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segunda-feira, 4 de julho de 2022

PREPARAÇÃO PARA A MEDITAÇÃO: OUVIDO NO CORAÇÃO DE DEUS

 


Continuando nossa série de artigos sobre a meditação da vida diária, conforme ensinado pelo Pe. Kentenich, hoje trataremos do tema da preparação para a meditação. “O enfoque de nosso Pai e Fundador é meditar onde nos encontramos com Deus e como nos encontramos com Deus”, nos explica o Pe. Humberto Anwandter.

Para perceber esse atuar de Deus em nossas vidas é preciso nos deter, parar para contemplar, para nos encontramos com o Pai, que, como diz a fé prática na divina providência, cuida de todos os acontecimentos da história mundial, mas também da história da minha vida. Todo encontro mais pessoal e profundo, exige uma certa preparação. Ainda mais vivendo da forma agitada como acontece em nosso mundo, seria ilusão pensar que é possível passar da plena atividade diretamente para um diálogo íntimo com Deus.

Assim, existe uma tríplice preparação para a meditação: a preparação remota, a preparação próxima e a preparação imediata.

Preparação remota

A preparação remota diz respeito a algumas atitudes prévias que precisamos conquistar para conseguirmos fazer uma boa meditação. A primeira delas é reservar um tempo para meditar, pois todo encontro de amor requer um tempo. E não basta dizer: “amanhã farei meus 15 minutos de meditação”. Isso é muito vago e nossa tendência é procrastinar. Então o ideal é efetivamente marcar um horário na nossa agenda, por exemplo, das 08:00 às 08:15 e cumprir esse horário.

Como nossas agendas normalmente são muito cheias, reservar esse tempo para meditação pressupõe deixar alguma coisa de lado. Como diz o Pe. Rafael Fernandez: “Sejamos realistas: sem renúncia ou um melhor ordenamento de nossa agenda diária, não será possível contar com o tempo necessário para um encontro mais profundo com o Senhor. (...) Se não damos espaço aos ‘encontros de amor’ com Deus; se não cultivamos nosso amor a Ele, então nosso contato pessoal com Ele também irá esfriar, se tornará cada vez mais distante e impessoal, até desaparecer. (...) Dar um espaço para a meditação impede que isso aconteça.”

Para nos introduzirmos na prática da meditação é necessário também possuir uma capacidade contemplativa, ou seja, a capacidade de assombrar-se e maravilhar-se diante das coisas. É similar a capacidade que crianças possuem de olhar, por exemplo, uma borboleta e se encantar com os seus movimentos, suas cores, o bater de suas asas...

Em geral nós olhamos as coisas e as pessoas de um ponto de vista de sua utilidade prática, nos colocando no centro. Além disso o excesso de estímulos que recebemos diariamente através das diferentes telas (celular, computador, televisão), nos atrapalha a parar para observar e admirar as coisas e as pessoas que nos cercam.

Precisamos aprender a “nos deter ante a realidade que nos rodeia; a reparar nos detalhes; ir mais além da superfície; a contemplar em seu conjunto e em seu significado o que observamos, seja uma coisa, uma pessoa ou um acontecimento”, nos ensina o Pe. Rafael Fernandez. Para isso precisamos, aos poucos, ir treinando o nosso olhar e começar a fazer esse pequeno exercício de contemplação, um pouquinho a cada dia.

Mais um passo importante da preparação remota é dar espaço aos valores do coração. Como dizia S. João Paulo II fomos criados para amar, não simplesmente para produzir ou organizar. O Pe. Kentenich também insistia na importância do organismo de vinculações, ou seja, o cultivo dos vínculos de amor pessoais, tanto na ordem natural como na sobrenatural. A meditação, como escola de amor, como meio de aprofundar nossa vinculação pessoal a Deus, nos ajuda a desenvolver e fortalecer essa capacidade de amar que é infundida, como semente, em nosso ser.

Por fim, é necessário também reavivar nossa fé na divina providência, pois através da meditação queremos nos encontrar com Deus, por isso é imprescindível ter fé em Deus. Então tudo o que afirma e fortifica nossa fé, redunda em uma maior possibilidade de encontrar a Deus na meditação. Os meios que podemos utilizar para aumentar a nossa fé são os sacramentos, especialmente o da confissão e o da eucaristia, além da leitura da Palavra de Deus. É importante lembrar que devemos sempre rezar pedindo para aumentar a nossa fé. Essa é a única oração que podemos ter plena certeza que será atendida imediatamente.

Preparação próxima

O Pe. Kentenich ensina que a preparação próxima para a meditação são nossas práticas espirituais, o que ele denomina de “pausas criadoras” de oração (momentos curtos nos quais elevamos nosso espírito ao Senhor) no meio do dia de trabalho.

A oração é a “respiração da alma”, assim se não rezamos, nosso espírito morre, perdemos o contato com o mundo sobrenatural. Pensamos em primeiro lugar na oração da manhã e na oração da noite, que devem ser feitas de maneira bem consciente, oferecendo todo nosso dia de trabalho e depois agradecendo o dia que passou. O livro de orações Rumo ao Céu tem a oração da manhã (RC 3 – 17) e a oração da noite (RC 357 – 385) escritas pelo próprio Pe. Kentenich e que podemos usar em nosso dia a dia.

Além dessas orações que marcam o início e o fim de cada dia, devemos complementar com as “pausas criadoras”, essas pequenas demonstrações de amor e carinho com Deus, com as pessoas do mundo sobrenatural. Elas podem ser feitas com as jaculatórias, que tem origem do latim e significam “flechas atiradas”. Assim, as jaculatórias são como flechas de amor que atiramos para o Céu, para atingir o coração de Deus. Alguns exemplos de jaculatórias: “Jesus eu confio em Vós”; “Ave Maria por tua pureza conserva puro meu corpo e minha alma”; “Oh Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós”, etc. Você pode criar sua própria jaculatória favorita ou simplesmente ao longo do dia, dizer: “Jesus eu te amo”.

“As pausas criadoras, intercaladas com os afazeres cotidianos, tal como as concebe o Pe. Kentenich, são uma ajuda privilegiada que nos permite manter viva a presença e o amor de Deus em meio às nossas atividades.”  (P. Rafael Fernandez)

Outra prática que pode constituir uma “pausa criadora” é cumprimentar a Jesus Eucarístico sempre que passamos em frente a uma Igreja. Ou até desviar um pouco o caminho que fazemos para propositalmente passar em frente a uma Igreja só para poder falar “oi” pra Jesus, com um sinal da cruz.

“Como o pássaro não abandona seu ninho, nosso amor gira ao redor dos tabernáculos sagrados. Onde a lâmpada sagrada flameja e não se apaga, nossas almas ardem por desposar-se contigo” (RC 163-164).

