terça-feira, 11 de maio de 2021

A NOITE ESCURA DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA


O livro “Conchita´s Spiritual Journey” do Pe. Ignacio Navarro narra os estágios da vida espiritual da beata Concepción Cabrera de Armida, conhecida como “Conchita”, uma esposa e mãe de 09 filhos, mística e fundadora de várias famílias religiosas, que tinha revelações privadas de Jesus Cristo através de locuções interiores, ou seja, não eram estritamente visões de Jesus, mas ela “ouvia” Jesus falar interiormente a seu coração.  Mesmo tendo sido beatificada em 04 de maio de 2019, nenhum católico é obrigado a acreditar nessas revelações, porém a Igreja atesta que não há nenhum erro teológico nas mesmas.

O livro possui vários relatos dessas “conversas” que ela tinha com Jesus e podemos perceber como Jesus a vai preparando para todas as graças que Ele lhe concede para cumprir sua missão aqui na terra. De todas essas experiências extraordinárias narradas no livro, a que mais me chamou atenção foi quando Jesus lhe revela sobre o martírio do coração de Maria Santíssima.

O sofrimento de Maria foi permitido por Deus não para purificá-la, ao contrário do sofrimento de todos os outros seres humanos, mas para pedir perdão e expiar os pecados dos outros, foi para a purificação de seus filhos. O coração de Maria ganhou essas graças após a Ascenção de Jesus, quando sofreu o martírio de se sentir sozinha e desamparada.

Essa profunda solidão não era em relação aos seres humanos ou à falta da presença física de Jesus, pois como ela é uma criatura perfeita e tem uma enorme fé viva, ela era consolada pela presença real de Jesus na Eucaristia.

O que ela experimentou foi o que S. João da Cruz chama de “noite escura”, um profundo abandono espiritual, o divino abandono da Trindade, que se escondeu dela. Esse abismo infinito de amor foi sua grande provação.

Maria sofreu mais que todas as almas porque ela sofreu um reflexo do abandono de Jesus na cruz e isso não há nenhuma comparação na linguagem humana. O seu martírio foi de amor e o desamparo que a envolveu por tantos anos foi um ato de amor de Deus Pai que queria derramar os tesouros e o mar de suas graças nas almas através desse sofrimento de nossa Mãe do Céu.

Durante a vida de Jesus, apesar de Maria saber e refletir a dor interna dele nela, o amor filial de Jesus velava essa dor para que ela sofresse menos. Mas depois da Ascenção, esses martírios a feriram com toda sua intensidade e amargura, derramando de sua alma pura para o bem de seus filhos até o fim do mundo.

Quanto a humanidade deve a Maria Santíssima! E como essas amargas dores não são conhecidas, honradas ou apreciadas! Nesse ano em que celebraremos a solenidade da Ascenção de Jesus ao Céu no dia de Nossa Senhora de Fátima, vamos recordar esse martírio do Imaculado Coração de Maria e, com nossas orações e mortificações, consolar um pouco nossa querida Mãe e Rainha que tanto sofreu por nós.



quinta-feira, 8 de abril de 2021

JESUS CAMINHAVA COM ELES, MAS NÃO O RECONHECERAM


Shaojie on Unsplash 

"Nesse mesmo dia, dois discípulos caminhavam para uma aldeia chamada Emaús, distante de Jerusalém sessenta estádios. Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-se deles e caminhava com eles. Mas os olhos estavam-lhes como que vendados e não o reconheceram." (Lc 24, 13-16)

Esse é o trecho que dá início à passagem bíblica dos discípulos de Emaús, narrando uma das aparições de Jesus depois da ressurreição. O que eu gostaria de destacar desse trecho foi comentado por um sacerdote numa homilia e diz respeito justamente ao fato de os discípulos estarem discutindo e não reconhecerem Jesus.

Isso acontece frequentemente em nossas vidas. Andamos preocupados, são muitas tarefas para realizar, decisões para tomar, conversamos com um e com outro e não percebemos que Jesus está ali, ao nosso lado, querendo nos ajudar e só esperando uma oportunidade para falar conosco, para mostrar sua presença.

