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terça-feira, 15 de março de 2022

EU NÃO QUERO PERDOAR

 


Eu não quero perdoar. Não é justo. Essa pessoa me magoou demais. E o pior: não se arrependeu e não pediu perdão.

E agora? Será que essa atitude de não querer perdoar realmente me faz bem? Quando alguém me causa um mal, essa ofensa atinge diretamente o meu sentimento de justiça. E a justiça exige reparação para o mal cometido e a punição daquele que ofendeu.

Porém o perdão está além da justiça, ele entra no âmbito da misericórdia. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão a misericórdia” (Mt 5,7). A misericórdia implica em dar ao outro aquilo que ele NÃO tem direito. E o que deve nos mover a agir com misericórdia, é o amor.

São Paulo nos exorta: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entra­nhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós. Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." (Col 3, 12-14)

O perdão liberta

Somos convidados a colocar em prática a misericórdia e o perdão. Mas por quê? É porque o perdão nos liberta. Aquele que fica remoendo os fatos, revivendo os acontecimentos que feriram o seu coração, permanece escravo daquele que o ofendeu. Escravo porque não se liberta e não consegue viver sem pensar naquela ofensa.

Quando conseguimos perdoar, nos sentimos mais leves, mais felizes, gerando até um sentimento de compaixão por aquele que nos ofendeu. Conseguimos também nos libertar do passado, de ficar tentando modificar o que já aconteceu ou ficar imaginando como tudo seria se aquela ofensa não tivesse acontecido.

Consciência das próprias limitações

Perdoar não é esquecer e nem fingir que não aconteceu nada. Perdoar é tomar a decisão de que aquela falta que o outro cometeu contra si não vai mais lhe incomodar. E para isso, a pessoa precisa ter a consciência de que também erra, de que também magoa e que precisa sempre do perdão do outro.

Quanto maior for a consciência de que somos seres limitados, de que frequentemente cometemos erros, de que sempre precisamos do perdão, principalmente de Deus, mais fácil será perdoar os erros do outro, principalmente os daqueles que convivem diariamente conosco.

Devemos pensar: se eu tivesse nascido na mesma família da pessoa que me ofendeu, sofrido os mesmos traumas, recebido a mesma educação, poderia até agir muito pior que essa pessoa que me magoou. Precisamos procurar remover as camadas dos defeitos e até das maldades dessa pessoa, para enxergar o bem que certamente há em seu coração.

O perdão não é uma solução para ofensa

O perdão não é ficar indiferente. Não é uma solução para ofensa, ficar frio ou insensível perante o mal. Implica sofrer, sentir a pena e depois perdoar e desculpar quem ofendeu. Perdoar significa que o amor que sentimos é tão grande que vence a ofensa.

O fato de ter perdoado a pessoa não significa necessariamente que preciso conviver com ela ou reatar o nível de intimidade que havia antes da ofensa. Não precisamos nos expor a sermos ofendidos novamente, mas devemos aprender a ter uma convivência sem rancores.

Perdoar não é fácil, mas é possível

Perdoar não é uma atitude fácil. Dependendo do grau da ofensa, da profundidade da cicatriz deixada, o perdão pode demorar muito tempo para ser alcançado.

Não é preciso ter pressa. O que é urgente é decidir que irá perdoar e que aquela falta, aquela mágoa, não irá mais lhe aprisionar. Devemos sempre pedir a Deus, a graça do perdão. Aproximar-se do coração de Jesus, que tem um bálsamo eficaz para curar as feridas do seu coração. Sem a graça de Deus, não é possível perdoar, pois a nossa natureza ferida pelo pecado original é orgulhosa e tende sempre a pensar em si mesma, em sua ferida, olhando os acontecimentos somente pelo seu ponto de vista. O orgulhoso não perdoa. É preciso humildade para pedir perdão e para perdoar.

Ferramentas para conseguir perdoar

O Sacramento da Reconciliação (Confissão) é um meio importantíssimo para conseguir o perdão, tanto de si mesmo, como perdoar os demais. É um sacramento de cura, que restaura a alma e traz a paz interior. Pode demorar muito tempo para conseguirmos perdoar, mas a Confissão é um verdadeiro remédio, que vamos tomando até fazer efeito.

Outro instrumento que podemos usar para nos ajudar a sermos misericordiosos é o “terço do perdão”. Usamos um terço comum, iniciamos com o Creio, Pai Nosso e 3 Ave Marias. Nos mistérios, rezamos o Pai Nosso e nas contas, ao invés de rezar a Ave Maria, rezamos: “eu perdoo (falar o nome da pessoa) e ela me perdoa.” Quando acabar as 5 dezenas, rezar a Salve Rainha.

Como sei que perdoei alguém?

