segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A DIVISÃO TRAZ DESTRUIÇÃO!

 

Nos últimos tempos, para qualquer lado que olharmos, podemos observar uma divisão: direita x esquerda, liberal x conservador, socialismo x capitalismo, veganos x carnívoros, a favor da vacina x contrários a vacina e por aí vai... a lista é imensa. Experimentamos essa animosidade oriunda da polaridade em nossas famílias, no trabalho, na escola e até dentro da própria Igreja. “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir." (Mt 12,25) A divisão traz a destruição, já nos avisa Jesus. O próprio significado da palavra diabo é divisor, aquele que traz a divisão e a discórdia.

Um dos grandes problemas dessa polaridade é que as pessoas simplesmente não sabem mais conversar, expor seu ponto de vista, sem se sentirem pessoalmente atingidas caso o outro discorde do que ela está falando, contrarie suas ideias. Essa é uma atitude que demonstra uma grande imaturidade, pois o fato de eu discordar da sua opinião não significa que estou agredindo você, ou que não goste de você. E quando você leva a discussão para o lado pessoal, afloram as emoções e toda racionalidade vai embora. Começam, então, realmente as agressões verbais (e as vezes até físicas!) e quebra-se totalmente qualquer vínculo existente, cada um vai para um lado, machucado, ferido. Ninguém ganha. Só há perdedores.

É importante dizer também que a atitude de evitar o conflito com o discurso de que “cada um tem a sua opinião e que todas são válidas” também não é correta. A verdade existe e ela é uma só. Não há possibilidade de todos os lados estarem corretos. Para quem busca com sinceridade de coração, a verdade é possível de se achar. A verdade quer se revelar e quer ser acessível a todos.

A atitude que devemos ter frente ao outro que discorda do nosso ponto de vista é, em primeiro lugar, o respeito. Se o outro pensa diferente, certamente tem seus motivos, então, é preciso ter paciência e disponibilidade para ouvi-lo, sem preconceito, sem “levantar a guarda”, tentando se colocar no lugar dele e enxergar as coisas da forma que ele enxerga. Lembrar que o que ele está falando é apenas a opinião dele, o modo dele ver a situação, mas não representa o que ele verdadeiramente é: uma alma querida e amada por Deus que foi colocada em seu caminho para que, quem sabe, você possa ajudá-la em sua peregrinação rumo ao Céu.

O segundo passo é usar a razão, a inteligência. Expor os seus argumentos de forma clara e sem ofensas. Peça ao Espírito Santo que o ajude a falar de uma forma que o outro entenda, sem a intenção de mostrar superioridade, mas com o único objetivo de alcançar a verdade. Caso você não tenha certeza dos motivos que levam você a possuir determinado ponto de vista, não tenha vergonha de falar que vai procurar estudar mais, tentar entender os fundamentos, para então voltar a conversar sobre o assunto. Mais uma opção é convidar o outro para buscarem a verdade juntos.

Outro aspecto fundamental é ter a abertura e a humildade de saber que você é quem pode estar errado, por isso é muito importante ouvir o outro com o coração aberto, tentando analisar se por acaso ele pode ter razão no que fala. Não tem problema nenhum mudar de opinião se você enxergou que a verdade está do outro lado! Essa atitude demonstra maturidade e a boa vontade de buscar o bem. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” (Jo 8,32)

Busquemos, assim, a unidade e não a divisão. Em qualquer conversa que haja indícios de discórdia, procure primeiro o ponto comum, onde todos estão de acordo. Esse ponto pode ser o bem do país, a saúde, a prosperidade, a felicidade. Todo tema tem um aspecto que os dois lados concordam. E conversem a partir daí, reconhecendo que ambos buscam a mesma coisa, só que de pontos de vista diferentes. Se por acaso os ânimos se exaltarem, encerre o assunto e deixe a conversa para outro dia. Sem ganhadores ou perdedores. A divisão traz destruição!





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terça-feira, 12 de janeiro de 2021

NÃO SE DEIXE ESCRAVIZAR!