Mas como podemos reconhecer a presença de Jesus em nossa vida cotidiana? O primeiro passo é a busca frequente dos sacramentos da Confissão e da Eucaristia. A Igreja nos ensina que Jesus está presente realmente, com seu corpo, sangue, alma e divindade na Sagrada Eucaristia e, quando comungamos, ele se torna uma só carne conosco. Se permitirmos e se pedirmos, ele aos poucos vai transformando nossa vida a partir de dentro do nosso coração. Para quem ainda tem alguma dúvida da presença real de Jesus na Eucaristia, eu sugiro que pesquisem sobre os vários milagres eucarísticos acontecidos ao longo dos séculos, em especial o milagre eucarístico de Lanciano, na Itália, onde, por misericórdia e para aumentar a nossa fé, Jesus mostrou que ali, na hóstia consagrada, estão presentes carne e sangue humanos. Um site interessante sobre esse tema foi elaborado pelo Beato Carlo Acutis e aqui está o link.

A Confissão é outro sacramento onde nos encontramos diretamente com Jesus, que está ali, “disfarçado” de sacerdote e deseja perdoar nossos pecados, lavar a nossa culpa e nos deixar mais leves para seguir nosso caminho rumo ao Céu. Assim, a Confissão e a Eucaristia são os primeiros locais onde podemos nos encontrar frequentemente com Jesus e pedir sua graça para nos orientar em nossas decisões do dia a dia.

Além dos sacramentos, devemos procurar Jesus em nossa vida diária, através do exercício da meditação, que nos ajuda a perceber onde e como ele se comunica conosco em nosso dia a dia. Ao percebemos o quanto Deus se esforça para se fazer presente na nossa vida, o quanto ele cuida, com muito amor de cada um de nós, nosso amor por ele cresce e dá frutos. Assim, o objetivo da meditação não é conhecer mais, mas AMAR mais.

Deus está sempre tentando se comunicar conosco, mas muitas vezes não conseguimos escutar a sua voz. Ele nos fala através dos acontecimentos, não só na nossa própria vida, mas todos os acontecimentos da história, no mundo inteiro. Ele deseja que sejamos seus cooperadores livres para construir a história conosco. Devemos buscar interpretar esses sinais através dos quais Deus nos fala. Guiados pela luz da fé, devemos tentar entendê-los, aprendendo a distinguir sua voz.

Assim, precisamos nos conscientizar da importância de fazer nossa meditação diária, esse momento de encontro com o Deus da minha vida. Para começar, pode ser apenas 15 minutos, onde nos conectamos com Deus através da oração, pedindo ao Espírito Santo e ao nosso anjo da guarda que nos ajude a ver e entender o que Deus quer falar conosco naquele dia. Escolhemos um acontecimento daquele dia ou do dia anterior e nos perguntamos: o que Deus quis falar para mim com esse acontecimento? O que eu digo a mim mesmo? O que respondo a Deus?

Essa atitude simples pode transformar a sua vida. Você pode anotar em um caderno as respostas diárias a essas perguntas simples e, depois de um tempo, ler novamente para agradecer todas as maravilhas que Deus opera em sua vida e que estavam passando desapercebidas. E, como um “bônus”, verá que tomar decisões no mundo material ficará muito mais fácil depois de ter um relacionamento mais íntimo com o mundo sobrenatural.

Viver dessa forma, consciente da presença amorosa e atuante de Jesus em nossas vidas, nos transformará em pessoas mais pacientes, mais amorosas, mais atentas às necessidades dos outros, pois Jesus também está presente no meu irmão. “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40)

Peçamos a Jesus que caminhe sempre conosco e que possamos sentir sua ação em nossa história.

sábado, 6 de março de 2021

QUER SE FORTALECER? PEÇA A DEUS SOFRIMENTO!

 


Photo by Jakob Owens on Unsplash

Calma. Respira. Não é masoquismo. Deus não deseja que ninguém sofra. Ele é amor infinito! Porém...o sofrimento é necessário para o nosso crescimento e amadurecimento. Nenhum pai, nenhuma mãe gostam de ver se filho sofrer, mas sabem, por exemplo, que é necessário ele tomar uma injeção de antibiótico, muito dolorida, para conseguir curar uma infecção na garganta. Esse sofrimento do filho é necessário para seu próprio bem, para salvar a sua vida.

Essa é a maneira que Deus age em nossa vida. Ele sempre tem o nosso bem maior em sua mente: a salvação da nossa alma para que um dia possamos ser eternamente felizes no Céu junto a ele. Para que isso seja possível, e sempre respeitando a nossa liberdade, permite certas dores e sofrimentos, sempre nos chamando para olhar mais para o alto, para nos elevarmos até ele e assim, conseguirmos superar tudo o que nos aflige.