Sabemos que realmente conseguimos perdoar quando lembramos do acontecido, sem que essa memória traga algo de ruim, de perturbação. O perdão faz com lembremos, mas ficamos leve, não pesa o coração.

O perdão é fundamental e precisa ser dado sempre e nas pequenas coisas, desde algo que o irrita e que a pessoa faz sem saber até as coisas que ela faz conscientemente para irritá-lo e magoá-lo. O perdão devolve o equilíbrio ao relacionamento e quando ele é negado, pode causar inúmeras doenças, inclusive o câncer e outras doenças autoimunes.

Vamos seguir o exemplo de Jesus que nos ensinou a rezar: "perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam" (Mt 6,12). E também na Cruz, pediu: "Pai, perdoa-lhes; porque não sabem” (Lc 23,34).


Photo credit: Photo by Raychan on Unsplash


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

A FORÇA LIBERTADORA DA ROTINA

 


Apesar de parecer contraditório, possuir uma rotina com horários fixos para fazer as coisas efetivamente nos torna mais livres para sermos quem fomos criados para ser.

A palavra “rotina” normalmente é associada a monotonia, a uma repetição sem sentido, da qual todos querem se livrar. Porém, a rotina traz ordem ao nosso dia e, de acordo com os neurocientistas, nosso cérebro é condicionado a buscar sempre a ordem, pois ela permite que ele tenha previsibilidade para executar tarefas.  Isso traz tranquilidade, gera serotonina que é um neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar.

O problema da desordem

Quando estamos em um ambiente desorganizado, nosso cérebro tem duas opções: ou perdemos tempo para organizar primeiro para depois cumprir nossa tarefa, por exemplo, estudar ou cozinhar ou precisaremos nos esforçar muito mais para conseguir nos concentrarmos para realizar essa mesma tarefa no meio da bagunça.

Isso acontece também com a nossa agenda. Se não temos horários para cumprir nossos deveres, nosso cérebro está sempre em uma situação de alerta, de não saber o que vai acontecer depois, causando muito mais cansaço, esquecimentos e frustrações. Podemos verificar essa realidade facilmente na vida das crianças: aquelas que vivem numa rotina bem estruturada, com horários para tudo: acordar, brincar, comer, tomar banho, estudar, dormir, são crianças muito mais calmas e tranquilas do que aquelas que não tem essa rotina fixa.

Liberdade para grandes realizações

A ordem remete ao belo, então quando vivemos de uma maneira organizada, nossa mente fica mais aliviada e mais livre para sermos mais criativos, para acharmos soluções para os problemas e principalmente realizar nossos grandes objetivos da vida.

O primeiro passo rumo a essa liberdade é gastar um pouco do tempo para pensar e estipular uma rotina. Uma sugestão é elaborar uma agenda com períodos de 30 minutos e anotar o que você deve fazer naquele tempo determinado. Comece com o horário para se levantar e siga preenchendo até o horário estipulado para dormir. Claro que tarefas que exijam um tempo maior para ser realizadas ocuparão mais de um espaço nessa agenda.

Você pode começar estipulando a rotina de 2ª a 6ª, deixando, a princípio, os finais de semana mais livres. Porém, com o tempo, verá que é importante também estabelecer alguma ordem para o fim de semana, mesmo que não seja tão rígida como a da semana.

Depois, é importante se concentrar para realizar a tarefa determinada no tempo estipulado. Como dizia S. Josemaria Escrivá: “faz o que deves e estás onde fazes”. Ou seja, não adianta ter um horário estipulado para preencher um relatório se nesse tempo estou pensando no que preciso comprar no supermercado. Ou no tempo que estipulei para brincar com meus filhos, ficar pensando na reunião que terei no dia seguinte. Na hora do trabalho, eu trabalho. Na hora de fazer compras, eu organizo a lista e faço as compras. E assim por diante.

Para aqueles que tem muita dificuldade com estabelecer e cumprir uma rotina, uma dica é começar escolhendo um período do dia para colocar na prática. Por exemplo, organizar primeiro o período da hora de acordar até a hora do almoço. Pratique por um tempo essa rotina e quando estiver mais seguro, organize também o período da tarde. E por fim, o período da noite.

Uma vida bem vivida

Não é necessário muito tempo praticando a ordem na rotina para colher seus frutos de tranquilidade e de sensação de liberdade. O tempo é um dos maiores dons recebidos de Deus e empregá-lo bem, cumprindo fielmente o nosso dever, aquilo que estabelecemos para fazer naquele determinado momento, nos proporciona uma sensação maravilhosa de realização pessoal.

“Realiza o teu dever e ele te realizará”, nos diz D. Rafael Cifuentes. As pessoas mais felizes são aquelas que sabem que estão cumprindo bem o seu dever e por isso são mais fortes, conseguem resistir melhor aos imprevistos que a vida lhes apresenta.

