração e nossa vontade. Mas com a ajuda constante da graça e a nossa firme vontade de viver com nosso coração no Céu, isso será possível. É preciso recomeçar a cada queda, pedindo perdão e tendo confiança na infinita misericórdia de Deus, sabendo que Ele deseja nossa salvação muito mais do que nós mesmos.

Na prática

Para incorporamos essa cultura do “sursum corda” em nossa vida, é preciso começar, logo que acordamos, com uma pequena oração oferecendo todo o nosso dia. Agradecer por termos acordado e ter mais uma chance de amar a Deus através das nossas atitudes e do fiel cumprimento dos nossos deveres. Aos poucos podemos incorporar em nossa rotina pequenas pausas, de alguns minutos, para renovar essa vontade de viver com o coração no Céu, oferecendo a próxima tarefa a realizar, por mais banal que seja. Podemos também preencher o nosso dia com as jaculatórias, que são pequenas frases (orações) que mandamos para Deus. E no final do dia, antes de dormir, agradecemos pelas conquistas e pedimos perdão pelas falhas no nosso dia, renovando o propósito de no dia seguinte, sermos melhores ainda.

Assim, no dia em que o Pai nos chamar para prestarmos conta de nossa vida, estaremos tranquilos pois passamos nossa vida junto Dele e o Céu não será um lugar estranho para nós. Nosso coração sempre esteve lá!

Foto de Christopher Beloch na Unsplash

sexta-feira, 10 de março de 2023

A SEGUNDA CONVERSÃO

Na Quarta Feira de Cinzas, quando recebemos as cinzas em nossa fronte, fomos convidados: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Mas será que realmente precisamos de conversão? Afinal já estamos na igreja, participamos da santa missa pelo menos aos domingos e dias santos, já ouvimos o chamado de Jesus e respondemos: “aqui estou”. Recebemos os sacramentos do batismo, primeira eucaristia e até o crisma; cumprimos os mandamentos da Igreja de pagar o dízimo, confessar pelo menos uma vez por ano, fazer jejum e abstinência de carne na Quarta Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa. Então como assim eu preciso de conversão? Esse chamado não é só para os pecadores, aqueles que estão fora ou afastados da Igreja?

O que é a segunda conversão?

Na verdade, para aqueles que já tem uma vida espiritual, de caminhada dentro da Igreja e cumpre os mandamentos, o chamado é para uma segunda conversão. É como passar da infância para a adolescência da fé. O Pe. Garrigou Lagrange explica: “Os autores espirituais, com frequência, têm escrito também sobre esta segunda conversão, necessária para um cristão que, após ter pensado seriamente na sua salvação e ter-se esforçado por caminhar no caminho de Deus, recomeça a cair, pela ladeira de sua natureza, numa certa tibieza, como uma planta que foi enxertada, mas que tende a voltar para o estado selvagem”.[1]

A segunda conversão dos Apóstolos

Os Apóstolos também passaram por essa segunda conversão. Todos foram chamados pessoalmente por Jesus e deram seu “sim” à missão. Eles foram testemunha de toda a pregação do Reino de Deus, viram os milagres, foram ordenados sacerdotes na última ceia e receberam pela primeira vez a sagrada eucaristia. Mas na hora da Paixão, do sofrimento, quase todos abandonaram seu Mestre. S. Pedro, o primeiro Papa, chegou a negar Jesus por três vezes.

Através desse sofrimento que experimentaram testemunhando a Paixão, cada um deles (a exceção de Judas Iscariotes, que não acreditou na infinita misericórdia do Pai), arrependidos de sua covardia de abandonarem Jesus, passaram pela segunda conversão. S. Pedro, através do olhar de Jesus após a negação, teve a perfeita contrição e foi curado de sua presunção, tornando-se mais humilde. S. João, o único que por uma graça especial teve forças para permanecer aos pés da cruz, se converteu ao ouvir as últimas palavras de Jesus antes dele entregar seu espírito.

Assim, um a um dos apóstolos, no período entre a Paixão e depois da Ressurreição, foram se convertendo pela segunda vez e abrindo os olhos, compreendendo realmente o que significa ser cristão, como está narrado na passagem dos discípulos de Emaús, que reconheceram Jesus no partir do pão.

Chamado a aprofundar a fé e o amor

Da mesma forma que os apóstolos precisaram passar por uma segunda conversão, também nós somos chamados a aprofundarmos nossa fé e nosso amor a Jesus. São as nossas imperfeições que exigem essa segunda conversão, especialmente nosso amor próprio, nossa tendência a querer fazer tudo do nosso jeito, impondo nossa vontade. Esse amor-próprio desordenado é fonte de muitos pecados veniais, por isso é necessária essa purificação.