Mais exemplos são: olhar um crucifixo, saudar uma imagem de Maria ao entrar ou sair de casa, ou quando mudamos de atividade; uma comunhão espiritual; beijar nossa medalha de consagração, etc. Pe. Rafael Fernandes nos ensina que “a forma e o conteúdo dessas pequenas pausas criadoras dependem de nosso temperamento e de nossa relação com Deus.”

Por fim, o Pe. Kentenich destaca a importância do momento em que nos dispomos a dormir: “A preparação para a meditação é, talvez, o mais importante. Começa pela noite, na preparação que fazemos durante a oração da noite; sua culminância está nos minutos antes de dormir. Pouco antes de dormirmos deveríamos ter claro quando e para que vamos nos levantar na manhã seguinte.”

Preparação imediata

A preparação imediata se refere ao momento da meditação propriamente dita. A primeira coisa necessária é um lugar adequado, para podermos nos encontrar com o Senhor, devendo ser uma atmosfera propícia para esse encontro. A realidade de cada pessoa é que vai determinar esse lugar, podendo ser seu próprio quarto ou seu escritório, antes de começar o trabalho, ou uma igreja ou o próprio Santuário ou seu Santuário-lar. O mais importante é que o local escolhido nos assegure um grau razoável de tranquilidade.

“Todo encontro de amor requer um contexto e um ambiente adequados” nos diz o P. Rafael Fernandez, assim ajuda a entrarmos nessa atmosfera de meditação se tiver uma imagem religiosa, algum símbolo, uma vela, etc, ou seja, coisas que ajudem nossos sentidos a nos colocarmos em contato com o mundo sobrenatural.

É necessária também uma postura corporal adequada, seja ela sentada, em pé ou ajoelhada. Todavia se a postura que escolhemos nos causa um certo desconforto que atrapalha nossa concentração, então ela não é adequada.

Por fim, o tempo que escolhemos para meditar é importante e depende da realidade de cada um. Para alguns, o melhor é logo de manhã, para outros, o período noturno é o mais apropriado, outros ainda, preferem uma pausa no meio do dia. O que conta é que seja um tempo apto para realizarmos nosso propósito de meditação, assim não podemos estar muito cansados, com sono ou preocupados com os afazeres.

Com relação a duração da meditação, no início pode ser de 10 a 15 minutos e depois, conforme fomos adquirindo o hábito, pode passar a ser de 20 a 30 minutos.

“Por que acontece com frequência que simplesmente não conseguimos meditar? Uma causa pode ser o desconhecimento da verdadeira oração. Muitos pensam que o sentido de uma oração autêntica está no trabalho da cabeça. Isto não está certo. O mais importante é que a vontade e o coração estejam entregues a Deus. Outra razão é a falta de magnanimidade. Buscamos com uma unilateralidade demasiada o consolo de Deus e não o Deus do consolo. Pensamos que se não sentimos consolo nenhum, a prática da oração é uma perda de tempo. Outra causa reside no fato de que damos pouca importância à preparação remota. Nossa vida deve possuir o seguinte ritmo: os tempos de oração são a oração antecedente, a vida prática é a oração consequente. Durante o dia devo cuidar para me desprender, por manter meus sentidos em recolhimento, por conservar uma atitude humilde perante Deus. Se não faço isso, seria um verdadeiro milagre que minha meditação fosse boa. Digo mais uma vez: quem vive a santidade da vida diária protege qualitativamente as práticas de oração.” (P. Kentenich)

Caso você tenha alguma pergunta ou comentário sobre a prática da meditação da vida diária, pode enviar para o email: ouvidonocoracaodedeus@gmail.com

Photo by Olivia Snow on Unsplash

segunda-feira, 13 de julho de 2020

NÃO TENHA MEDO!



Já me falaram que a expressão “não tenha medo” está escrita 365 vezes na Bíblia, uma para cada dia do ano, reforçando a mensagem que devemos confiar na bondade e misericórdia de Deus, confiar em sua Divina Providência que cuida de cada um de nós como a preciosa pupila de seus olhos.

O medo faz parte de nossa natureza animal, do nosso instinto de autopreservação. Sentimos medo quando percebemos algum tipo de ameaça à nossa integridade física ou emocional. Quem sente medo está em um estado de alerta e preocupação, sua atenção está focada naquele elemento que está causando o medo, sendo essa a prioridade imediata em sua vida, deixando as outras coisas de lado.

Porém, como cristãos, somos convidados a dar um passo para fora do medo, um passo de coragem, um passo de fé e confiança de que existe Alguém que permanentemente está cuidado de cada um de nós, como sua ocupação predileta. Quem consegue ter essa visão sobrenatural dos acontecimentos da vida, experimenta uma sensação de paz e de tranquilidade e encara todos os desafios com coragem e na segurança de que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

Isso não significa que, num passe de mágica, as preocupações e receios desaparecem. As pessoas que sabem que são amadas e cuidadas por Deus, num primeiro momento podem até sentir um certo medo e insegurança, mas logo esse sentimento é substituído pela confiança de que, se Deus Pai está permitindo essa situação em suas vidas, é porque ela é necessária para a sua salvação, para sua felicidade eterna.

Para podemos chegar a essa atitude de confiança irrestrita na Divina Providência precisamos começar a enxergar, em nossa história de vida, tudo o que o Bom Deus já fez e continua fazendo para nos conduzir a Ele. Precisamos literalmente parar e contemplar. Tirar alguns minutos por dia e nos perguntar: como Deus cuidou de mim hoje?

A doutrina da Igreja nos ensina que Deus, porque nos ama, quer se comunicar diariamente conosco, seja através da natureza, das pessoas que encontramos, dos acontecimentos simples do dia a dia e até dos grandes acontecimentos da história do mundo. Quando incluímos em nossa rotina diária esse tempo de meditação, aos poucos começamos a sentir (e não só saber) que somos muito amados e assim, conseguimos também começar a retribuir esse amor.

Desta forma, quando somos surpreendidos com algum acontecimento que nos estremece, como a perda de um ente querido, um problema econômico, uma doença, uma pandemia que nos força a mudar a forma de viver as coisas mais simples como sair de casa, conseguimos ter a tranquilidade de quem sabe que é seu Pai quem está no controle de tudo, que no meio da tempestade, é seu Pai quem está no leme do barquinho da sua vida, te conduzindo para o porto seguro.

Sentir-se assim, verdadeiramente amado e cuidado pelo Pai, é uma graça extraordinária, mas que está à disposição de cada um de nós. Precisamos pedi-la diariamente e fazer a nossa parte, o nosso 1%, que é essa meditação da vida diária, esse olhar para a nossa vida procurando onde e quando Deus está falando conosco,  “pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta.” (Mt 7,8)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

É POSSÍVEL UMA MÃE MEDITAR?