Nosso tempo é finito. Chegará um momento em que ele acabará e deveremos prestar contas de nossa vida ao nosso Criador, por isso precisamos cuidar muito bem do que fazemos com ele. E como somos um organismo integrado, perceberemos que, cumprindo bem nossa rotina, outros aspectos da nossa vida também melhorarão, teremos mais facilidade de lidar com nossos defeitos e limitações, podendo, pouco a pouco, nos tornarmos pessoas mais virtuosas e chegarmos ao fim da nossa vida com a tranquilidade do dever bem cumprido.


photo credit: Photo by Covene on Unsplash

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

SERÁ QUE REALMENTE SOMOS LIVRES?



A liberdade é um dos direitos fundamentais de todo ser humano. Mas ela também é um direito muito frágil, podemos perdê-la se não cuidarmos bem. Podemos falar em dois tipos de liberdade: aquela interior, de agir de acordo com a própria razão e vontade e a exterior, que é regulada pela sociedade em que cada pessoa vive, que pode limitar ou até extinguir o direito de ação do indivíduo. Esses dois tipos de liberdade vivem constantemente ameaçados.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 1731, assim define a liberdade: “A liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto de praticar atos deliberados. Pelo livre-arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.”

Portanto, para conseguirmos exercer bem esse poder de agir ou não agir, precisamos utilizar nossa inteligência para discernimos o que é o bem e fortalecermos nossa vontade para conseguir agir de acordo com esse discernimento. “Quanto mais pratica o bem, mais a pessoa se torna livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça.” (CIC 1733)

Ninguém pode tirar nossa liberdade

Essa liberdade interior, de agir de acordo com a própria consciência, ninguém pode nos tirar. Nós só perdemos essa liberdade por própria culpa, quando não discernimos o que é o bem ou quando, mesmo sabendo o que é o bem, nossa vontade não tem força para agir de acordo com o que a inteligência propõe. Cedendo aos nossos impulsos, nos tornamos escravos deles. E ao invés de agir, apenas reagimos.

O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, mesmo preso num campo de concentração durante a 2ª Guerra, manteve sua liberdade interior intacta. Apesar de fisicamente limitado pela prisão, ele vivia com o coração e a mente no Céu. Aceitou aquela circunstância como permissão divina e a utilizou para ajudar quem ele pode a sobreviver àquele verdadeiro inferno.

Não existe liberdade total

Ninguém é totalmente livre, pois existem várias limitações impostas pela própria natureza. Não somos livres para escolher onde nascemos, para sentir fome ou frio, para ser mais alto ou baixo. São inúmeras circunstâncias que não controlamos e que interferem em nossa vida. Porém, se buscarmos viver as virtudes, com o tempo conseguiremos um alto grau de liberdade interior e estas circunstâncias externas interferirão muito pouco no modo como agimos.

Conta-se que todos os dias um homem passava por uma banca de revista e cumprimentava o jornaleiro. Como resposta, sempre recebia alguma grosseria. Um dia seu amigo perguntou por que ele continuava sendo gentil e cumprimentando o jornaleiro se a resposta sempre era negativa. Ele respondeu que era livre para fazer o que achava certo e não era a atitude do outro que iria afetar seu modo de agir.

Desta forma para não perdermos nossa liberdade interior, precisamos lutar constantemente para adquirir as virtudes, como a paciência, temperança, fortaleza, prudência, entre outras. Cada um precisa analisar onde está seu ponto mais fraco, para iniciar essa luta que vai durar a vida toda.

A liberdade exterior não está em nossas mãos

Quanto a liberdade exterior, muito pouco podemos fazer para permanecermos livres. Basta um simples decreto de uma autoridade civil e não podemos mais sair de casa ou até expressarmos nossa opinião publicamente. Claro que devemos sempre lutar pela liberdade com os meios que possuímos, mas no fundo, vivemos em sociedade e, para termos segurança, abrimos mão dessa liberdade e a damos ao governo.

Isso não deve nos afligir, pois não adianta ter liberdade exterior, se interiormente somos escravos de nossos desejos e paixões. Façamos tudo o que está em nosso alcance para permanecermos livres exteriormente, mas lutemos bravamente contra nossas imperfeições para possuirmos o máximo de liberdade interior possível.

A liberdade torna o homem responsável por seus atos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus atos.” (CIC 1734)

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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NÃO SE DEIXE ESCRAVIZAR!



A vida humana é o maior dom recebido de Deus. É uma graça imensa poder existir e dizer: eu sou! Eu existo! Depois da vida, o dom maior que recebemos é a liberdade. A liberdade é o que nos capacita a realizarmos nossa maior vocação: amar e ser amado. Sem a liberdade, o amor é impossível. Só quem é livre pode amar, pode se entregar para o outro, pode provar seu amor através do sacrifício e da doação.