Apesar de ser o melhor para a nossa alma, Deus respeita imensamente a nossa liberdade e espera o nosso “sim” ao seu chamado para buscarmos a perfeição, a santidade. Ele sabe que o amamos, mas ainda somos demasiadamente apegados a nós mesmos, aos nossos gostos e vontades. E para sair desse estado, é preciso deixar Deus agir em nossa alma, através da purificação dos sentidos.

Essa purificação se dá através de um conhecimento experimental de nossa miséria e de nossa profunda imperfeição, como nos diz Sta. Catarina de Sena, junto com uma certa aridez da alma, um afastamento sensível de Jesus, sem sentir consolação ou gosto na prática da oração e atos de piedade. É preciso que o Senhor se afaste um pouco da alma, para que ela consiga se desapegar de si mesma e das coisas desse mundo, para estar pronta a se entregar inteiramente ao Pai.

Frutos da segunda conversão

Nos ensinamentos do Pe. Garrigou Lagrange “os frutos desta segunda conversão são, como aconteceu com S. Pedro, um começo de contemplação pelo entendimento progressivo do grande mistério da Cruz ou da Redenção, entendimento proveniente do valor infinito do Sangue do Salvador derramado por nós. Com esta contemplação nascente, há uma união com Deus mais livre das flutuações da sensibilidade, mais pura, mais forte, mais contínua.”[2] Podemos experimentar alegria e maior paz em nossa alma, mesmo em meio às adversidades. Experimentamos realmente que Deus nos ama e cuida de cada detalhe de nossas vidas.

Como chegar a essa segunda conversão?

Mas como chegar a essa segunda conversão? Deus é extremamente gentil e não fará nada sem o nosso consentimento, então precisamos pedir a graça desse aprofundamento na fé e no amor. “Senhor eu creio, mas aumenta a minha fé” (Mc 9, 24). Pedir a fé é a única oração que podemos ter certeza absoluta de que será atendida, porque esta é a vontade do Pai para cada um de nós, que tenhamos fé. E pedir para amar mais e amar melhor a Deus é um pedido que certamente lhe agrada, pois aos poucos nos tornaremos menos egoístas e menos centrados em nossos desejos, para estarmos livres para servir melhor a Deus e ao próximo.

Aproveitemos esse tempo de Quaresma, onde somos chamados a aprofundar nossa vida de oração, a olharmos para nós mesmos, para nossa alma e ver o que precisa ser mudado, e peçamos a graça dessa segunda conversão.

 



[1] LAGRANGE, Garrigou “As 3 vias e as três conversões”, 4ª edição, Ed. Permanência, pg. 41

[2] LAGRANGE, Garrigou “As 3 vias e as três conversões”, 4ª edição, Ed. Permanência, pg. 54

Crédito da foto: pixabay.com

 

 

segunda-feira, 18 de julho de 2022

MEDITAÇÃO DA VIDA DIÁRIA: OUVIDO NO CORAÇÃO DE DEUS

 

Oração mental, oração íntima, lectio divina, oração meditativa, leitura orante, meditação da vida diária, todos esses são termos equivalentes para descrever um tipo de oração sem a qual não é possível crescer na vida cristã. É a forma de oração que nos coloca em contato mais pessoal com nosso Pai e Senhor. Cada um desses termos, desenvolvidos por diferentes fundadores, tem suas particularidades e modo de execução, mas o objetivo é o mesmo: encontrar Deus, conhecê-lo, para poder melhor amá-lo e servi-lo.

O Catecismo da Igreja Católica, nos parágrafos 2705 a 2708, descreve o que é a meditação católica: “A meditação é sobretudo uma busca. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede.” (CIC 2705)

“Meditar no que se lê leva a assimilá-lo, confrontando-o consigo mesmo. Abre-se aqui um outro livro: o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade. Segundo a medida da humildade e da fé, descobrem-se nela os movimentos que agitam o coração e é possível discerni-los. Trata-se de praticar a verdade para chegar à luz: «Senhor, que quereis que eu faça?»” (CIC 2706).

A meditação põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir a Cristo” (CIC 2708)

A falta de uma vida de oração meditativa pode ser a causa porque muitas pessoas que são piedosas, recebem a Eucaristia diariamente, rezam bastante as orações vocais como o santo terço, novenas, exercem seu apostolado, se confessam regularmente, não melhoram como pessoas, não crescem nas virtudes.

Todos esses meios são muito bons e ajudam a crescer na fé e nas virtudes, porém precisam estar ligados ao encontro pessoal com Deus, a enxergar a Verdade na sua vida, caso contrário não produzem esses frutos.