A vida humana é o maior dom recebido de Deus. É uma graça imensa poder existir e dizer: eu sou! Eu existo! Depois da vida, o dom maior que recebemos é a liberdade. A liberdade é o que nos capacita a realizarmos nossa maior vocação: amar e ser amado. Sem a liberdade, o amor é impossível. Só quem é livre pode amar, pode se entregar para o outro, pode provar seu amor através do sacrifício e da doação.

Nós nascemos livres exteriormente, ou seja, não somos escravos, propriedade de ninguém. Porém, a liberdade interior, aquela que nos capacita para amar, precisa ser conquistada. Nascemos atados aos nossos desejos e aos nossos caprichos, egoístas, escravos do nosso próprio eu. A Igreja Católica ensina que isso acontece pois nascemos com o “pecado original”. Neste pecado, o homem preferiu-se a si próprio a Deus, e por isso desprezou Deus: optou por si próprio contra Deus, contra as exigências da sua condição de criatura e, daí, contra o seu próprio bem. Constituído num estado de santidade, o homem estava destinado a ser plenamente «divinizado» por Deus na glória. Pela sedução do Diabo, quis «ser como Deus», mas «sem Deus, em vez de Deus, e não segundo Deus» (CIC § 398) 

O Papa Bento XVI explica que o pecado original é um pecado relacional, já que ele rejeitou e danificou a relação entre o Criador e sua criatura, pois quis tornar o ser humano um deus. Cada um de nós entra numa situação na qual a relacionalidade está ferida. Consequentemente cada pessoa é, desde o começo, danificada nos relacionamentos e não se envolve neles como deveria. O pecado persegue o ser humano, e ele cede ao pecado.[1]

Para nos livrarmos dessas consequências do pecado, precisamos lutar para restabelecer a ordem desejada por Deus para a natureza humana: a condição de ser filho de Deus deve dominar a nossa inteligência e vontade que deve dominar os nossos instintos. Quando nascemos, nossos instintos (fome, frio, medo, etc) dominam inteiramente nosso ser. Conforme vamos crescendo e amadurecendo, precisamos aprender a dominar esses instintos e permitir que a luz da graça ilumine nossa inteligência para distinguir o que é um bem para nós e fortalecer nossa vontade para agir de acordo com essa inspiração. 

Somente com esse exercício de domínio dos instintos é que realmente seremos livres para conseguirmos amar e sermos felizes. Não se trata de viver “reprimindo” os desejos ou de viver como se esses desejos não existissem, mas de direcionar e ordenar. Pensemos numa pessoa que não consegue ver um pedaço de bolo sem “precisar” comê-lo. Não importa se ela sofre de diabetes ou outro mal derivado do consumo de doces: quando ela vê o bolo, vai e come. Essa pessoa é livre ou se tornou escrava do seu desejo por doce? Outra pessoa “explode” e faz grosserias pela mínima contrariedade que aparece em seu caminho. Quem convive com ela está sempre “pisando em ovos”, angustiada esperando a próxima explosão. Essa pessoa é livre ou é dominada pelas circunstâncias? 

O amor exige que saiamos de nós mesmos para nos doarmos ao outro. Desta forma, quem é escravo dos próprios desejos tem muita dificuldade de amar e quem não ama, não consegue ser feliz. Essa luta deve começar primeiro com a decisão de vencer esses instintos. Depois, devemos escolher apenas um ponto a ser combatido com um propósito muito concreto, cujo cumprimento pode ser avaliado no fim do dia. Quando conseguimos conquistar o domínio desse ponto, então passamos para o próximo. E assim seguimos até o fim da vida! Por exemplo: quem tem dificuldade em controlar a comida, pode fazer o propósito de, ao menos em uma das refeições no dia, renunciar de comer algo que gosta ou trocar o suco por água durante a refeição ou ainda comer apenas o que serviu da primeira vez no prato. Quando isso já não for mais tão difícil, pode aumentar para duas refeições no dia, depois para uma renúncia mais forte, como não comer doces durante a semana ou trocar uma refeição durante a semana por pão e água. Por último, é aconselhável que deixemos anotado em algum lugar o nosso propósito e todos os dias, antes de deitar-se, verificar se cumprimos ou não. Isso ajuda também a não esquecermos do que nos comprometemos a fazer. 