Nós nascemos livres exteriormente, ou seja, não somos escravos, propriedade de ninguém. Porém, a liberdade interior, aquela que nos capacita para amar, precisa ser conquistada. Nascemos atados aos nossos desejos e aos nossos caprichos, egoístas, escravos do nosso próprio eu. A Igreja Católica ensina que isso acontece pois nascemos com o “pecado original”. Neste pecado, o homem preferiu-se a si próprio a Deus, e por isso desprezou Deus: optou por si próprio contra Deus, contra as exigências da sua condição de criatura e, daí, contra o seu próprio bem. Constituído num estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente «divinizado» por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis «ser como Deus», mas «sem Deus, em vez de Deus, e não segundo Deus» (CIC § 398) 

O Papa Bento XVI explica que o pecado original é um pecado relacional, já que ele rejeitou e danificou a relação entre o Criador e sua criatura, pois quis tornar o ser humano um deus. Cada um de nós entra numa situação na qual a relacionalidade está ferida. Consequentemente cada pessoa é, desde o começo, danificada nos relacionamentos e não se envolve neles como deveria. O pecado persegue o ser humano, e ele cede ao pecado.[1]

Para nos livrarmos dessas consequências do pecado, precisamos lutar para restabelecer a ordem desejada por Deus para a natureza humana: a condição de ser filho de Deus deve dominar a nossa inteligência e vontade que deve dominar os nossos instintos. Quando nascemos, nossos instintos (fome, frio, medo, etc) dominam inteiramente nosso ser. Conforme vamos crescendo e amadurecendo, precisamos aprender a dominar esses instintos e permitir que a luz da graça ilumine nossa inteligência para distinguir o que é um bem para nós e fortalecer nossa vontade para agir de acordo com essa inspiração. 

Somente com esse exercício de domínio dos instintos é que realmente seremos livres para conseguirmos amar e sermos felizes. Não se trata de viver “reprimindo” os desejos ou de viver como se esses desejos não existissem, mas de direcionar e ordenar. Pensemos numa pessoa que não consegue ver um pedaço de bolo sem “precisar” comê-lo. Não importa se ela sofre de diabetes ou outro mal derivado do consumo de doces: quando ela vê o bolo, vai e come. Essa pessoa é livre ou se tornou escrava do seu desejo por doce? Outra pessoa “explode” e faz grosserias pela mínima contrariedade que aparece em seu caminho. Quem convive com ela está sempre “pisando em ovos”, angustiada esperando a próxima explosão. Essa pessoa é livre ou é dominada pelas circunstâncias? 

O amor exige que saiamos de nós mesmos para nos doarmos ao outro. Desta forma, quem é escravo dos próprios desejos tem muita dificuldade de amar e quem não ama, não consegue ser feliz. Essa luta deve começar primeiro com a decisão de vencer esses instintos. Depois, devemos escolher apenas um ponto a ser combatido com um propósito muito concreto, cujo cumprimento pode ser avaliado no fim do dia. Quando conseguimos conquistar o domínio desse ponto, então passamos para o próximo. E assim seguimos até o fim da vida! Por exemplo: quem tem dificuldade em controlar a comida, pode fazer o propósito de, ao menos em uma das refeições no dia, renunciar de comer algo que gosta ou trocar o suco por água durante a refeição ou ainda comer apenas o que serviu da primeira vez no prato. Quando isso já não for mais tão difícil, pode aumentar para duas refeições no dia, depois para uma renúncia mais forte, como não comer doces durante a semana ou trocar uma refeição durante a semana por pão e água. Por último, é aconselhável que deixemos anotado em algum lugar o nosso propósito e todos os dias, antes de deitar-se, verificar se cumprimos ou não. Isso ajuda também a não esquecermos do que nos comprometemos a fazer. 

Outras atitudes que podemos ter durante o dia para fortalecer nossa vontade e dominar os instintos é acrescentar pequenos incômodos, como por exemplo, esperar alguns minutos antes de beber água quando está com sede, esperar um pouco antes de ligar o ar-condicionado, tomar banho um pouco mais frio do que gostaria, esperar alguns minutos antes de olhar o celular de manhã, controlar o impulso de comentar em alguma publicação, etc. Enfim, são inúmeras pequenas coisas que podemos fazer para nos tornar mais fortes e mais livres. 

É muito importante dizer que, sem a ajuda da graça, não avançaremos. Precisamos pedir insistentemente que nosso Senhor Jesus Cristo, quem tanto amou e foi verdadeiramente livre, nos ajude nessa caminhada. Precisamos ainda de ajuda a sermos perseverantes, a não desanimar quando cairmos e não conseguirmos cumprir os propósitos. O essencial é levantar-se e continuar lutando! Por isso, avante! Não se deixe escravizar por seus próprios caprichos! Fomos criados para sermos livres e amar! 