Essa verdade já foi bem mais clara para os seres humanos. Até algumas gerações passadas, não era comum ver as pessoas reclamando dos sofrimentos inevitáveis da vida. Diante das maiores catástrofes, normalmente se ouvia: “É vontade de Deus...”; “Deus permitiu...” E as pessoas enxugavam as lágrimas e seguiam em frente. Era muito mais comum do que hoje, ver nas pessoas a resignação de Jó: "O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!" (Jó 1,21)

Todavia, talvez até pela própria evolução tecnológica e as facilidades que temos hoje em dia, as pessoas ficaram mais fracas emocionalmente e mais suscetíveis, não suportam a mínima contrariedade. Quanto menos esforço a pessoa precisa fazer para conseguir alguma coisa, mais fraca ela se torna e menos apta a enfrentar as adversidades. Outro fator que contribui é a mentalidade de viver buscando o prazer e fugindo da dor. Essa mentalidade é própria dos animais, seres irracionais, que não conseguem viver de outra forma. São programados por seus instintos e só tem a capacidade de obedecer cegamente a eles.

Os seres humanos, por serem dotados de razão, tem a capacidade de escolher se devem ou não seguir os impulsos de seu corpo e por isso são muito superiores aos animais. Um cachorro, quando vê uma cadela no cio, não pode ter outra atitude além de procurar copulá-la. Agora um homem ou uma mulher, por mais desejo que sintam, tem a capacidade de dizer não a uma relação sexual. O grande problema do nosso tempo é que os homens estão vivendo cada vez mais como animais e renunciando à sua capacidade de raciocinar e escolher o bem e não só o bom.

E qual é a melhor forma para superar essa mentalidade hedonista e efetivamente se tornar uma pessoa forte? Sofrer! Não de uma forma masoquista que tem prazer na dor, mas de uma forma eminentemente humana, que sabe que precisa dominar os impulsos desregrados de sua natureza e isso só é possível através do sofrimento, da renúncia equilibrada desses próprios prazeres. Essa é uma sabedoria que vem desde a Grécia antiga, mas que ultimamente está muito fora de moda.

Você pode começar renunciando a pequenos prazeres, como acordar assim que toca o despertador e não esperar nem mais um minuto na cama, ou tomar água ao invés de suco na hora do almoço ou ainda deixar a temperatura do banho um pouco mais fria do que você gostaria... São inúmeras possibilidades que temos todos os dias de fortalecer nossa vontade e aumentar o domínio sobre o nosso próprio corpo.

Um segundo passo mais profundo e que exige uma total confiança na bondade e misericórdia de Deus e no seu amor infinito por cada um de nós é efetivamente pedir a Deus que lhe envie sofrimento. Mas não é qualquer tipo de sofrimento. É o sofrimento que Ele previu, desde toda a eternidade, para você, para que você possa se libertar do seu egoísmo e possa amar a cada dia mais e melhor.

Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, reza: “Pai, eu te peço toda cruz e sofrimento que preparastes para mim... porque teu amor sempre vela por mim” (RC 393 e 400). Só é possível essa atitude que ele chama de Inscriptio (inscrever o meu coração no coração de Deus) quando temos a certeza de que Deus é Pai, que ele é meu Pai, que ele me ama e jamais enviaria qualquer tipo de sofrimento que não fosse para o meu próprio bem.

E o mais incrível é que quando conseguimos chegar nesse nível de confiança filial, nossa vida fica bem mais leve, vivemos em paz, mesmo em meio às maiores tormentas. Ficamos mais fortes e preparados para enfrentarmos os desafios da vida. Claro que com as nossas próprias forças, essa confiança é impossível. Precisamos insistentemente pedir essa graça e também fazer a nossa parte, com renúncias constantes aos pequenos prazeres lícitos de nossa vida.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A DIVISÃO TRAZ DESTRUIÇÃO!

 

Nos últimos tempos, para qualquer lado que olharmos, podemos observar uma divisão: direita x esquerda, liberal x conservador, socialismo x capitalismo, veganos x carnívoros, a favor da vacina x contrários a vacina e por aí vai... a lista é imensa. Experimentamos essa animosidade oriunda da polaridade em nossas famílias, no trabalho, na escola e até dentro da própria Igreja. “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir." (Mt 12,25) A divisão traz a destruição, já nos avisa Jesus. O próprio significado da palavra diabo é divisor, aquele que traz a divisão e a discórdia.