Vejamos mais um parágrafo do Catecismo da Igreja Católica sobre a oração:

A maravilha da oração revela-se precisamente, à beira dos poços onde vamos buscar a nossa água: aí é que Cristo vem ao encontro de todo o ser humano; Ele antecipa-Se a procurar-nos e é Ele que nos pede de beber. Jesus tem sede, e o seu pedido brota das profundezas de Deus que nos deseja. A oração, saibamo-lo ou não, é o encontro da sede de Deus com a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede d'Ele” (CIC 2560)

É através da oração meditativa que podemos saciar um pouco da sede que nossa alma tem de Deus e muitas vezes nem nos damos conta. “Inquieto está nosso coração enquanto não repousa em Ti”, nos disse Sto. Agostinho. É nesse encontro pessoal com o Senhor que também podemos saciar a sede que Deus tem do nosso amor, de nossa disponibilidade de passar um tempo com Ele, de nossa docilidade ao Espírito Santo para cumprir Sua amorosa vontade.

Frei Antonio Royo Marin, que foi um grande diretor espiritual de muitas almas, é enfático: “A experiência confirma com toda a certeza e evidência que absolutamente nada pode suprir a vida de oração, nem sequer a recepção diária dos santos sacramentos[1]

A meditação da vida diária, conforme proposta pelo Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt faz parte desse tipo de oração mencionada pelo Fr. Royo Marin. Esse tipo de oração não busca um maior conhecimento intelectual, mas parte dele para buscar a Verdade, que é Deus, e ao encontrá-la, especialmente ao encontrá-la em nossa vida diária, poder crescer no amor a Ele.

A matéria desse tipo de oração parte de um acontecimento da vida, que pode ser desde um simples perder a hora de acordar, ou enfrentar um trânsito inesperado até acontecimentos mais marcantes como a perda de um emprego ou a morte de uma pessoa querida.

Deus quer falar conosco todos os dias. Ele nos ama com amor infinito e quer demonstrar esse amor para que possamos percebê-lo e senti-lo. E Ele usa de todos os meios para chamar nossa atenção: a natureza, as pessoas, o clima, e cada acontecimento de nossa vida, permitidos por Ele. Nós só precisamos abrir os olhos e o coração para enxergá-los.

Assim, a meditação da vida diária proposta pelo P. Kentenich consiste em reservar alguns minutos do seu dia para se colocar em diálogo com Deus, partindo de um acontecimento da sua vida. É preciso uma preparação para esse encontro, da mesma forma que nos preparamos para encontrar com uma pessoa que amamos e que queremos escutar.

Como se trata de um diálogo sobrenatural, precisamos também preparar o ambiente, com imagens que nos remetam a esse mundo sobrenatural, podemos ter também o auxílio de músicas espirituais, como o canto gregoriano ou alguma música instrumental ou ainda de uma vela acesa.

Depois, acalmamos nosso coração, tentando afastar as distrações de nossas preocupações e nos colocamos na presença de Deus, invocando o Espírito Santo. A partir daí refletimos sobre o acontecimento que previamente escolhemos e podemos usar 3 perguntas propostas pelo P. Kentenich para ajudar nessa reflexão:

 

1.     O que Deus quer me dizer com isso? (através desse fato ou circunstância)

2.     O que digo a mim mesmo?

3.     O que respondo a Deus?

 

Ao refletirmos tentando responder essas perguntas, podemos perceber Deus falando conosco através desse acontecimento. É um momento de encontro com Deus em nossa vida, então depois de conversarmos um pouco com ele, pensando em como podemos responder a esse chamado para amá-lo, fazemos uma pequena ação de graças e já ficamos na expectativa do próximo encontro.

Dessa forma, de acontecimento em acontecimento, vamos crescendo no amor por começarmos a ver Deus agindo em nossa vida, mesmo que essa ação signifique permitir uma dor ou sofrimento. E quanto mais colocamos na prática essa forma de oração, mais crescemos em nossa vida interior, fortalecendo as raízes de nossa alma para enfrentar qualquer dificuldade que possa se apresentar para nós. E ainda conseguimos uma tal estabilidade emocional que podemos ser abrigo para muitas pessoas.

 



[1] Antonio Royo Marín, Teología de la perfección cristiana. Madrid: BAC, 1954, p. 664, n. 499. 

Photo by John Cameron on Unsplash

terça-feira, 6 de outubro de 2020

DEUS QUER FALAR COM VOCÊ TODOS OS DIAS!

 

Vivemos numa sociedade que se esquece de Deus. Mesmo que tem religião, muitas vezes acaba deixando Deus em segundo plano, ou como um compromisso para o fim de semana. A vida se torna mecânica, sem uma integração entre o racional e o espiritual, entre a vida material e a vida da graça. Separa-se a fé da vida e frequentemente pode-se até se falar de Deus, mas as pessoas se esquecem de falar com Deus.

Desde a criação do ser humano Deus quer se comunicar com cada alma que ele criou para amar e ser amado. Antes do pecado, essa comunicação era mais fácil e direta, porém, com a rebeldia de nossos primeiros pais, falar com Deus e perceber Deus falando conosco ficou um pouco mais difícil.