Vivemos num mundo muito agitado, com muitas coisas pedindo nossa atenção: marido, filhos, casa, talvez ainda o trabalho fora e os compromissos com o apostolado. Assim, não devemos estranhar que surja em nós um desejo por paz e tranquilidade. Mas será que isso é possível na vida de uma mãe muito ocupada?

Precisamos de um tempo para nos encontrar conosco mesmas e nos confrontar com aquilo que dá o sentido verdadeiro a nossa existência e que nos conduzam a um contato mais profundo com Deus. E é aqui que entra a prática da meditação.

A meditação, nos moldes ensinados pelo Pe. Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, a chamada “meditação da vida diária”, vem responder a esse anseio e essa necessidade. Sua preocupação constante era conduzir o ser humano atual até um encontro com o Deus vivo através das criaturas e das circunstâncias concretas que o rodeiam.

Precisamos cultivar nossa vida interior, nossa dimensão sobrenatural, pois não devemos cuidar apenas do nosso corpo e da nossa mente, mas nosso espírito também precisa ser devidamente nutrido, caso contrário, corremos o risco de perder a vitalidade da nossa fé. A fé só se mantem e se alimenta através do contato íntimo e pessoal com o Senhor.

Pe. Kentenich ensina um método de meditação especialmente apto para as pessoas que estão chamadas a encontrar a Deus no meio do mundo, através das criaturas, e nós, mães, estamos incluídas neste grupo. Ou seja, um método para quem não pode nem deve abandonar as realidades desse mundo: sua família, seu cônjuge, seus filhos, seus negócios e tudo o que isso implica, para se retirar e contemplar a Deus na solidão.

Esse tipo de meditação não é um aprofundamento intelectual das verdades da fé, mas sim encontrar com Deus na nossa vida, perceber onde e como ele se comunica conosco em nosso dia a dia. Ao percebemos o quanto Deus se esforça para se fazer presente na nossa vida, o quanto ele cuida, com muito amor de cada uma de nós, nosso amor por ele cresce e dá frutos. Assim, o objetivo da meditação não é conhecer mais, mas AMAR mais.

O primeiro passo para colocar a meditação na prática é decidir que meditar é importante, e dedicar alguns minutos do dia para isso. Pode ser, no início de 10 a 15 minutos. Podemos começar fazendo uma vez por semana, e depois, gradativamente, aumentando a frequência.

Escolhemos um lugar adequado, onde não seremos interrompidos. Sei que isso pode ser especialmente difícil se temos crianças muito pequenas em casa, mas usando a criatividade e quem sabe até a ajuda de nosso esposo, conseguiremos encontrar um momento e um local apropriado. É bom ter um caderno pessoal para anotar as inspirações que a meditação pode trazer. De preferência, com alguma cruz ou imagem que nos remeta à realidade sobrenatural. Fechar um pouco os olhos, respirar calmamente e nos colocar na presença de Deus, então fazemos uma oração implorando as luzes do Espírito Santo.

Em seguida, escolher sobre o que se vai meditar. Se ainda somos iniciantes nessa prática, é mais fácil escolher um passagem bíblica ou um trecho de uma oração. Depois, com a prática, pode ser um acontecimento da vida (uma situação concreta de nossa vida), que é efetivamente a meditação da vida diária proposta pelo Pe. Kentenich.

Não é necessário que em cada meditação escolhamos um tema diferente, podemos por várias vezes meditar sobre a mesma coisa, pois encontramos algo que captou nosso coração, que nos une a Deus de forma especial. O objetivo é precisamente este: repousar no amor de Deus, crescer nesse amor, expressar nossa entrega, nossa disposição de segui-lo ou nossa vontade de abraçar a cruz que nos presenteia.

O Pe. Kentenich propõe três perguntas que constituem uma excelente ajuda para desenvolver esse encontro com o Senhor:
1.     O que Deus quer me dizer com isso? (através desse texto ou desse fato ou circunstância)
2.     O que digo a mim mesmo?
3.     O que respondo a Deus?

A pergunta mais importante é esta última. É nela que entramos na oração meditativa. Quando falamos de resposta, não significa uma ação ou propósito, mas de uma resposta “de amor”, uma resposta do coração, falando pessoalmente com o Senhor. Expressamos nosso amor de gratidão, de arrependimento, de pedido. Terminamos a meditação com uma oração de ação de graças. É conveniente anotar no caderno pessoal sobre o que meditamos e o que foi mais importante para nós na meditação.


Além de agradecer ao Senhor e a Nossa Senhora pela meditação (ou pedir perdão se não a realizamos bem), as vezes podemos concluir com alguma intenção ou propósito que venha ao encontro do que meditamos. Assim, pouco a pouco, com a dedicação de alguns momentos por dia para meditar, vamos aumentando nosso amor e nossa vinculação ao nosso Pai do Céu que nos ama com amor infinito.

photo credit: sicknotepix <a href="http://www.flickr.com/photos/128658155@N08/20163424394">Mirka</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

FÉ PRÁTICA NA DIVINA PROVIDÊNCIA


Todos recebemos o dom da fé pelo Batismo, mas ela é só uma semente, precisamos desenvolve-la no decorrer de nossa vida. Para isso, precisamos conhecer as verdades da fé, aquilo no qual acreditamos e principalmente a pessoa na qual depositamos nossa fé.

Mas não se trata apenas de um conhecimento intelectual, mas de uma vivência, de um verdadeiro encontro com Jesus, o nosso, o meu Salvador. Precisamos aumentar sempre a consciência de que Jesus não só salvou toda a humanidade, mas Jesus salvou a mim! A oração e a frequência ao sacramentos, especialmente a Eucaristia, onde Jesus se dá a mim e deseja se tornar um só comigo e a Confissão, onde ele mesmo perdoa os meus pecados, são a chave para que nossa fé cresça e amadureça.

Possuir uma fé prática na Divina Providência significa que eu acredito que Deus é Pai, Deus é bom e bom é tudo aquilo que ele faz e permite. Eu sei que tudo aquilo que acontece em minha vida faz parte de um plano de amor que ele executa com infinita sabedoria, poder e misericórdia. O grande objetivo que Deus tem para a minha vida é que um dia eu esteja com ele no Céu, gozando das glórias do Paraíso. E tudo aquilo que acontece em minha vida, tem por trás esse plano de amor de Deus.

Deus está sempre tentando se comunicar conosco, mas muitas vezes não conseguimos escutar a sua voz. Ele nos fala através dos acontecimentos, não só na nossa própria vida, mas todos os acontecimentos da história, no mundo inteiro. Ele deseja que sejamos seus cooperadores livres para construir a história conosco. Devemos buscar interpretar esses sinais através dos quais Deus nos fala. Guiados pela luz da fé, devemos tentar entende-los, aprendendo a distinguir sua voz.