Outras atitudes que podemos ter durante o dia para fortalecer nossa vontade e dominar os instintos é acrescentar pequenos incômodos, como por exemplo, esperar alguns minutos antes de beber água quando está com sede, esperar um pouco antes de ligar o ar-condicionado, tomar banho um pouco mais frio do que gostaria, esperar alguns minutos antes de olhar o celular de manhã, controlar o impulso de comentar em alguma publicação, etc. Enfim, são inúmeras pequenas coisas que podemos fazer para nos tornar mais fortes e mais livres. 

É muito importante dizer que, sem a ajuda da graça, não avançaremos. Precisamos pedir insistentemente que nosso Senhor Jesus Cristo, quem tanto amou e foi verdadeiramente livre, nos ajude nessa caminhada. Precisamos ainda de ajuda a sermos perseverantes, a não desanimar quando cairmos e não conseguirmos cumprir os propósitos. O essencial é levantar-se e continuar lutando! Por isso, avante! Não se deixe escravizar por seus próprios caprichos! Fomos criados para sermos livres e amar! 


[1] Ratzinger, Joseph, In the Beginning – A Catholic understanding of the story of creation and the Fall, Ed. Ressourcement, 1995, EUA, pg. 72-73

photo credit: JobsForFelonsHub <a href="http://www.flickr.com/photos/144110575@N07/27144250713">Female in handcuffs</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

domingo, 20 de dezembro de 2020

UM LUGAR VAZIO NA MESA DE NATAL

 

Todos os anos muitas famílias experimentam a dor de ter um lugar vazio na mesa de Natal, por um ente querido ter falecido durante o ano. Esse ano, minha família fará essa experiência, pois meu pai morreu no dia 14 de novembro, três semanas depois de ter contraído o Covid. Apesar dessa grande dor, precisamos refletir como Deus Pai gostaria que celebrássemos esse Natal.

Acredito que a primeira atitude é lembrar que Deus é um Pai amoroso e providente, que deseja sempre o nosso bem e a nossa felicidade eterna. Ele sabe de todas as coisas e, se decidiu chamar meu pai para a eternidade nesse ano, é porque sua missão tinha acabado e agora vai viver na eternidade, colhendo os frutos de sua vida aqui conosco. Por mais que minha mãe, minhas irmãs, eu e todos que o amam achássemos que ele poderia viver mais alguns anos, afinal tinha “apenas” 74 anos e estava bem antes de ficar doente, precisamos confiar que Deus sabe muito mais que cada um de nós e que o mais importante é a salvação de sua alma, que certamente aconteceu. Pouco antes de ir para a UTI, ele confessou (disse para a minha irmã que foi a melhor confissão da sua vida), recebeu a unção dos enfermos e comungou. Nossa eterna gratidão ao Pe. Humberto por ter sido um reflexo do Bom Pastor, pois sem pensar na própria vida, corajosamente ministrou os sacramentos para o meu pai. 

Apesar de não estar fisicamente presente conosco, esse ano podermos dar a ele o melhor presente de todos: nossas orações, sacrifícios, a Santa Missa, tudo para aliviar suas penas do Purgatório, caso ele ainda esteja por lá. A Igreja Católica nos ensina que, depois da morte, para aquelas almas que foram salvas e ainda não se livraram de todas as penas, das consequências de seus pecados, existe o Purgatório, onde acontece sua purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrarem na alegria do Céu. (CIC §1030 e §1031)

Infelizmente muita gente se esquece dessa realidade e acaba presumindo que a pessoa falecida já está na glória do Céu, não rezando por essa alma, o que resulta num tempo muito maior no Purgatório. Quem está no Purgatório já não pode fazer nada para si mesmo e depende totalmente das orações e sacrifícios de nós que ainda estamos aqui na Terra e do auxílio de quem já está no Céu. Rezar pelas almas do purgatório é um grande ato de caridade, uma obra de misericórdia para os nossos irmãos falecidos.