Deus é Amor e o amor precisa se relacionar com quem ama. O amor é um movimento de sair de si mesmo para encontrar o outro, onde ele esteja. Deus é amor infinito e perfeito, então todos os dias e todos os momentos está buscando se relacionar, se comunicar, com cada um de nós. O problema é que, com nossa preocupação excessiva com as coisas materiais, não percebemos todos os gestos de amor, todos os sinais que Deus coloca em nossas vidas.

Quando fazemos o propósito de parar um pouco a correria do dia a dia e nos colocar na posição de querer ouvir o que Deus quer nos falar naquele momento, nossa vida se transforma. Não de uma hora para outra como se fosse mágica, mas pouco a pouco. Essa constância em procurar Deus em minha vida, nos dá acesso a uma existência superior, entramos em contato com o mundo sobrenatural que é tão real quanto o mundo material e assim conseguimos enxergar o todo, não apenas uma parte de nossa existência.

Santo Tomás de Aquino fala das “causas segundas”. A Causa Primeira é Deus, princípio de tudo, e todas as coisas criadas, são as “causas segundas” e querem comunicar um pouco do Criador. As “causas segundas livres” são os seres humanos e são os únicos que podem escolher se desejam ou não comunicar algo de Deus. Todo o mais que foi criado, por seu próprio ser, comunicam algo da Beleza, Bondade e Verdade de Deus, basta prestar um pouco de atenção que conseguiremos enxergar.

Esses dias aprendi que, se fotografarmos todos os dias o sol, no mesmo horário e do mesmo lugar, ao final de um ano, o trajeto que o sol fez no céu é exatamente o símbolo do infinito![1] Fiquei encantada com essa descoberta! Um dos símbolos de Jesus Cristo é o sol, então é como se Jesus nos falasse de seu amor infinito por cada um de nós!

Muita gente pode dizer que isso é bobagem, que tudo é coincidência, que não tem nada de extraordinário no trajeto do sol pelo céu, ou de uma flor que se abre no seu jardim, ou da chuva que chega quando o calor está grande, ou do amigo que manda uma mensagem com aquilo que justamente você estava precisando ouvir. Tudo isso é “normal e natural”. Sim, é natural, mas Deus utiliza da natureza, das pessoas, dos acontecimentos para nos comunicar algo de seu amor, para que nós consigamos sentir o seu amor e seu cuidado e, assim, conseguir corresponder com atos de amor.

Assim, precisamos nos conscientizar da importância de fazer nossa meditação diária, esse momento de encontro com o Deus da minha vida. Para começar, pode ser apenas 15 minutos, onde nos conectamos com Deus através da oração, pedindo ao Espírito Santo e ao nosso anjo da guarda que nos ajude a ver e entender o que Deus quer falar conosco naquele dia. Escolhemos um momento daquele dia ou do dia anterior e nos perguntamos: o que Deus quis falar para mim com esse acontecimento? O que eu digo a mim mesmo? O que respondo a Deus?

Essa atitude simples pode transformar a sua vida. Você pode anotar em um caderno as respostas diárias a essas perguntas simples e, depois de um tempo, ler novamente para agradecer todas as maravilhas que Deus opera em sua vida e que estavam passando desapercebidas. E, como um “bônus”, verá que tomar decisões no mundo material ficará muito mais fácil depois de ter um relacionamento mais íntimo com o mundo sobrenatural. Faça essa experiência!



[1] O nome científico desse fenômeno é analema

photo credit: tj.blackwell <a href="http://www.flickr.com/photos/8185633@N07/4679548147">Brain of the Sistine Chapel</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

photo credit: StarryEarth <a href="http://www.flickr.com/photos/65131760@N06/14597630538">rutan02-001</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

LIÇÕES DA MANJEDOURA

O Natal se aproxima e somos convidados a refletir sobre as maravilhas e ao mesmo tempo a singeleza do nascimento de Deus feito homem numa gruta, em Belém, há mais de dois mil anos. A história da nossa salvação começa na solidão desse momento único, apenas na presença de José e Maria que, profundamente comovidos, contemplavam aquele menino recém-nascido.

Quanto amor, quanta ternura envolviam esse momento! Tudo aconteceu sem barulho, sem alarde, no silêncio de uma noite feliz. A primeira lição que podemos tirar da manjedoura é a necessidade do silêncio para contemplar a Deus. Sem o silêncio, o coração é incapaz de admirar-se com os mistérios do Pai, que age e fala no silêncio. Sem silêncio não há vida interior, não há como elevar a alma para o mundo sobrenatural, é impossível encontrar a Deus. Quem foge do silêncio, foge de si mesmo, foge de Deus.