Um dos grandes problemas dessa polaridade é que as pessoas simplesmente não sabem mais conversar, expor seu ponto de vista, sem se sentirem pessoalmente atingidas caso o outro discorde do que ela está falando, contrarie suas ideias. Essa é uma atitude que demonstra uma grande imaturidade, pois o fato de eu discordar da sua opinião não significa que estou agredindo você, ou que não goste de você. E quando você leva a discussão para o lado pessoal, afloram as emoções e toda racionalidade vai embora. Começam, então, realmente as agressões verbais (e as vezes até físicas!) e quebra-se totalmente qualquer vínculo existente, cada um vai para um lado, machucado, ferido. Ninguém ganha. Só há perdedores.

É importante dizer também que a atitude de evitar o conflito com o discurso de que “cada um tem a sua opinião e que todas são válidas” também não é correta. A verdade existe e ela é uma só. Não há possibilidade de todos os lados estarem corretos. Para quem busca com sinceridade de coração, a verdade é possível de se achar. A verdade quer se revelar e quer ser acessível a todos.

A atitude que devemos ter frente ao outro que discorda do nosso ponto de vista é, em primeiro lugar, o respeito. Se o outro pensa diferente, certamente tem seus motivos, então, é preciso ter paciência e disponibilidade para ouvi-lo, sem preconceito, sem “levantar a guarda”, tentando se colocar no lugar dele e enxergar as coisas da forma que ele enxerga. Lembrar que o que ele está falando é apenas a opinião dele, o modo dele ver a situação, mas não representa o que ele verdadeiramente é: uma alma querida e amada por Deus que foi colocada em seu caminho para que, quem sabe, você possa ajudá-la em sua peregrinação rumo ao Céu.

O segundo passo é usar a razão, a inteligência. Expor os seus argumentos de forma clara e sem ofensas. Peça ao Espírito Santo que o ajude a falar de uma forma que o outro entenda, sem a intenção de mostrar superioridade, mas com o único objetivo de alcançar a verdade. Caso você não tenha certeza dos motivos que levam você a possuir determinado ponto de vista, não tenha vergonha de falar que vai procurar estudar mais, tentar entender os fundamentos, para então voltar a conversar sobre o assunto. Mais uma opção é convidar o outro para buscarem a verdade juntos.

Outro aspecto fundamental é ter a abertura e a humildade de saber que você é quem pode estar errado, por isso é muito importante ouvir o outro com o coração aberto, tentando analisar se por acaso ele pode ter razão no que fala. Não tem problema nenhum mudar de opinião se você enxergou que a verdade está do outro lado! Essa atitude demonstra maturidade e a boa vontade de buscar o bem. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” (Jo 8,32)

Busquemos, assim, a unidade e não a divisão. Em qualquer conversa que haja indícios de discórdia, procure primeiro o ponto comum, onde todos estão de acordo. Esse ponto pode ser o bem do país, a saúde, a prosperidade, a felicidade. Todo tema tem um aspecto que os dois lados concordam. E conversem a partir daí, reconhecendo que ambos buscam a mesma coisa, só que de pontos de vista diferentes. Se por acaso os ânimos se exaltarem, encerre o assunto e deixe a conversa para outro dia. Sem ganhadores ou perdedores. A divisão traz destruição!





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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NÃO SE DEIXE ESCRAVIZAR!



A vida humana é o maior dom recebido de Deus. É uma graça imensa poder existir e dizer: eu sou! Eu existo! Depois da vida, o dom maior que recebemos é a liberdade. A liberdade é o que nos capacita a realizarmos nossa maior vocação: amar e ser amado. Sem a liberdade, o amor é impossível. Só quem é livre pode amar, pode se entregar para o outro, pode provar seu amor através do sacrifício e da doação.