[1] Ratzinger, Joseph, In the Beginning – A Catholic understanding of the story of creation and the Fall, Ed. Ressourcement, 1995, EUA, pg. 72-73

photo credit: JobsForFelonsHub <a href="http://www.flickr.com/photos/144110575@N07/27144250713">Female in handcuffs</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 22 de abril de 2020

A IMPORTÂNCIA DA ROTINA (PARA ADULTOS E CRIANÇAS)


Normalmente associamos a palavra “rotina” com algo monótono do qual muitas vezes queremos “fugir”. Porém, uma rotina bem estruturada nos ajuda a organizar as nossas vidas e não perdermos tempo. O tempo é o bem mais precioso que recebemos (depois do dom da nossa vida). Depois que ele passa, não podemos voltar atrás e o único tempo que realmente possuímos é o agora. O ontem já foi e o amanhã não sabemos se virá.

Para as crianças, principalmente as menores, ter uma rotina com horários fixos para as várias atividades do dia, como acordar, banho, refeições, brincadeiras e sono, ajuda a dar segurança, elas ficam menos ansiosas, pois sabem o que vai acontecer depois. Para as maiores e para os adolescentes, seguir uma rotina é essencial para aprenderem a organizar o seu tempo e aproveitar melhor os momentos de estudos e de lazer.

Quem não tem uma rotina, vive sempre correndo, atribulado, querendo fazer tudo ao mesmo tempo e chega ao final do dia com a sensação de que não conseguiu fazer nada do que havia planejado. Isso gera muita frustração e desânimo. Ao contrário, quem tem horário para cada atividade, chega ao fim do dia sentindo a paz do dever cumprido.

Dependendo do seu temperamento, organizar e cumprir uma rotina pode ser um grande desafio. É preciso começar aos poucos e não desanimar com as falhas. Recomeçar com determinação no dia seguinte. A sugestão é organizar primeiro um período do seu dia, como por exemplo, a parte da manhã. Depois que conseguir cumprir por um bom tempo (algumas semanas) essa rotina, então acrescente os outros períodos (tarde e noite).

O que deve fazer parte da rotina?

A primeira coisa a se estabelecer é um horário para acordar. Depois, acrescente a cada meia hora as atividades do seu dia. É importante ter horários para refeições, para orações, para lazer/descanso e para atividades físicas. Você pode elaborar a rotina de cada dia da semana, não sendo necessário que todos os dias sejam exatamente iguais. Por exemplo, pode colocar horário para atividade física três vezes na semana e nos outros dias, nesse mesmo horário, colocar um momento de leitura. É muito importante também estabelecer o horário que vai dormir.

O ideal é que, após estabelecidos os horários, eles sejam rigorosamente cumpridos, na medida em que você saiba exatamente o que deve fazer em cada momento do dia. Pe. José Kentenich fala no “fiel e fidelíssimo cumprimento do dever” e S. Josemaria Escrivá tem uma frase que nos ajuda a focar na rotina: “Faze o que deves e estás no que fazes”. Ou seja, faça o que deve ser feito no horário que você mesmo estabeleceu e, naquele horário, esteja 100% concentrado naquela atividade, sem ficar pensando ou se distraindo com o que fez antes ou com o que irá fazer depois. Desta forma, cumprirá fielmente o seu dever.

Um paradoxo de quem cumpre a sua rotina é que quanto mais “escrava” a pessoa é dos horários estabelecidos, quanto mais fielmente cumpre os mesmos, mais livre se sente ao fim do dia, sabendo que fez tudo o que deveria ter feito e no momento em que deveria ter feito.

A virtude que está por trás da rotina é a virtude da ordem. Apesar de não ser considerada uma virtude de “primeira grandeza”, quem não se esforça para conquista-la, acaba por não conseguir também praticar bem as outras. Sem ordem, o tempo se perde, a vida passa e nós “somos vividos” ao invés de vivermos.

Nesse tempo de quarentena e confinamento que estamos vivendo, a rotina se torna fundamental até para mantermos nosso equilíbrio psicológico. Assim, incentivo a todos a fazerem essa experiência, também com os filhos, pois quanto antes aprenderem a gerenciar o tempo, mais livres serão quando se tornarem adultos.

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quinta-feira, 15 de março de 2018

O MEDO DA CRUZ



Vejamos o que o Pe. Nicolás Schwizer, ISch, nos ensina sobre como nos livrar do medo do sofrimento. Esse texto foi publicado em Reflexões, No. 31, de 15.03.2008.

Nosso grande problema com respeito às cruzes é a entrega sem reservas. Creio que cada um de nós tem algo de que diria: “Virgem Santíssima, entrego-te tudo,… tudo menos isso!” Pensemos: quais são as dificuldades e penas que não queremos que Deus nos mande? Podem ser, por exemplo: enfermidade dos filhos, desonra, infelicidade conjugal, fracasso profissional, perda de um ser querido. 