Mesmo sentindo imensamente sua falta, penso que não devemos ficar muito tristes. Como família, vamos recordar a sua vida, os momentos que passamos juntos, suas piadinhas, fazer suas comidas favoritas, enfim, agradecer a Deus pelo homem, marido, pai, avô, amigo que ele foi. Penso também que de alguma forma, ele estará lá conosco, intercedendo por cada um de nós, para que, um dia, possamos reencontrá-lo no Céu.

Essa é uma das grandes belezas da Igreja Católica: a realidade da comunhão dos santos. Nós aqui ainda nessa vida terrena, como Igreja Militante, intercedemos uns pelos outros e também pelas almas do Purgatório, a Igreja Padecente, que não pode socorrer a si mesma, mas intercede por nós. E a Igreja Triunfante, todas as almas santas que gozam das alegrias do Céu, intercedem por nós e pelas almas do Purgatório, para que um dia, todos estejamos juntos na alegria eterna de contemplar Deus face a face.

Esse ano, esse lugar vazio na mesa de Natal, vai nos lembrar do real sentido da celebração dessa data tão importante: nasceu para nós um Salvador, que veio ao mundo como um bebê indefeso, sofreu muito e morreu numa cruz, mas depois ressuscitou, venceu a morte, para que um dia, cada um de nós possamos ressuscitar com ele e viver num novo Céu e numa nova Terra. 

photo credit: Lee Bennett <a href="http://www.flickr.com/photos/55455788@N00/9344221101">Christmas Day 2005</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

sábado, 5 de dezembro de 2020

AMOR AO PRÓXIMO



“O amor é a lei fundamental do mundo”, nos ensina S. Francisco de Salles. Segundo essa lei, Deus faz tudo por amor, com amor e através do amor. Por isso, o ser humano, como obra prima da Criação, é chamado a amar como Deus ama. 

O amor de Deus por cada um de nós é um amor incondicional, que se oferece inteiramente, não importando nossas limitações e pecados. Ele está sempre pronto a perdoar e a nos acolher em seus braços. Amar desse jeito, para nós, é muito difícil, pois somos criaturas inclinadas ao egoísmo, a pensar só em nós mesmos, em nosso bem, em nosso prazer. Mas não é impossível. Deve ser um exercício diário de renúncia aos próprios desejos, para fazer o bem para o outro, pois o amor não é sentimento, mas sim, ação, atitude. 

Somos chamados a amar a todos sem preconceito. O preconceito é uma ideia que temos do outro, que pode ser em relação a sua cor, sua raça, sua religião, seu sexo, seu estilo de vida, suas escolhas políticas, que nos impede de nos aproximar, de nos vincular e consequentemente de amar. O preconceito também faz com que julguemos os outros, muitas vezes sem nem conhecer direito a situação. 

Para conseguir vencer o preconceito precisamos fazer o exercício de nos colocar no lugar do outro e pensar com empatia. Aqui vale a “regra de ouro” de Jesus, expressa em Mt 7,12: "Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles". Vale refletir também sobre a razão de minha repulsa frente ao outro, qual a origem dessa barreira que levantei e que me impede de amar e servir. 

Se essa barreira se deve a alguma atitude do outro que eu considero errada, então o amor deve me levar a buscar o diálogo. Expor o meu ponto de vista, mas sempre com respeito, sabendo que o outro terá a liberdade de aceitar ou não; de mudar de atitude ou continuar agindo daquela forma. Independente de qual seja a resposta, devo oferecer acolhimento e compreensão. 

O outro lado dessa questão é qual deve ser a minha atitude se eu sofro algum tipo de discriminação ou preconceito. Nesse caso, devemos ter a consciência de que não podemos controlar as atitudes dos outros, apenas controlamos como reagir frente a elas. A atitude de “vitimismo” não ajuda em nada e demonstra imaturidade, pois transfere para o outro a responsabilidade do seu sentimento, da sua postura em relação à vida. 