O "filho da Providencia" pergunta em todas as situações: "Pai, o que quer que eu faça? Qual é a sua vontade?" A atitude providencialista consiste na constante busca filial da vontade de Deus Pai e na disposição permanente em realizar esta vontade, mesmo que custe pesados sacrifícios.
Para descobrir a vontade de Deus devemos aprender a escutar as vozes do tempo (o que Deus nos diz através das circunstancias), as vozes da alma (o que Deus nos diz através de nossa consciência, aquilo que o Espírito Santo sussurra em nosso coração) e as vozes do ser (o que Deus nos diz através de sua Palavra e das leis naturais)

Como fazer isso na prática? Através da meditação diária dos acontecimentos da sua vida. Não podemos achar que tudo (trabalho, família, saúde) é "natural", tudo devemos agradecer a Deus. Meditar, no sentido em que entendemos aqui, não consiste em refletir, analisar ou aprofundar o conhecimento sobre uma realidade religiosa por meio do estudo. Seu objetivo não é saber mais ou conhecer mais, mas amar mais. O objetivo da meditação não se centra na aquisição de novos conhecimentos, mas do aprofundamento de nosso vínculo de amor pessoal com Deus.

No próximo post falarei mais detalhadamente sobre como colocar em prática essa meditação que nos ajuda a possuir uma fé prática na Divina Providência. Porém, apenas para dar uma dica, podemos sempre fazer três perguntas frente a um acontecimento em nossa vida:

a) O que Deus quer me dizer com isso?
b) O que devo dizer a mim mesmo? Trata-se de um tipo de exame de consciência: como compreendi esta verdade em minha vida? Como a aproveitei? Como a apliquei?
c) O que digo a Deus? Isto é o principal: que aprendamos a dialogar com Deus, que cultivemos uma vida mais profunda e interior, uma comunhão a dois com Deus.


Com essas respostas, aos poucos, nosso amor e vinculação a Deus aumentam, nossa confiança de que somos pessoalmente cuidados por um pai amoroso também crescem e experimentamos cada vez mais uma paz interior que nem as maiores tribulações podem nos tirar. 

sexta-feira, 15 de abril de 2016

PROMOVENDO A ESPIRITUALIDADE PRÓPRIA DO ADOLESCENTE


Eu sempre procuro ler a respeito da educação dos filhos e agora, com meu mais velho na adolescência, esta fase do desenvolvimento tem chamado a minha atenção. O post de hoje foi baseado no livro Parenting with Grace, de Gregory Popcak e tem como objetivo orientar os pais de como lidar com a fé durante a adolescência. Já escrevi algumas dicas de como manter seu filho católico e as orientações de hoje vem completar aquelas ideias.

Até agora, seu filho teve fé porque você disse a ele que era verdade. Agora, como adolescente começa a exibir o que é conhecido como "pensamento formal operacional" (ou seja, a habilidade de analisar criticamente, pensar teoricamente e pensar sobre o pensamento em si), seu filho irá testar a Fé por si mesmo.

Para fazer essa transição, da fé que foi ensinada pelos pais para a fé que o adolescente se apropriará como sua, são necessários três componentes básicos: sentir a fé, defender a fé e aplicar a fé.

Sentir a Fé

Adolescentes, como regra, confiam muito fortemente em seu "sentido" para as coisas. Apesar já possuírem esse “pensamento formal operacional" eles ainda não são mestres nisto, e então eles confiam mais em seus instintos e paixões para dizer a eles o que é "verdade". Apesar de isto estar longe do ideal, é a ferramenta que Deus nos deu para trabalhar com nossos filhos nesse estágio de seu desenvolvimento.

Considerando estes fatos, é absolutamente fundamental que sejam dadas a seu adolescente todas as oportunidades possíveis para ter um encontro pessoal com Jesus Cristo e se apaixonarem por ele. Uma forma eficiente de fazer isso é introduzir seu filho em alguns elementos da espiritualidade mais "carismática", ou seja, mais emotiva, que mexa com seus sentimentos e emoções.

A forma como fazer isso pode ser encorajando sua participação em grupos de jovens, Movimentos, retiros para a juventude, entre outros. Forneça várias opções, ele talvez não goste de uma, mas se interesse por outra. Mesmo que isso signifique leva-lo ao outro lado da cidade para participar de um grupo de jovens onde ele se sinta mais confortável. Peça que pelo menos experimente antes de se negarem a participar. O importante é que eles se envolvam nessas atividades, o quanto antes, assim que os primeiros sinais da adolescência começarem a aparecer.

A própria Igreja sabe dessa necessidade dos adolescentes e jovens de “sentirem” a fé, por isso promove as Jornadas Mundiais da Juventude que tem como objetivo fomentar a noção de que Deus e a Igreja não querem apenas serem ministros da mente, corpo e comunidade das pessoas, mas também de seus corações e emoções.

Claro, será importante amarrar isso emocionalmente à vida sacramental da Igreja. Bons sentimentos espirituais são insignificantes a menos que eles estão trabalhando para dar a seu filho um entendimento e apreciação mais profundos do trabalho de Cristo através dos sacramentos.

Ao desenvolver sua própria capacidade de uma fé emocional, apoiando seus filhos na busca de tal fé e deixando que eles se animem emocionalmente com os sacramentos, você estará dando a seus filhos uma razão para permanecerem fiéis à Igreja até eles se desenvolverem e serem capazes de envolver suas mentes com a grandeza da teologia e espiritualidade mais tradicional da Igreja.
           
Defender a Fé

Ao mesmo tempo que o adolescente precisa sentir a fé ele também precisa desenvolver a habilidade de entender a fé, para então, poder defende-la. E o papel dos pais nesse momento é estarem preparados para responder corretamente e com profundidade toda e qualquer pergunta relacionada a fé. Claro que não precisa ser exatamente no momento da pergunta, pois muitas vezes será necessário uma pesquisa, mas não pode dar respostas genéricas e nem superficiais.

Algumas perguntas frequentes são "Como você sabe que Jesus era o Filho de Deus e não apenas um homem bom?" "Jesus realmente ressuscitou dos mortos?" "Existem tantas igrejas e cada uma penas que possui 'a Verdade' - como você sabe em quem acreditar?" E francamente, estas são algumas das questões mais fáceis que eles irão perguntar.

Nas ideologias conflitantes do mundo atual, não é mais suficiente para os pais oferecer sua opinião sobre o ensinamento da Igreja, seja ele a favor ou contra. Nós precisamos ser capazes de explicar o porquê a Igreja acredita naquilo e como a Igreja chegou a tal entendimento.