Nós nascemos livres exteriormente, ou seja, não somos escravos, propriedade de ninguém. Porém, a liberdade interior, aquela que nos capacita para amar, precisa ser conquistada. Nascemos atados aos nossos desejos e aos nossos caprichos, egoístas, escravos do nosso próprio eu. A Igreja Católica ensina que isso acontece pois nascemos com o “pecado original”. Neste pecado, o homem preferiu-se a si próprio a Deus, e por isso desprezou Deus: optou por si próprio contra Deus, contra as exigências da sua condição de criatura e, daí, contra o seu próprio bem. Constituído num estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente «divinizado» por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis «ser como Deus», mas «sem Deus, em vez de Deus, e não segundo Deus» (CIC § 398) 

O Papa Bento XVI explica que o pecado original é um pecado relacional, já que ele rejeitou e danificou a relação entre o Criador e sua criatura, pois quis tornar o ser humano um deus. Cada um de nós entra numa situação na qual a relacionalidade está ferida. Consequentemente cada pessoa é, desde o começo, danificada nos relacionamentos e não se envolve neles como deveria. O pecado persegue o ser humano, e ele cede ao pecado.[1]

Para nos livrarmos dessas consequências do pecado, precisamos lutar para restabelecer a ordem desejada por Deus para a natureza humana: a condição de ser filho de Deus deve dominar a nossa inteligência e vontade que deve dominar os nossos instintos. Quando nascemos, nossos instintos (fome, frio, medo, etc) dominam inteiramente nosso ser. Conforme vamos crescendo e amadurecendo, precisamos aprender a dominar esses instintos e permitir que a luz da graça ilumine nossa inteligência para distinguir o que é um bem para nós e fortalecer nossa vontade para agir de acordo com essa inspiração. 

Somente com esse exercício de domínio dos instintos é que realmente seremos livres para conseguirmos amar e sermos felizes. Não se trata de viver “reprimindo” os desejos ou de viver como se esses desejos não existissem, mas de direcionar e ordenar. Pensemos numa pessoa que não consegue ver um pedaço de bolo sem “precisar” comê-lo. Não importa se ela sofre de diabetes ou outro mal derivado do consumo de doces: quando ela vê o bolo, vai e come. Essa pessoa é livre ou se tornou escrava do seu desejo por doce? Outra pessoa “explode” e faz grosserias pela mínima contrariedade que aparece em seu caminho. Quem convive com ela está sempre “pisando em ovos”, angustiada esperando a próxima explosão. Essa pessoa é livre ou é dominada pelas circunstâncias? 

O amor exige que saiamos de nós mesmos para nos doarmos ao outro. Desta forma, quem é escravo dos próprios desejos tem muita dificuldade de amar e quem não ama, não consegue ser feliz. Essa luta deve começar primeiro com a decisão de vencer esses instintos. Depois, devemos escolher apenas um ponto a ser combatido com um propósito muito concreto, cujo cumprimento pode ser avaliado no fim do dia. Quando conseguimos conquistar o domínio desse ponto, então passamos para o próximo. E assim seguimos até o fim da vida! Por exemplo: quem tem dificuldade em controlar a comida, pode fazer o propósito de, ao menos em uma das refeições no dia, renunciar de comer algo que gosta ou trocar o suco por água durante a refeição ou ainda comer apenas o que serviu da primeira vez no prato. Quando isso já não for mais tão difícil, pode aumentar para duas refeições no dia, depois para uma renúncia mais forte, como não comer doces durante a semana ou trocar uma refeição durante a semana por pão e água. Por último, é aconselhável que deixemos anotado em algum lugar o nosso propósito e todos os dias, antes de deitar-se, verificar se cumprimos ou não. Isso ajuda também a não esquecermos do que nos comprometemos a fazer. 

Outras atitudes que podemos ter durante o dia para fortalecer nossa vontade e dominar os instintos é acrescentar pequenos incômodos, como por exemplo, esperar alguns minutos antes de beber água quando está com sede, esperar um pouco antes de ligar o ar-condicionado, tomar banho um pouco mais frio do que gostaria, esperar alguns minutos antes de olhar o celular de manhã, controlar o impulso de comentar em alguma publicação, etc. Enfim, são inúmeras pequenas coisas que podemos fazer para nos tornar mais fortes e mais livres. 

É muito importante dizer que, sem a ajuda da graça, não avançaremos. Precisamos pedir insistentemente que nosso Senhor Jesus Cristo, quem tanto amou e foi verdadeiramente livre, nos ajude nessa caminhada. Precisamos ainda de ajuda a sermos perseverantes, a não desanimar quando cairmos e não conseguirmos cumprir os propósitos. O essencial é levantar-se e continuar lutando! Por isso, avante! Não se deixe escravizar por seus próprios caprichos! Fomos criados para sermos livres e amar! 