É o medo frente a essas coisas o que nos tira a liberdade e a entrega, ou pelo menos a faz vacilante. Temos que vencer esse medo, porque é uma força que paralisa, que paralisa nossa entrega de filhos, e como conseqüência disso, nossa criatividade de pais. O Padre Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt, foi um homem que não só foi capaz de dizer sim, apesar do medo, se não que nele foi tão grande a acolhida no coração de Deus e da Virgem, que perdeu o medo. 

O Padre Kentenich recebeu essa graça. E as graças do Fundador são transmitidas aos filhos. Essa graça de vencer o medo a transmitiu de maneira exemplar, por exemplo à Irmã Maria Emilie. Ela não era uma pessoa que tinha um medo normal, mas era uma pessoa psicologicamente enferma de medo, enferma de angustia desde criança. E o Padre Kentenich a curou, foi capaz de transmitir-lhe sua confiança filial.Ele também pode ajudar-nos a vencer nosso medo e nossos temores. 

Uma entrega sem medo e sem reservas seria então, dizer a Deus: podes fazer comigo tudo o que quiseres, mas especialmente isto ou aquilo ante o qual minha natureza se estremece. Isso é amor à cruz no pleno sentido da palavra.

Nossa atitude filial 

Não seremos capazes de assumir e viver esse espírito, se não estivermos convencidos de que Deus é nosso Pai, de que Ele me ama com um amor eterno e que há traçado meu plano de vida como um plano de amor. Em todo momento, também nas situações mais difíceis e dolorosas, sinto-me como um filho predileto de Deus. Sem um amor filial profundo, sem uma filiação simples e confiada, é impossível viver a entrega perfeita, sem medo nem reservas. Porque só um filho se sabe amado, seguro, acolhido. Sabe-se inscrito no coração de Deus Pai. Para um filho, sofrimento e cruz convertem-se assim em sua melhor aprendizagem, na alegria e riqueza de seu caminhar para a casa do Pai.

Qual deveria ser o fruto supremo de nosso esforço por transformar-nos em homens novos, em homens maduros e integrados? O grande fruto deveria ser: crescer decisivamente em mim o “ser filho”, conquistar uma filiação heroica ante Deus Pai. É uma filiação que me faz reconhecer com humildade heroica minhas misérias. É uma filiação que, com confiança heroica, me lança nos braços amorosos do Pai. E é uma filiação que com heroísmo leva a entregar-me ao Deus de minha vida, ao Pai das misericórdias, para sempre. 

Na opinião do Padre Kentenich, a filiação é o único caminho que em meio ao caos de nosso tempo, nos dá uma misteriosa lucidez e uma segurança instintiva. É também o grande remédio que logra sanar a enfermidade do homem de hoje: o stress com todas suas derivações. Porque stress é a perda do equilíbrio da alma. A alma perdeu seu rumo, está a deriva, não está orientada para Deus, nem amparada n’Ele. E a única solução para esse homem enfermo de hoje, é levá-lo de volta a Deus e enraizá-lo em seu coração de Pai.

Perguntas para a reflexão

1. É fácil para mim aceitar a vontade de Deus Pai nas cruzes e adversidades?

2. Que sinto hoje ante a frase: Deus faça comigo o que queiras?

3. Sou uma pessoa nervosa, que se angustia facilmente?

photo credit: lanier67 <a href="http://www.flickr.com/photos/48165069@N00/5533216942">9 Crimes</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/">(license)</a>