A teologia católica já foi chamada de rainha das ciências, não por causa do estado pobre da ciência "naquele tempo", mas porque a teologia católica é mais parecida com a física quântica do que qualquer outra disciplina menos religiosa. A física quântica faz declarações absolutamente bizarras sobre a maneira que o universo foi constituído; e poucas, se alguma destas declarações podem ser provadas por observação direta. Ao invés disso, os cientistas constroem a partir do que eles conhecem ser verdade e deixam as verdades conhecidas os conduzirem à próxima verdade: "Se isso é verdade e aquilo é verdade, então isto e aquilo devem ser também". Da mesma forma, a teologia católica começa com o que é conhecido sobre o mundo criado, acrescenta a verdade das Escrituras, examina os registros históricos e constrói a partir daí, passo a passo para apoiar os preceitos que ela ensina. É importante entender isso - de outra forma você não será capaz de comunicá-lo a seus filhos. E se você não puder comunicar isto a seus filhos, você não será capaz de dar a eles o que eles precisam para fazer a transição de uma fé baseada mais emocionalmente a uma fé baseada mais crítica e racionalmente que irá sustentá-los nos "tempos áridos"

Aplicar a Fé

A adolescência é uma época quando jovens se tornam sensíveis a ideais; ou seja, a maneira como as coisas devem ser. Eles estão constantemente comparando como o mundo é com sua visão de como o mundo deveria funcionar. Esta é uma época perfeita para educar seu filho nos ensinamentos sociais da Igreja.

Desafie seu adolescente com questões como: "Como o mundo seria se as pessoas se aproximassem do trabalho e da carreira da maneira que a Igreja diz que eles devem se aproximar?" "Como o mundo seria se as famílias funcionassem da forma em que a Igreja diz que elas devem funcionar? "Como as pessoas e os relacionamentos seriam se eles seguissem os ensinamentos da Igreja sobre ética sexual?" "Como o mundo se beneficiaria se seguissem os ensinamentos da Igreja sobre a maneira pela qual o dinheiro deve ser gasto e distribuído?" "Como o mundo seria um lugar melhor se respeitasse a vida em todos os estágios e sobre qualquer condições, ao invés de simplesmente decidir que o feto ou aquele criminoso não tem direito à vida?"

Se você não sabe qual é o ensinamento da Igreja, ou se você apenas pensa que sabe mas não tem certeza, procure. Comece com o Catecismo da Igreja Católica e passe para as passagens relevantes da Escritura e documentos da Igreja. Uma ótima fonte é o site do Pe. Paulo Ricardo, que explica tudo de maneira muito didática e fácil de entender (www.padrepauloricardo.org). A Canção Nova (www.cancaonova.com) também possui vários recursos para aprender mais sobre a nossa fé católica. Você até pode fazer um projeto de olhar estes tópicos junto com seu adolescente para que possam aprender juntos. Afinal, você não deve saber tudo para ser o professor de seu filho; você apenas deve ter algumas ideias sobre onde procurar as respostas. E claro, será de muita ajuda procurar oportunidades para você e seu filho se envolverem em organizações que promovam os ensinamentos sociais da Igreja.

Ao mostrar a seu filho que o ensinamento da Igreja não é preocupado apenas com matérias espirituais mas também tem relevância social, você estará ajudando seu filho a experimentar a sabedoria prática da Igreja. Você estará demonstrando que a Igreja está muito "em contato" com o mundo ao redor dela.
Enquanto ser capaz de sentir a Fé, defender a Fé e aplicar a Fé é essencial para qualquer católico em qualquer estágio da vida, é crítico na adolescência, onde tanto é incerto e tanto ainda deve ser testado. 

Adolescentes somente irão aderir a uma Igreja que eles experimentam ser pessoalmente significante, solidamente baseada na verdade objetiva e socialmente releva

photo credit: <a href="http://www.flickr.com/photos/76850153@N07/8727148681">10/05/2013 - Vigília dos Jovens Adoradores</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Eu era membro do “Clube Secreto do Evangelho da Prosperidade”

Muitas vezes confundimos a mensagem do Evangelho com a prosperidade. Acreditamos que somos abençoados apenas quando tudo vai bem, quando estamos felizes e realizados. As cruzes e os sofrimentos são vistos como “punição” e não como bênçãos em nossas vidas. 

Quando li o texto abaixo, achei muito importante compartilhar, porque as vezes estamos nos filiando a esse “Clube Secreto do Evangelho da Prosperidade” e nem nos damos conta disso. Pedi autorização para a autora, Judith Klein, para fazer a tradução e publicá-lo aqui. Você pode ver o original neste link: http://catholicmom.com/2016/04/05/card-carrying-member-secret-prosperity-gospel-club/
“Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do seu ventre” (Lc 1,42)
“O que é necessário para sermos abençoados?” Eu perguntei a minha diretora espiritual, Sandy, dois anos atrás, assim que passei pela porta da frente de sua casa, num acesso de raiva.

“A pergunta não é o que é necessário para sermos abençoados”, Sandy respondeu claramente. “É o que você percebe como sendo uma benção.”

Seu comentário veio após eu lhe contar que meu genro Grayson, então com 25 anos, acabava de ser diagnosticado com câncer – na mesma semana que a Sandy havia me orientado para implorar a graça de verdadeiramente conhecer e experimentar o amor carinhoso de Deus para comigo.

“Grayson está com câncer”, eu desabafei assim que eu entrei em sua casa para nossa reunião semanal, onde ela estava me conduzindo através da 19ª Anotações dos exercícios espirituais de Sto. Inacio de Loyola. “Essa é a maneira que Deus demonstra seu amor carinhoso por mim? Me enviando sofrimento?” Eu zombei. “Parece que eu não estou ganhando a tal da bênção”.

“Você continua pensando que receber a bênção significa que tudo vai bem em sua vida”, Sandy contestou. “Um entendimento católico da bênção é que sabemos que Deus está conosco e nós confiamos em seu amor por nós, não importa quais circunstâncias a vida nos apresenta. Você caiu no conto do evangelho da prosperidade”, ela continuou, “e eu quero que você passe a próxima semana renunciando a essa crença falsa do mais íntimo do seu ser.”

Bam! Sandy acertou na mosca. Não preciso nem dizer que foi uma semana dolorosa de renúncia.

Antes da Sandy confrontar o problema diretamente, não era tão claro para mim que eu era membro do “Clube Secreto do Evangelho da Prosperidade.” Mas eu algum lugar, eu definitivamente havia comprado a ideia de como uma “bênção” deve ser: um casamento feliz, filhos bem sucedidos, boa saúde, estabilidade financeira, etc. – em outras palavras, uma vida onde tudo vai bem. Com esse paradigma guardado fundo em minha mente, eu havia gasto muito tempo e energia ao longo dos anos não apenas me comparando com os outros que pareciam ter as “bênçãos”, mas também lutando com Deus sobre o porquê suas “bênçãos” não chegavam até mim, especialmente com as múltiplas tragédias que aconteceram em nossas vidas. O fato que a Sandy mostrou o problema tão claramente me incitou, finalmente, a acabar com a mentira insidiosa de que uma vida abençoada equivale a uma vida próspera, e que minha vida, então, era amaldiçoada.