[1] Ratzinger, Joseph, In the Beginning – A Catholic understanding of the story of creation and the Fall, Ed. Ressourcement, 1995, EUA, pg. 72-73

photo credit: JobsForFelonsHub <a href="http://www.flickr.com/photos/144110575@N07/27144250713">Female in handcuffs</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

domingo, 20 de dezembro de 2020

UM LUGAR VAZIO NA MESA DE NATAL

 

Todos os anos muitas famílias experimentam a dor de ter um lugar vazio na mesa de Natal, por um ente querido ter falecido durante o ano. Esse ano, minha família fará essa experiência, pois meu pai morreu no dia 14 de novembro, três semanas depois de ter contraído o Covid. Apesar dessa grande dor, precisamos refletir como Deus Pai gostaria que celebrássemos esse Natal.

Acredito que a primeira atitude é lembrar que Deus é um Pai amoroso e providente, que deseja sempre o nosso bem e a nossa felicidade eterna. Ele sabe de todas as coisas e, se decidiu chamar meu pai para a eternidade nesse ano, é porque sua missão tinha acabado e agora vai viver na eternidade, colhendo os frutos de sua vida aqui conosco. Por mais que minha mãe, minhas irmãs, eu e todos que o amam achássemos que ele poderia viver mais alguns anos, afinal tinha “apenas” 74 anos e estava bem antes de ficar doente, precisamos confiar que Deus sabe muito mais que cada um de nós e que o mais importante é a salvação de sua alma, que certamente aconteceu. Pouco antes de ir para a UTI, ele confessou (disse para a minha irmã que foi a melhor confissão da sua vida), recebeu a unção dos enfermos e comungou. Nossa eterna gratidão ao Pe. Humberto por ter sido um reflexo do Bom Pastor, pois sem pensar na própria vida, corajosamente ministrou os sacramentos para o meu pai. 

Apesar de não estar fisicamente presente conosco, esse ano podermos dar a ele o melhor presente de todos: nossas orações, sacrifícios, a Santa Missa, tudo para aliviar suas penas do Purgatório, caso ele ainda esteja por lá. A Igreja Católica nos ensina que, depois da morte, para aquelas almas que foram salvas e ainda não se livraram de todas as penas, das consequências de seus pecados, existe o Purgatório, onde acontece sua purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu. (CIC §1030 e §1031)

Infelizmente muita gente se esquece dessa realidade e acaba presumindo que a pessoa falecida já está na glória do Céu, não rezando por essa alma, o que resulta num tempo muito maior no Purgatório. Quem está no Purgatório já não pode fazer nada para si mesmo e depende totalmente das orações e sacrifícios de nós que ainda estamos aqui na Terra e do auxílio de quem já está no Céu. Rezar pelas almas do purgatório é um grande ato de caridade, uma obra de misericórdia para os nossos irmãos falecidos.

Mesmo sentindo imensamente sua falta, penso que não devemos ficar muito tristes. Como família, vamos recordar a sua vida, os momentos que passamos juntos, suas piadinhas, fazer suas comidas favoritas, enfim, agradecer a Deus pelo homem, marido, pai, avô, amigo que ele foi. Penso também que de alguma forma, ele estará lá conosco, intercedendo por cada um de nós, para que, um dia, possamos reencontrá-lo no Céu.

Essa é uma das grandes belezas da Igreja Católica: a realidade da comunhão dos santos. Nós aqui ainda nessa vida terrena, como Igreja Militante, intercedemos uns pelos outros e também pelas almas do Purgatório, a Igreja Padecente, que não pode socorrer a si mesma, mas intercede por nós. E a Igreja Triunfante, todas as almas santas que gozam das alegrias do Céu, intercedem por nós e pelas almas do Purgatório, para que um dia, todos estejamos juntos na alegria eterna de contemplar Deus face a face.

Esse ano, esse lugar vazio na mesa de Natal, vai nos lembrar do real sentido da celebração dessa data tão importante: nasceu para nós um Salvador, que veio ao mundo como um bebê indefeso, sofreu muito e morreu numa cruz, mas depois ressuscitou, venceu a morte, para que um dia, cada um de nós possamos ressuscitar com ele e viver num novo Céu e numa nova Terra. 

photo credit: Lee Bennett <a href="http://www.flickr.com/photos/55455788@N00/9344221101">Christmas Day 2005</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

sábado, 5 de dezembro de 2020

AMOR AO PRÓXIMO



“O amor é a lei fundamental do mundo”, nos ensina S. Francisco de Salles. Segundo essa lei, Deus faz tudo por amor, com amor e através do amor. Por isso, o ser humano, como obra prima da Criação, é chamado a amar como Deus ama. 