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

EDUCAÇÃO PARA LIBERDADE E AUTONOMIA - PARTE 2

Na prática, esta educação para a autonomia e liberdade significa ensinar o filho, desde pequeno, a agir conforme sua inteligência determina e não apenas “reagir” aos seus instintos e vontades. A inteligência, a razão da criança necessita ser treinada para conseguir dominar a vontade, os desejos, para que ela seja realmente uma pessoa livre e autônoma, que consegue agir de acordo com o que acredita ser correto.
Um exemplo simples: a criança quer comer um doce a poucos minutos da hora do almoço. Os pais têm que explicar a ela que não pode comer o doce naquele momento, porque irá diminuir o apetite dela para a refeição e ela precisa se alimentar corretamente para ter saúde. Assim, apesar de ser bom comer um doce, pois irá obter o prazer que ele proporciona ao sentido da degustação, naquele momento não é um bem, ou seja, a inteligência distingue que para o corpo ser saudável, precisa se alimentar melhor na hora do almoço, desta forma não deve comer doce naquela hora.
Se o filho aprende desde cedo a renunciar um prazer para obter um benefício maior, utilizando sua inteligência para dominar a sua vontade, quando precisar renunciar as drogas, bebidas ou outros prazeres ilícitos, terá força para fazê-lo e assim será realmente uma pessoa livre.
“Se é um pouco cansativo exercer a autoridade deste modo, lembrem-se de que é para o bem dos filhos: a pior tirania que os filhos poderiam vir a sofrer seria a incapacidade de se controlarem a si mesmos. Nada causa maior angústia aos adolescentes do que sentirem-se incapazes de dominar algum aspecto da sua vida.”[1]
A educação para a liberdade e autonomia supõe também uma educação para os valores e para a verdade. “Cristo revela, antes de mais, que o reconhecimento honesto e franco da verdade é a condição para uma autêntica liberdade: ‘Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres’(Jo 8,32) [2]. Para que os filhos consigam distinguir o que é um bem para eles, sua inteligência precisa ser alimentada com os valores corretos e com a verdade e isso é tarefa primordial dos pais.
Os valores são “tudo aquilo que nos ajuda a crescer em nosso ser, do físico ao espiritual, que contribui para desenvolver nossas capacidades e qualidades, que nos enriquece interiormente, que nos leva a sermos mais e a sermos melhores.”[3]Se os filhos possuem os valores adequados, suas atitudes refletirão os valores que possuem.
A verdade deve ser um dos maiores valores cultivados pela família. O engano e a mentira podem destruir a família. Nunca se deve mentir para os filhos, pois a verdade um dia é revelada e os filhos, então, não confiarão mais em seus pais. Não existe mentira “inocente”, faltar com a verdade é sempre prejudicial. Mesmo que falar a verdade possa ser mais trabalhoso para os pais, este cuidado é fundamental na educação dos filhos.
Muitas vezes se observa que os pais mentem para os filhos simplesmente para evitar ter trabalho ou para convencer os filhos a fazerem o que eles querem e acreditam que uma “mentirinha” não faz mal para ninguém. Exemplifica-se: a criança já comeu muito doce e continua insistindo por comer mais. Os pais, ao invés de manterem-se firmes na posição de que ela não pode mais comer porque fará mal a sua saúde e suportarem a insistência da criança, mentem dizendo que o doce acabou. Desta forma, além da mentira, perdem a possibilidade de educar a vontade do filho no sentido dele saber que o doce está lá, mas não pode comer mais. 
Outro exemplo é dizer para a criança que uma injeção que ela precisa tomar não vai doer, para que a criança não faça “birra” e aceite mais tranquilamente receber a injeção. No minuto que ela sentir a dor, que obviamente acontecerá, passará a desconfiar da palavra dos pais e se sentirá enganada, o que efetivamente aconteceu. O correto seria dizer que, sim, ela irá sentir um pouco de dor, mas esta dor é necessária para o bem dela, pois o remédio ajudará a melhorar.
Assim, a mentira nunca pode ser aceita, pois quebra a confiança entre pais e filhos. Não é possível exigir do filho que não minta para os pais se os próprios pais sempre mentiram para a criança, mesmo estas ditas “mentirinhas”.
É ensinamento bíblico: “O pai de vocês é o diabo (...). Quando ele fala mentira, fala do que é dele, porque ele é mentiroso e pai da mentira.”[4]Toda vez que se diz uma mentira, está se comportando como filho do inimigo de Deus e trazendo desconfiança e discórdia para dentro do lar.
 A palavra chave para obter a verdadeira liberdade e autonomia é a virtude da temperança.
  “A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade. A pessoa temperante orienta para o bem os seus apetites sensíveis...”[5]
Portanto, não se trata de afastar todos os prazeres e abafar todos os instintos, muito pelo contrário, a liberdade é alcançada na medida em que o indivíduo encontra este equilíbrio entre o que pode e o que deve fazer em todas as circunstâncias da sua vida, buscando o próprio bem e o bem daqueles que o cercam, evitando que suas atitudes causem um dano físico, moral ou espiritual a si mesmo ou ao próximo[6].
"Os pais são os primeiros responsáveis pela educação de seus filhos. Dão testemunho desta responsabilidade em primeiro lugar pela criação de um lar no qual a ternura, o perdão, o respeito, a fidelidade e o serviço desinteressado são a regra. O lar é o lugar apropriado para a educação das virtudes. Esta requer a aprendizagem da abnegação, de um reto juízo, do domínio de si, condições de toda liberdade verdadeira. Os pais ensinarão os filhos a subordinar ‘as dimensões físicas e instintivas às dimensões interiores e espirituais’”.[7]



[1] “Filhos: quando educá-los?”, STENSON, James B. Pg. 41-42, 2ª edição, Editora Quadrante, São Paulo, 1994
[2] Carta Encíclica de João Paulo II, Veritatis Splendor, No. 87
[3] “Uma educação integral baseada em valores”, TOALDO, Olindo e Marilene, Série Educação 7, pg. 11, Sabta Maria, 1990
[4] Jo 8,44
[5] CIC 1809
[6] “Autodominio – Elogio da Temperança”, FAUS, Francisco, pg. 31, editora Quadrante, São Paulo, 2004
[7] CIC 2223