Vou deixar claro: eu não vou a uma igreja que ensina o evangelho da prosperidade; nem sigo um pastor de uma mega igreja na TV que prega essa mensagem tão popular e favorável em nossa cultura. Eu sou católica – uma entre mais de um bilhão de pessoas ao redor do mundo que vai a uma igreja onde o Cristo crucificado é o ponto central de nossa adoração. Apesar disso, uma cepa virulenta do evangelho da prosperidade, de alguma forma se infiltrou no meu coração e no meu cérebro; um “evangelho” que na essência se parece com isso: Eu acredito que a minha vontade deve ser feita na terra. E quando isso não ocorre – por exemplo, quando as pessoas adoecem, quando morrem jovem, quando crianças tem sérias crises na vida, quando as finanças se quebram – eu concluo que as “bênçãos” de Deus não estão em minha vida.

Essa crença falsa e francamente não cristã causou estragos em minha alma enquanto eu buscava que as coisas fossem feitas do meu jeito, que a minha vontade fosse feita face a um sofrimento tremendo, que incluiu a morte de um filho adotivo, dois irmãos e meu marido, Bernie – tudo em apenas poucos anos. Foi depois que nossas vidas foi implodida com a perda – o câncer de Grayson foi a última gota – que eu finalmente descobri o paradoxo que somente uma vida entregue é uma vida abençoada, e a vida mais abençoada de todas é aquela que se entrega totalmente a Deus. Esses são os termos do Reino de Deus.

Aprendi que o cristianismo não é para os fracotes ou para aqueles que querem a maneira mais suave e fácil. Não. É um remédio forte para aqueles que desejam ser como Cristo, o que significa pegar a sua cruz, morrer para si mesmo e rezar a oração que muitas vezes dói na alma: Pai, se for da sua vontade, afasta de mim esse cálice; porém, que se faça a sua vontade, não a minha.

Os cristãos são chamados a viver em uma terra onde as espadas que perfuram corações são voluntariamente abraçadas, onde a glória é revelada através de feridas abertas e o aroma perfumado da santidade é derramado de almas que foram experimentadas e testadas - e encontraram a verdade. Este é o solo sagrado de nosso Salvador, e sua Mãe. E, como suas vidas nos dizem claramente, é o território que é acessado somente por meio de aceitação resignada da cruz.

“A linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, é poder de Deus.” (1Cor 1,18)

Verdadeiramente, eu finalmente estou sendo salva. Através da cruz e da minha noção distorcida de como a “bênção” se parece. Antes tarde do que nunca.

Para pensar: Você é membro do “Clube Secreto do Evangelho da Prosperidade”? Você também está sendo salvo dele? 

Para rezar: Senhor Jesus, me ajude a saber que a grande bênção é me entregar completamente a ti em confiança, especialmente no meio do sofrimento.

photo credit: <a href="http://www.flickr.com/photos/132604339@N03/22584635184">Bags of Money</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

sábado, 26 de março de 2016

QUATRO MANEIRAS NAS QUAIS OS PAIS SÃO ESSENCIAIS PARA MANTER SEUS FILHOS CATÓLICOS

O post de hoje foi traduzido do site CatholiMom.com e foi feito por Marc Cardonella. Você pode acessar o texto original aqui:http://catholicmom.com/2016/03/18/4-ways-parents-essential-keeping-kids-catholic/

Pais, vocês querem saber o segredo para manter seus filhos católicos? Se envolvam em sua formação religiosa. Essa não é uma ideia nova. A Igreja tem dito isso há décadas.

Os documentos do Concílio Vaticano II diz que os pais são os “primeiros pregadores da fé” para seus filhos e sua influência “é incapaz de ser completamente delegada para outros ou usurpada por outros.” Porém, na maioria das vezes, os pais não sabem como dar a formação sobre a fé e as paróquias não os ajudam.

Em meu novo livro Keep Your Kids Catholic: Sharing Your Faith and Making it Stick, eu argumento que os pais são indispensáveis no processo de passer a fé para seus filhos. E existem pesquisas científicas que provam isso!

De 2002 a 2005, os sociólogos Christian Smith e Melina Lundquist Denton, concluiram um estudo nacional (nos EUA) sobre o envolvimento dos adolescentes com a religião. Suas conclusões estão reportadas no Soul Searching: The Religious and Spiritual Lives of American Teenagers.

Aqui estão quatro maneiras, extraídas da pesquisa de Smith e Denton, pelas quais os pais se provam essenciais e insubstituíveis para manter seus filhos católicos.

1. Manter os filhos católicos através da influência 

Perto da minha casa tinha um outdoor que eu via todos os dias. Era a imagem de um espelho retrovisor e nele você podia ver o rosto de uma menininha triste olhando para você do banco de trás.

A legenda dizia algo do tipo: “Mesmo que você não esteja falando com ela, você a está ensinando. Fique calmo quando estiver atrás do volante.”

Ai! Esse normalmente me pegava porque eu não sou o motorista mais calmo (ou de boca mais limpa). Também me fez pensar sobre as outras áreas da minha vida onde eu não estava sendo um modelo muito bom.

Os pais são importantes... e muito! De fato, de acordo com o Smith e a Denton, não é uma questão se você está influenciando seus filhos mas que tipo de influência você está exercendo. Se você não tiver cuidado, ela pode ser negativa.

Então, a lição número 1 para manter seus filhos católicos é ser um bom modelo. 

“Pois no fim”, Smith e Denton explicam, os pais “normalmente obterão dos adolescentes o que eles próprios são como adultos. “

2. Manter os filhos católicos através do relacionamento 

Transmitir a fé efetivamente requer um relacionamento forte e um nível profundo de confiança. De outra forma, seus esforços cairão em ouvidos surdos. 

O vínculo e a intimidade que você tem com seus filhos, posiciona você perfeitamente para ensiná-los sobre a vida de uma perspectiva religiosa. Pense sobre isso: você pode afetá-los de uma maneira que ninguém mais pode.

Você fala com seus filhos sobre esportes e cinema, você os aconselha sobre a escola e carreira, então por que não ensiná-los sobre religião? Meu palpite é que os pais diriam que não é confortável.

Eu entendo. A vozinha em sua cabeça diz que você está muito “além do alcance” para conseguir atingir seus filhos depois que eles passam de certa idade, e é melhor entrega-los para os “experts” na paróquia. Aquela vozinha está errada. 

“Os pais”, escrevem Smith e Denton, “precisam desenvolver mais confiança em ensinar a juventude sobre suas tradições de fé e esperar responsas significativas deles”. Eles descobriram que no fundo as crianças querem ser ensinadas pelos pais... mesmo se não agem dessa forma.

Se você puder ampliar sua zona de conforto, você tem o potencial para influenciar seus filhos de maneiras profundas.