Para conseguirmos esse silêncio interior é necessário primeiro o silêncio exterior, calar os sentidos, aquietar o coração. O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate nos ensina: “todos precisamos deste silêncio repleto de presença adoradora. A oração confiante é a resposta do coração que se abre a Deus face a face, onde são silenciados todos os rumores para escutar a voz suave do Senhor que ressoa no silêncio.” (GE 149) E nos convida a uma profunda reflexão: “Tens momentos em que te colocas na sua presença em silêncio, permaneces com Ele sem pressa e te deixas olhar por Ele? Deixas que o seu fogo inflame o teu coração? Se não permites que Jesus alimente nele o calor do amor e da ternura, não terás fogo, e assim, como poderás inflamar o coração dos outros com o teu testemunho e as tuas palavras?” (GE 151)

Assim, precisamos aprender a nos silenciar para nos encontramos com nosso Pai, que quer se relacionar conosco. Nosso mundo é muito agitado, temos estímulos visuais e sonoros por todos os lados, então precisamos fazer pequenas mortificações de nossos sentidos, renunciando a olhar todas aquelas fotos, aqueles vídeos, aquelas notícias. Tirando um pouco o fone de ouvido, desligando o rádio e a televisão, freando a nossa curiosidade. Isso nos ajudará a conseguirmos o silêncio necessário e a serenidade que o controle das paixões nos dá para entramos em sintonia com nosso Criador.

Outra grande lição da manjedoura é a humildade. Nosso Deus todo poderoso se humilhou assumindo nossa natureza humana, nascendo pobre, numa gruta e colocado numa simples manjedoura. Precisamos aprender a sermos humildes, seguir o exemplo de Jesus. Deus se serve dos humildes para grandes coisas.

O Papa Francisco continua ensinando: “a humildade só pode enraizar no coração através das humilhações. Sem elas, não há humildade nem santidade. Se não fores capaz de suportar e oferecer a Deus algumas humilhações, não és humilde e nem estás no caminho da santidade. (...) A humilhação faz-te semelhante a Jesus, é parte ineludível da imitação de Jesus: ‘Cristo sofreu por vós, deixando-vos um exemplo, para que sigais os seus passos.(1Pd 2,21)" (GE 118)

Peçamos nesse Natal o grande presente de aprendermos a fazer silêncio e rezar com muita introspecção e também a graça de sermos pessoas humildes e agradecidas por tantos dons e bênçãos que recebemos diariamente.


photo credit: Felipe Sasso <a href="http://www.flickr.com/photos/32133548@N04/5376535732"></a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nd/2.0/">(license)</a>

terça-feira, 27 de março de 2018

DEUS NÃO PRECISA DAS SUAS ORAÇÕES!


Deus não precisa de suas orações, nem de suas penitências, nem de seus jejuns. Ele não precisa que você vá à missa, nem receba nenhum dos outros sacramentos. Deus é onipontente, onipresente e onisciente. Ele não precisa de nada! Mas então porque a Palavra de Deus e a santa Tradição da Igreja pedem que você faça tudo isso? Seria tudo invenção humana para te “oprimir”?

A razão é simples: o plano do Pai para a sua vida é que um dia, você possa gozar das alegrias do Céu, junto dele. Só que para isso, você precisa vencer a si mesmo, ao seu egoísmo. E isso é uma tarefa dificílima. Como nosso Pai é rico em misericórdia e compaixão, Ele quer te ajudar. Na verdade, a sua graça pode fazer praticamente tudo sozinha. Só é necessário que você abra seu coração e aceite que Ele te molde e cuide de você.

O Pai só precisa de uma brechinha em seu coração para realizar grandes milagres de transformação interior. Depois que a graça entra em você, é preciso um mínimo esforço para colaborar com ela, para deixar que ela aja e aumente a cada dia a sua capacidade de amar.
É o amor que vai te levar para o Céu. Os santos, nossos irmãos que cumpriram com maestria sua missão aqui na terra, foram mestres na arte de amar. O contrário do amor não é o ódio, mas o egoísmo. Assim, quanto você ama, menos egoístas é e mais aberto está para realizar o que o Pai previu para a sua vida aqui na terra.

Como aprender a amar? Como conseguir dar essa brecha para a graça de Deus penetrar em nossos corações? Como ser perseverantes na colaboração com essa graça? É aqui que entra a necessidade da oração, dos sacrifícios, dos jejuns e da frequência aos sacramentos.

Deus não precisa das suas orações, mas você precisa rezar. É através da oração, desse contato com o Pai, desse momento de intimidade com Jesus, nosso Salvador, que seu coração se abre para receber a graça. Quanto mais você reza, quanto mais você pede (você pode pedir o que quiser, mas sempre lembrando de como Jesus nos ensinou a orar: “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu), mais seu coração se abre e se transforma.

Deus não precisa que você vá à missa, mas você precisa receber a Eucaristia. Na Eucaristia, Jesus se dá totalmente a você, em corpo, sangue, alma e divindade. Ele se torna uma só carne com você, para te fortalecer na luta para aprender a amar mais e amar melhor.

Deus não precisa que você se confesse, mas você precisa confessar para pedir perdão pelas vezes que falhou em amá-Lo e amar ao próximo, e assim se reconciliar com Ele para que Ele possa continuar agindo em seu coração, através do Espírito Santo.