O amor de Deus por cada um de nós é um amor incondicional, que se oferece inteiramente, não importando nossas limitações e pecados. Ele está sempre pronto a perdoar e a nos acolher em seus braços. Amar desse jeito, para nós, é muito difícil, pois somos criaturas inclinadas ao egoísmo, a pensar só em nós mesmos, em nosso bem, em nosso prazer. Mas não é impossível. Deve ser um exercício diário de renúncia aos próprios desejos, para fazer o bem para o outro, pois o amor não é sentimento, mas sim, ação, atitude. 

Somos chamados a amar a todos sem preconceito. O preconceito é uma ideia que temos do outro, que pode ser em relação a sua cor, sua raça, sua religião, seu sexo, seu estilo de vida, suas escolhas políticas, que nos impede de nos aproximar, de nos vincular e consequentemente de amar. O preconceito também faz com que julguemos os outros, muitas vezes sem nem conhecer direito a situação. 

Para conseguir vencer o preconceito precisamos fazer o exercício de nos colocar no lugar do outro e pensar com empatia. Aqui vale a “regra de ouro” de Jesus, expressa em Mt 7,12: "Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles". Vale refletir também sobre a razão de minha repulsa frente ao outro, qual a origem dessa barreira que levantei e que me impede de amar e servir. 

Se essa barreira se deve a alguma atitude do outro que eu considero errada, então o amor deve me levar a buscar o diálogo. Expor o meu ponto de vista, mas sempre com respeito, sabendo que o outro terá a liberdade de aceitar ou não; de mudar de atitude ou continuar agindo daquela forma. Independente de qual seja a resposta, devo oferecer acolhimento e compreensão. 

O outro lado dessa questão é qual deve ser a minha atitude se eu sofro algum tipo de discriminação ou preconceito. Nesse caso, devemos ter a consciência de que não podemos controlar as atitudes dos outros, apenas controlamos como reagir frente a elas. A atitude de “vitimismo” não ajuda em nada e demonstra imaturidade, pois transfere para o outro a responsabilidade do seu sentimento, da sua postura em relação à vida. 

Aqui também vale o exercício de me colocar no lugar do outro e pensar: talvez se tivesse tido a mesma educação, sofrido os mesmos traumas, vivido as mesmas experiências, poderia estar agindo muito pior do que essa pessoa. Então, não posso julgar e muito menos condenar o outro. O que devo é perdoar, lembrando as palavras de Jesus frente a seus algozes: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34) 

Isso não significa que não devemos corrigir se vemos a outra pessoa agindo de maneira errada. A correção fraterna também é uma atitude de amor. Mas a ênfase deve ser sempre na atitude errada e não na pessoa em si. Cada ser humano tem um valor inestimável para Deus, então precisamos também reconhecer esse valor do outro, independentemente de suas atitudes. 

Uma coisa que não podemos esquecer é que, para nos amarmos como irmãos, precisamos reconhecer que temos um Pai em comum. “Fraternidade sem paternidade é um contra senso”, já disse o Pe. Kentenich. Dessa forma, sem a dimensão sobrenatural, sem pedirmos insistentemente ao Pai a graça de aprendermos a nos amar, nada conseguiremos. O braço horizontal da cruz, que nos lembra que somos irmãos e estamos no mesmo nível, não está solto no ar, ele está fixo na haste vertical, que nos recorda que precisamos ter os pés no chão, mas buscar o alto, só assim amaremos fraternalmente. 

Amar não é fácil, pois significa um tipo de morte. Devemos matar o egoísmo em nós, a tendência a nos colocarmos no centro do mundo, de buscar só o que nos agrada e nos dá prazer e sair ao encontro do outro, para servi-lo em suas necessidades. Sozinhos, não conseguimos. Além de pedir insistentemente: “Senhor, ensina-me a amar!”, podemos contar com o auxílio de nossos irmãos, os santos, que dominaram a arte de amar e conhecer a biografia deles para ver como conseguiram colocar o mandamento do amor na prática. Devemos pedir ainda o auxílio de Maria Santíssima, nossa Mãe e Rainha e grande Educadora, nessa caminhada de crescimento no amor.


photo credit: Caitlinator <a href="http://www.flickr.com/photos/21484712@N00/2700430636">Alex & Ashley</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>