3. Manter seus filhos católicos através da articulação 

Aqui está outra coisa interessante que surpreendeu Smith e Denton, adolescentes de toda a parte tiveram muita dificuldade para articular sua fé. Eles facilmente discutiam opiniões sobre a bebida, drogas, ou evitar DSTs, mas não conseguiam explicar sua fé em Deus.

Eu acho que é porque seus pais falaram muito sobre as consequências de dirigir embriagado ou da perda da virgindade, mas permaneceram em silencio sobre as eternas consequências do pecado mortal ou perda da fé. 

Se você quiser que seus filhos tenham uma fé real, você tem que discuti-la com eles. E isso não significa apenas dizer a eles “não faça isso porque é errado”. Seu relacionamento de pais coloca você em uma posição única para fazer isso.

Articular a fé significa internaliza-la, possui-la e faze-la parte de você. Isso requer diálogo.

Acima de tudo a fé deve ser algo pessoal, não abstrato. Eles precisam refletir em como um tópico afeta a eles, suas vidas, não apenas como afeta as pessoas em geral. 

4. Manter seus filhos católicos através de práticas religiosas 

Existe uma relação direta entre o aumento da fé e atividades relacionadas a fé como oração diária, estudo bíblico e serviços de caridade. Essas práticas religiosas agem como catalizadores da fé, acelerando e propulsando o desenvolvimento da fé em novos níveis.

Smith e Denton observaram esse fenômeno em adolescentes religiosamente ativos dizendo: “A fé para esses adolescentes é também ativada, praticada e formada através de práticas religiosas e espirituais específicas.”

Como você consegue que os adolescentes façam essas práticas religiosas? Em algum momento, você deve obriga-los. Isso parece duro, mas a realidade é que você é responsável por formar seus filhos na virtude.

Se você não ensinar a eles o valor da disciplina, serviço e gerenciamento de tempo ao obriga-los a fazer coisas difíceis, eles não aprenderão. Similarmente, você deve agendar tempo para atividades religiosas e construir esse hábito neles.

Quando eles são jovens, você é o dono da agenda. Se você esperar até que eles sejam velhos o suficiente para fazerem sozinhos, eles não farão. 

Esse aspecto essencial da formação religiosa, mais do que qualquer outro, é dependente dos pais. A escola ou a paróquia não pode fazer isso por você. Eles podem agenda eventos, mas você deve levar seus filhos lá.

Está na hora de virar a maré 

A maior parte dos pais católicos não estão interessados em fazer parte da formação da fé de seus filhos. Eu entendo. Estamos todos muito ocupados e nada disso é fácil. Entretanto, nossos filhos abandonam a Igreja assim que saem de casa, e nesse momento ficamos quase completamente sem poder. 

O atual sistema de educação religiosa está falhando amplamente, mas estamos pedindo que ele faça muito. Os aspectos mais efetivos da formação da fé precise do envolvimento dos pais. 

Podemos mudar isso, mas será preciso pensar numa parceria entre os pais e a paróquia. Quando nós pais tomamos o nosso lugar devido na formação da fé de nossos filhos, ao fazer o que somente nós podemos fazer, teremos sucesso em manter nossos filhos católicos.

Saber quanta influência você tem na fé de seus filhos te incomoda? Você se assuta com isso? Me diga por quê?


quinta-feira, 30 de julho de 2015

COMO TRANSMITIR A FÉ AOS FILHOS - E TER SUCESSO!


Normalmente, para transmitir a fé aos filhos, os pais acentuavam particularmente o elemento racional e volitivo, ou seja, as ideias e a vontade eram predominantes. Também as práticas devocionais eram destacadas.

Ultimamente, ganhou destaque também uma fé "dessacralizada", ou seja, voltada para o social, deixando para segundo plano o vínculo pessoal com o Deus vivo.

Como podemos ver pelo crescente "ateísmo prático" (acredita-se em Deus, mas vive-se como pagãos), principalmente entre a juventude, esta forma de transmitir a fé não funciona mais.

Como podemos, então, transmitir a fé a nossos filhos e sermos bem sucedidos nessa empreitada?

A chave está na Fé Prática na Divina Providência. Se conseguirmos descobrir o Deus de nossa vida, nos acontecimentos diários, poderemos transmitir aos nossos filhos uma fé que não apenas se enraizará em suas cabeças e vontade, mas penetrará em seus corações. Então será natural para eles contar com Deus, com sua presença e companhia.

Nossa meta deve ser a união entre a fé e a vida. Queremos cultivar em nossos filhos uma fé que os leve a um encontro pessoal com Cristo e que permaneça indelével em sua alma, em meio a um mundo cada vez mais afastado e indiferente a Deus.

Como esposos, devemos ter a consciência que Deus nos uniu e que deseja ter conosco uma história de amor, para o nosso bem e o bem de nossos filhos. Ele tem um projeto de vida conosco e somos chamados a descobri-lo e realiza-lo progressivamente na fé.

Assim, o primeiro passo é mostrar aos filhos que somos uma família com história, com uma história repleta de Deus, que estava presente em todos os acontecimentos, tanto os alegres como os tristes.

Podemos relacionar os acontecimentos de nossa história familiar com a história da nossa salvação, com a vida de Jesus, em seus mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos. Desta forma, a compreensão da grande história da salvação iluminará vitalmente o sentido de sua história familiar e pessoal.

Uma forma de fazer isso diariamente é, por exemplo, na oração da noite pedir que cada um fale como Deus Pai atuou em sua vida naquele dia. Pode ter sido um pedido atendido, ou o reencontro com alguém querido, ou simplesmente que a mamãe fez sua comida favorita. Os pais também devem mostrar Deus agindo em suas próprias vidas. Assim, pouco a pouco os filhos criarão este hábito de em tudo ver a Providência Divina.

Outra forma é, numa reunião familiar, mostrar que nos acontecimentos mais importantes da história da família, Deus estava presente e atuou, sempre com amor e para o bem da família.

Essa é a fé viva que devemos transmitir-lhes. Então, a fé deixa de ser algo teórico: converte-se em uma forma de vida difícil de perder.

Para refletir:
1. Podemos destacar alguns marcos mais importantes de nossa história familiar e descobrir a presença de Deus neles?
2.Temos consciência que revivemos em nossa própria história os acontecimentos da vida de Cristo? Quais são nossos mistérios gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos?
3. A nossa fé é uma fé pessoal, ou seja, um encontro pessoal com o Senhor, com Deus Pai, com Maria no Espírito Santo?

* post baseado no livro "Caminos de Alegría", do Pe. Rafael Fernández
* crédito da foto: photopin.com  


quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

NOSSOS MILAGRES DE CADA DIA

Vamos refletir sobre as importantes questões levantadas pelo Pe. Nicolás Schweizer, publicado em suas Reflexões, No. 76, de 01.02.2010.