Deus não precisa de seus jejuns e sacrifícios, mas você precisa jejuar e fazer penitência para conseguir se livrar do apego desordenado às coisas desse mundo e assim ficar mais livre para conseguir enxergar as necessidades do outro e ajuda-lo.

Deus não precisa que você faça nada disso, mas deseja ardentemente que você aceite esses meios que Ele mesmo providencia para a sua salvação, para que você cumpra a missão para a qual foi criado e seja também um mestre na arte de amar.

photo credit: Angela-xujing <a href="http://www.flickr.com/photos/153103713@N04/35471335134">The Church of Almighty God | Church life - Pray 04</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/">(license)</a>

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

MAIS IDEIAS PARA QUARESMA DE SEUS FILHOS

Hoje continuamos com as dicas para a Quaresma de seus filhos, que foram extraídas do site: http://www.pbgrace.com/lent-ideas/
Por que jejuamos?
- como penitência: através de todo o Antigo Testamento, as pessoas se cobriam de cinzas, tiravam suas roupas finas e jejuavam para expressar seu arrependimento do pecado. O jejum serve para o mesmo propósito nos dias de hoje.
- para dar lugar a Deus: ao esvaziarmos a nós mesmos, mesmo se for apenas um pouquinho, damos lugar para Deus entrar em nossas vidas mais plenamente. Quando o jejum e a abstinência forem difíceis, nós nos voltamos a Deus em oração para nos ajudar.
- fortalecimento da vontade: jejuar é uma disciplina espiritual; da mesma forma que o exercício físico deixa nosso corpo mais forte, o jejum fortalece nossa vontade. Ao negar a nós mesmos coisas pequenas, fortalecemos nossa vontade para resistir ao pecado em outras áreas de nossas vidas.
- como preparação para a missão: para os cristãos, o jejum imita os quarenta dias que Jesus passou no deserto. Da mesma forma que Jesus usou esse tempo para se preparar para a sua missão pública, jejuar nos prepara a continuar a missão dele no mundo.
- solidariedade com o Cristo sofredor: mesmo os pequenos sofrimentos que experimentamos enquanto jejuamos nos deixa mais próximos do Cristo sofredor – e de todas as pessoas que sofrem de fome, má nutrição e abuso diariamente.
Doação (esmola)
A doação (tradicionalmente chamada de esmola) é uma prática espiritual que é um ato de caridade, especialmente quando sua doação vem de um sacrifício pessoal. Quando falar para seus filhos sobre ideias para doação, compartilhe com eles a história da oferta da viúva (Lc 21, 1-4). A viúva pobre ofertou duas pequenas moedas ao tesouro do Templo, mas porque ela deu tudo o que tinha, Jesus disse que ela deu mais do que aqueles que deram grandes quantias de dinheiro tiradas de sua fartura. A lição: é o tamanho da sua generosidade e não a quantidade, que faz a diferença.
Seguem aqui mais algumas ideias para seus filhos praticarem na Quaresma:
1. Faça um ato de gentileza aleatório todos os dias: pode ser escrever um bilhetinho de agradecimento para alguém; escrever o que mais gosta de cada membro da família e entregar para cada um; faça um elogio a cada pessoa que encontrar durante o dia; perguntar uma vez por dia a outro membro da família: “como posso te ajudar hoje?”
2. Dividir: estimular as crianças a compartilharem seus brinquedos ou espaço no quarto com os outros irmãos, de maneira gentil. Ou estimule as crianças a doar o dinheiro que economizaram com seus sacrifícios (p. ex. com “porcarias”) e doar para uma instituição de caridade.
3. Praticar estar presente: os adolescentes podem se comprometer em desligar seus telefones (ou outros aparelhos eletrônicos). Ainda melhor, crie uma área sem telefone (como a mesa de jantar).
4. Compartilhe estórias: As crianças e adolescentes devem ser incentivados a compartilhar suas histórias para superar sua resistência em serem abertos e vulneráveis com os outros. O outro lado disso é pedir para que os pais, avós ou outros adultos compartilhem também suas histórias, principalmente de quando eram crianças.
5. Aprenda e se responsabilize por uma nova tarefa doméstica: pode ser lavar a louça no fim de semana, passar aspirador no quarto, guardar suas roupas, varrer a calçada, tirar o lixo, etc.
Ideias de Orações para Crianças e Adolescentes
A oração é essencial para vivermos a fé cristã. Ela enriquece nossa vida espiritual e quando rezamos estamos aptos a deixar Deus trabalhar através de nós ao invés de tentarmos fazermos do nosso jeito. A oração é uma forma de demonstrarmos nosso amor a Deus, pois se amamos, queremos sempre estar conversando com a pessoa amada. E a oração é isso: uma conversa com Deus.
Seguem algumas sugestões de formas de oração para as crianças e os adolescentes:
1. Reze o terço durante o dia: as crianças e adolescentes poderão carregar um terço com eles, para rezarem durante o dia. Não precisa rezar tudo de uma vez, pode ser um mistério, por exemplo, no caminho para a escola. Depois continua na hora do almoço e assim vai durante o dia para rezar o terço completo.
2. Vista sua fé: as crianças podem ser estimuladas a usarem símbolos cristãos (colar, pulseira ou camiseta), como testemunha de sua fé e para lembra-los de viverem suas crenças de uma maneira mais consistente.
3. Conheça Jesus: Conheça mais Jesus lendo os Evangelhos nesta Quaresma. Peça para as crianças lerem partes do Evangelhos em Bíblias apropriadas para cada idade, ou leiam junto como família. Podem aprimorar esse conhecimento assistindo filmes sobre a vida de Jesus, como A Paixão de Cristo, de Mel Gibson (crianças pequenas podem ficar muito impressionadas, então verifique outros filmes mais apropriados para a idade de seus filhos).
4. Reze três vezes por dia: é importante manter contato com Deus durante o dia. Estabelecer horários para fazer uma simples oração pode ajudar muito no crescimento de nossa fé e do nosso relacionamento com Deus. Rezar de manhã, na hora do almoço e a noite pode ser um começo. Os mais velhos podem colocar alarmes no celular para se lembrarem de rezar.
5. Faça uma confissão: se a sua família ainda não se confessou esse ano, agende uma para essa época da Quaresma. Se vocês já se confessam regularmente, tente aumentar essa frequência durante a Quaresma. A confissão é um sacramento que traz muitas graças para aquele que está recebendo. Assim, devemos estimular nossos filhos a confessarem regularmente (uma vez ao mês). Com essa prática, eles começam a ver a confissão como algo normal, que faz parte da vida espiritual deles e isso faz um bem enorme para suas almas.
6. Vá a missa durante a semana: a Eucaristia é o momento mais íntimo de nosso encontro com Jesus. Durante a Quaresma, estimule seus filhos a irem pelo menos mais uma vez durante a semana na missa (além, claro, do domingo).
7. Reze a Via Sacra: a Via Sacra nos faz lembrar das últimas horas da vida de Jesus, de todo sofrimento que passou para nos salvar. Para as crianças, existem Via Sacra infantis, com uma linguagem mais apropriada. Vocês podem combinar de rezar a Via Sacra uma vez por semana (de preferência as 6ª feiras) em família.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