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

EDUCAÇÃO PARA LIBERDADE E AUTONOMIA - PARTE 1

O maior presente que Deus deu ao ser humano após chamá-lo à vida foi a liberdade, o livre-arbítrio. É por ser livre que o homem pode escolher se deseja ou não trilhar o caminho de volta à casa do Pai, se opta ou não por amá-Lo e servi-Lo. Sem a liberdade não haveria o amor, pois só pode amar quem é realmente livre. 
“A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no homem. Pois Deus quis ‘deixar o homem entregue à sua própria decisão’, para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele.”[1]
Por isso, o anseio pela liberdade e pela autonomia é inerente ao ser humano, sendo motivo, inclusive, de muitas guerras e revoltas, pois o homem quer “ser livre, autônomo”. Porém, o conceito de liberdade muitas vezes é confundido com o de “fazer o que quiser, na hora que quiser e como quiser”, sem importar as implicações, o que traz muitas vezes o contrário da liberdade, que é a escravidão.
“‘Posso fazer tudo o que quero’. Sim, mas nem tudo me convém. ‘Posso fazer tudo o que quero’, mas não deixarei que nada me escravize.”[2] “A escolha da desobediência e do mal é um abuso de liberdade e conduz à ‘escravidão do pecado’”.[3]
As pessoas que, em nome da liberdade e da autonomia, não controlam seus instintos, deixando-os agir “livremente” acabam justamente escravos destes mesmos instintos, de suas paixões e “vontades”.
Por exemplo, uma pessoa que escolhe “livremente” fumar, em determinado momento não consegue mais parar, pois seu organismo ficou viciado na nicotina, assim, aquele que no início era livre para escolher ou não fumar, passou a ser escravo do cigarro. Conclui-se então que, quem faz um mal uso da liberdade, acaba perdendo-a.
“A liberdade foi dada ao homem pelo Criador simultaneamente como dom e tarefa; com efeito, por meio da liberdade, o homem é chamado a acolher e a realizar o bem na sua verdade: escolhendo e exercendo um bem verdadeiro na vida pessoal e familiar, na realidade econômica e política, nos âmbitos nacional e internacional, o homem exerce a sua própria liberdade na verdade.” [4]
“A liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto de praticar atos deliberados. Pelo livre-arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.”[5]
A verdadeira liberdade consiste em optar pelo bem, por aquilo que trará consequências boas para o indivíduo e para toda a coletividade, e ter a força e determinação para conseguir agir de acordo com a sua decisão.
“Quanto mais pratica o bem, mais a pessoa se torna livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça.”[6]
Outra característica da liberdade é a responsabilidade pelos atos. A pessoa que escolhe livremente fazer algo deve responsabilizar-se pelas consequências deste ato. Da mesma forma, os pais devem ensinar os filhos a se responsabilizarem pelas escolhas feitas e não “poupar” os filhos das consequências dos próprios atos.
Um filho que não estudou o ano inteiro deve arcar com a consequência de não passar de ano. Os pais não devem se desesperar para tentar fazer o filho passar de ano de qualquer maneira. Ele tem que se responsabilizar pela escolha feita.
Se a criança sabe que precisa arrumar seu material diariamente para ir a escola e não o faz direito, esquecendo, por exemplo, um livro em casa, os pais não devem levar o livro depois para a escola. Ela tem que sofrer o resultado de sua displicência, caso contrário, ao invés de aprender a ser responsável, terá a falsa ideia de que os pais poderão resolver sempre todos os problemas de sua vida, tendo muita dificuldade para amadurecer.
 “A liberdade torna o homem responsável por seus atos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus atos.”[7]
O conceito de autonomia, como a “faculdade de se governar por si mesmo”[8], completa o de liberdade, pois para ser realmente livre, a pessoa precisa ter a capacidade de se autogovernar, ou seja, de ser verdadeiro mestre de suas ações e não agir impulsionado por estímulos externos ou internos.
 Desta forma, educar para a autonomia e a liberdade significa ajudar o filho a desenvolver a capacidade de tomar decisões de acordo com valores e princípios próprios e ter a capacidade de agir conforme estas decisões.



[1] Carta Encíclica de João Paulo II, “Veritatis Splendor”. No. 34
[2] 1Cor 6,12
[3] CIC 1733
[4] “Memória e Identidade”, João Paulo II, Capítulo 8
[5] CIC 1731
[6] idem
[7] CIC 1734
[8]  Mini Aurélio, 7ª edição, pg. 155, editora Positivo, Curitiba, 2008