Existe uma ambiguidade que caracteriza aos sinais e milagres de Jesus Cristo.

Por um lado, os evangelhos estão cheios de milagres. O caminho de Jesus está marcado por acontecimentos prodigiosos: os cegos recobram a vista, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os mortos ressuscitam.

Por outro lado, Cristo é reticente com os milagres. Multiplica os sinais, mas não pretende apresentar-se como taumaturgo. Vem para trazer a salvação, não para fazer milagres. Evita todo sensacionalismo, se nega decididamente ao espetacular.

Se, olharmos atentamente o Evangelho, podemos dizer que existem duas coisas que são capazes de arrancar-lhe milagres: a fé dos que pedem e a miséria dos homens.

1. A fé de quem pede. Um rosto que implora com fé é um espetáculo diante do qual Cristo não pode resistir. É seu ponto débil. Deixa escapar expressões de admiração: “Mulher, que grande é tua fé!” E não pode evitar realizar o milagre: “Faça-se segundo teus desejos...”

2. A miséria humana. Quando Jesus se encontra pelo caminho com a miséria, sente-se quase obrigado a presentear o milagre. Em muitos casos, nem sequer é necessário que formulem um pedido explícito. Basta ver a presença da dor. P.ex. as lágrimas de uma mãe que acompanha ao sepulcro seu único filho. E Cristo responde imediatamente. Não pode ver como os homens sofrem.

Tratando-se de nós, há cristãos que querem ver milagres a todo custo. Como se sua fé estivesse pendente, mais que da palavra de Deus, dos milagres. Sua vida se desenvolve sob o signo do extraordinário, do excepcional, às vezes até do extravagante.

Não compreenderam que a fé é o que provoca o milagre. E não o contrário. Alteraram o procedimento de Jesus. No evangelho aparece com claridade que o Senhor ressalta a liberdade, deixa a porta aberta, sem obrigar ninguém a entrar, sem golpes espetaculares. Ele é vencido só pela fé dos homens.

Mas existe também uma postura contrária, também fora de sintonia. São cristãos que tem medo, que quase se envergonham do milagre. Pretendem impedir que Deus seja Deus. Gostariam de aconselhar-lhe que não é oportuno, que é melhor, para evitar complicações, deixar em paz o campo das leis físicas. Como se Deus estivesse obrigado a pedir-lhes conselho antes de manifestar sua própria onipotência. Esquecem que os milagres são a expressão da liberdade de Deus.

Nossos milagres. Por cima destas atitudes frente aos milagres e sinais de Deus, está a obrigação precisa para todos nós: Cristo nos deixou a recomendação de fazer milagres. É o “sinal” de nossa fé. Mais ainda, havemos de “converter-nos” em milagres: Milagres de coerência, de fidelidade, de misericórdia, de generosidade, de compreensão.

Uma vez mais esta “geração perversa pede um sinal”. E tem direito a esperá-lo de nós, os que nos chamamos cristãos. Que sinal podemos oferecer-lhes? Que milagre podemos apresentar-lhes?

Uma resposta ao mundo que nos rodeia. Nosso caminho passa por um mundo que tem fome, fome de pão e fome de amor. Um mundo enfermo de desilusões. Um mundo cego pela violência. Um mundo assolado pelo egoísmo. Não podemos passar por esse caminho limitando-nos a contar-lhes aos demais, os milagres de Jesus. Não podemos contar com seus milagres. Havemos de contar com os nossos.

O que buscam os homens desse mundo são nossos milagres de cada dia: nossos milagres de fé, de amor, de transformação, de vida cristã.

Perguntas para a reflexão:

1.      Que milagre de transformação podem ver em mim?
2.      Que ofereço aos que buscam algo?

crédito da foto: photopin.com

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

EDUCAÇÃO PARA A FÉ


Os pais são os primeiros responsáveis por plantar a semente da fé no coração de seus filhos. O primeiro apostolado dos pais deve ser a evangelização de seus próprios filhos, tarefa esta recebida pela graça do sacramento do matrimônio.[1] Isto se dá através do ambiente criado do lar, do exemplo dos próprios pais, do qual os filhos desde pequenos aprendem a importância da fé para a sua vida e despertam o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como consequência deste amor a Deus.
“A educação para a fé por parte dos pais deve começar desde a mais tenra infância. Ocorre já quando os membros da família se ajudam a crescer na fé pelo testemunho de uma vida cristã de acordo com o Evangelho. A catequese familiar procede, acompanha e enriquece as outras formas de ensinamento da fé. Os pais tem a missão de ensinar os filhos a orar e a descobrir sua vocação de filhos de Deus. A paróquia é a comunidade eucarística e o centro da vida litúrgica das famílias cristãs; ela é um lugar privilegiado da catequese dos filhos e dos pais.”[2]
Infelizmente o mundo atual está muito dessacralizado, sem qualquer referência a Deus, o ambiente frequentado pelos filhos é muitas vezes hostil à própria fé, tudo gira em torno do ter e do prazer, o que torna o papel da família fundamental no sentido de despertar e manter a fé no coração dos filhos.
Até mesmo a escola, que em outros tempos foi de grande auxílio para as famílias para a educação dos valores cristãos, atualmente se limita a transmitir conhecimento científico e muitas vezes sob a justificativa de ser “laica” incute na cabeça das crianças e dos jovens ideias sobre a vida que não levam em conta a realidade de que são filhos de Deus e como tal tem direitos e deveres que devem ser cumpridos e respeitados pela sociedade.
A espiritualidade familiar é distinta da espiritualidade de um convento ou comunidade religiosa em sua forma, mas a essência, o espírito deve ser o mesmo.  Tudo deveria girar em torno da Santíssima Trindade, contudo sem negligenciar os compromissos diários pelo sustento e cuidado com a família.
Para que isto seja possível, são necessários alguns cuidados no dia-a-dia, como a oração em família, a frequência aos sacramentos, em especial à eucaristia dominical, oração nas refeições, a vivência dos tempos litúrgicos (quaresma e advento), celebração dos dias santos, possuir no lar um “cantinho” de oração, nos momentos de dificuldades e de alegria louvar sempre o Senhor, enfim, efetivamente viver a fé que se professa em casa.
Um costume muito útil para cultivar este espírito de religiosidade no lar é a benção dos filhos, que pode ser dada diariamente antes de dormir ou em um outro horário mais adequado, dependendo da idade e dos compromissos dos filhos. 
Sugere-se uma benção bíblica, que está no Livro dos Números 6, 24-26: “O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a Sua face e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o Seu rosto e te dê a paz!”
Assim, os lares deverão se tornar realmente pequenas igrejas domésticas, “oasis da fé”, onde os filhos poderão nutrir-se para conseguirem enfrentar os grandes desafios da sociedade moderna.




[1] CIC 2225                          
[2] CIC 2226