JEJUM, ESMOLA E ORAÇÃO: VÁRIAS IDEIAS SOBRE O QUE AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES PODEM FAZER NA QUARESMA



O post de hoje é uma tradução e adaptação autorizada. Iremos dividir em duas partes, para não ficar muito longo. Veja o post original neste link: http://www.pbgrace.com/lent-ideas/
O jejum, a esmola e a oração são o coração dos quarenta dias de Quaresma. Aqui estão algumas estratégias para ajudar seus filhos a se envolverem nessas práticas tradicionais penitenciais.
A maioria dessas ideias são para crianças de 6 anos ou mais. (A melhor maneira de introduzir as crianças mais jovens nas práticas da Quaresma é elas verem os adultos e crianças mais velhas praticando; use a curiosidade natural delas e a vontade de serem “gente grande” para falar sobre o que você está fazendo e o porquê).
 O que é Quaresma?
Uma boa maneira de começar a Quaresma é simplesmente perguntar a seus filhos, no jantar ou mesmo no carro, o que é a Quaresma. Aqui estão alguns tópicos para a conversa:
- as raízes da Quaresma vão até a Igreja primitiva, onde aqueles que desejavam se tornar cristãos eram submetidos a um período de preparação antes de seu batismo. Era limitado apenas aos catecúmenos (aqueles que estavam se preparando para entrarem na Igreja), mas depois toda a Igreja adotou a prática de “renovação” do batismo através de um período de penitência e um novo comprometimento à vida cristã.
- atualmente a Quaresma é um tempo quando todos os batizados são chamados a renovar seu compromisso batismal. A chave para uma observância fecunda dessas práticas é reconhecer seu vínculo com a renovação do batismo. Somos chamados não só a nos afastarmos do pecado durante a Quaresma, mas para um verdadeira conversão de nossos corações e mentes como seguidores de Cristo.
- tradução para crianças mais novas: “A quaresma é um tempo onde lembramos nosso batismo ao nos afastarmos do pecado e fazendo o bem no nosso dia a dia”
- as práticas tradicionais da quaresma que são extraídas do Sermão da Montanha de Jesus são: esmola (Mt 6, 2-4), oração (Mt 6, 5-15) e jejum (Mt 6, 16-18)
Ideias para o Jejum de Crianças e Adolescentes
O jejum e a abstinência são as práticas de abrir mão de algo (p. ex., comida ou carne) para nos afastarmos do pecado e nos aproximarmos de Deus. Não é apenas uma forma de penitência, mas uma disciplina spiritual que nos ajuda a criarmos espaço para Deus, fortalecermos nossa vontade, nos preparamos para a nossa missão, e nos colocarmos em solidariedade com os sofrimentos de Cristo e as pessoas que sofrem ao redor do mundo.
Apenas os adultos (18 a 59 anos) são obrigados a jejuar (apesar que adolescentes maiores que 14 anos são obrigados a se absterem de carne na quarta-feira de cinzas e na sexta-feira santa). Além dessa obrigação, todos são convidados a escolher práticas penitenciais individuais durante a Quaresma. Começando na idade de 5 ou 6 anos, as crianças podem ser estimuladas a “fazer algum sacrifício” ou adotar uma prática positive, como uma forma de entrarem no espírito da Quaresma.
Quando encorajarem seus filhos a jejuar, ajude-os com algumas ideias criativas. O ideal é fazer desse jejum algo concreto e mensurável. Por exemplo, ao invés de falar “eu não vou mais brigar com minha irmã”, sente-se com a criança e veja algumas ações específicas que podem levar a uma “conversão” nessa área. O que causa as brigas? Se o problema for pegar algo emprestado sem pedir, faça disso o propósito da Quaresma: “pedir emprestado antes de pegar algo da minha irmã”. É bom colocar algum tipo de lembrete, por exemplo, no quarto ou guarda-roupas da criança, para que ela lembre-se de que tem um propósito a cumprir.
Aqui estão algumas ideias sobre o que seus filhos podem abrir mão para a Quaresma:
1. Abra mão dos “suspeitos” tradicionais: doces, videogames, celulares (ou crie “zonas de silêncio” sem eletrônicos), refrigerantes, “porcarias”, media social, ou algum outro tipo de conforto.
2. Silêncio: os monges praticam o silêncio para ouvirem melhor a Deus. Sua família também pode fazer isso, ao desligar o rádio (talvez apenas no carro), desligar a TV, fazer uma refeição em silêncio (ou enquanto ouvem música sacra), ficar em silêncio nos 15 primeiros minutos do dia, ou até mesmo fazer um dia de silêncio.
3. Fazer do seu quarto um deserto: Jesus passou 40 dias no deserto. Crianças e adolescentes podem imitar seu exemplo ao fazer do seu quarto mais parecido com um deserto, ao remover fotos e pôsteres das paredes, tirar o tapete, esvaziar o guarda roupas das coisas supérfluas, deixando só o essencial, guardar as decorações do quarto (brinquedos, pelúcias, etc) durante esse período.
4. Enxugue seu guarda roupa: as crianças podem contar o número de roupas que possuem e selecionar 10% para usarem durante a Quaresma (para inspirações, leiam as histórias dos santos que deram todas suas roupas para os pobres). No final da Quaresma, eles podem considerar doar algumas das roupas que eles não usaram.
5. Escreva sua briga: crianças mais velhas podem diminuir as discussões entre os irmãos ao escrever suas queixas ao invés de faze-las verbalmente. Você pode imprimir “formulários de reclamação” que incluam guias para reformularem suas queixas usando uma linguagem apropriada (sem agressões).
6. Ceda o seu lugar: se os “lugares”, por exemplo, sempre ter um lugar específico no carro ou na mesa, ou brigar constantemente por causa de quem será o “primeiro” for uma questão importante para seus filhos, isso é uma opção para abrir mão na Quaresma. Leia e fale sobre o ensinamento de Jesus sobre o “primeiro” e o “último” lugar (Mc 10, 41-46)
7. Coloque-se no lugar do pobre: durma no chão: um dos objetivos de jejuar é nos lembrar da condição do pobre, especialmente daqueles que não tem o necessário para as necessidades básicas da vida. Seus filhos podem destacar esse elemento ao abrir mão de algo que simbolize uma necessidade básica que o outro pode não ter. Por exemplo:
- dormir no chão, e não na cama, para praticar a solidariedade com aqueles que não tem casa
- beber apenas água e leite, em solidariedade com aqueles que não tem água limpa para beber
- não comprar nada para si mesmo (exceto o que seja estritamente necessário), em solidariedade com aqueles que devem viver com menos de R$ 5,00 por dia
olidariedade com aqueles que devem viver com menos de R$ 5,00 por dia
8. Abra mão de seu cabelo: o que você faz com seu cabelo é uma expressão de sua identidade, por isso muitas histórias da Bíblia (como a de Sansão) e da vida de santos (como de Sta. Clara de Assis) envolvem o cabelo. Se o cabelo for muito importante para os adolescentes, eles podem considerar abrir mão dele na Quaresma. Uma ideia é doar para o Cabelegria (http://www.cabelegria.com.br/), uma ONG que faz perucas para crianças e mulheres com câncer.

photo credit: <a href="http://www.flickr.com/photos/21074909@N06/5528045794">DSC_8457</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>