Aqui também vale o exercício de me colocar no lugar do outro e pensar: talvez se tivesse tido a mesma educação, sofrido os mesmos traumas, vivido as mesmas experiências, poderia estar agindo muito pior do que essa pessoa. Então, não posso julgar e muito menos condenar o outro. O que devo é perdoar, lembrando as palavras de Jesus frente a seus algozes: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34) 

Isso não significa que não devemos corrigir se vemos a outra pessoa agindo de maneira errada. A correção fraterna também é uma atitude de amor. Mas a ênfase deve ser sempre na atitude errada e não na pessoa em si. Cada ser humano tem um valor inestimável para Deus, então precisamos também reconhecer esse valor do outro, independentemente de suas atitudes. 

Uma coisa que não podemos esquecer é que, para nos amarmos como irmãos, precisamos reconhecer que temos um Pai em comum. “Fraternidade sem paternidade é um contra senso”, já disse o Pe. Kentenich. Dessa forma, sem a dimensão sobrenatural, sem pedirmos insistentemente ao Pai a graça de aprendermos a nos amar, nada conseguiremos. O braço horizontal da cruz, que nos lembra que somos irmãos e estamos no mesmo nível, não está solto no ar, ele está fixo na haste vertical, que nos recorda que precisamos ter os pés no chão, mas buscar o alto, só assim amaremos fraternalmente. 

Amar não é fácil, pois significa um tipo de morte. Devemos matar o egoísmo em nós, a tendência a nos colocarmos no centro do mundo, de buscar só o que nos agrada e nos dá prazer e sair ao encontro do outro, para servi-lo em suas necessidades. Sozinhos, não conseguimos. Além de pedir insistentemente: “Senhor, ensina-me a amar!”, podemos contar com o auxílio de nossos irmãos, os santos, que dominaram a arte de amar e conhecer a biografia deles para ver como conseguiram colocar o mandamento do amor na prática. Devemos pedir ainda o auxílio de Maria Santíssima, nossa Mãe e Rainha e grande Educadora, nessa caminhada de crescimento no amor.


photo credit: Caitlinator <a href="http://www.flickr.com/photos/21484712@N00/2700430636">Alex & Ashley</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

OS SAPATOS VERMELHOS DO PAPA


 

Olhando as imagens do funeral de S. João Paulo II, mais uma vez me deparei com os sapatos vermelhos do Papa. Sempre achei que eram muito bonitos, mas não sabia de seu profundo significado. Recentemente aprendi que a cor vermelha dos sapatos do Sumo Pontífice nos recorda do amor de Cristo por sua Igreja pois derramou seu sangue por ela e também do sangue de todos os mártires que deram sua vida por amor a Cristo e a sua Igreja.

Desta forma, quando o Papa usa os sapatos vermelhos está nos lembrando que a Igreja está edificada sobre o sangue de Jesus e o sangue dos mártires! O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2473, nos ensina: “O martírio é o supremo testemunho dado em favor da verdade da fé; designa um testemunho que vai até à morte. O mártir dá testemunho de Cristo, morto e ressuscitado, ao qual está unido pela caridade. Dá testemunho da verdade da fé e da doutrina cristã. Suporta a morte com um ato de fortaleza. «Deixai-me ser pasto das feras, pelas quais poderei chegar à posse de Deus» (Sto. Inácio de Antioquia)”

Os mártires têm sua inteligência iluminada pela luz natural da razão e a luz sobrenatural da fé que lhes diz que a verdadeira vida e a verdadeira felicidade estão no Céu, junto a Nosso Senhor Jesus Cristo e que não vale a pena trocar a felicidade eterna por mais alguns anos de vida nessa terra. Assim, dar a vida para testemunhar sua fé em Jesus é a escolha mais lógica a se fazer. 

Na audiência pública do dia 25/09/2019, a qual eu tive a alegria de estar presente, o Papa Francisco nos disse: “A Igreja de hoje é rica de mártires. Hoje há mais mártires do que no tempo do início da Igreja. Os mártires estão em todos os lugares. A Igreja é irrigada pelo sangue deles que é a semente de novos cristãos e garante crescimento e fecundidade ao povo de Deus. Os mártires não são "santinhos", mas homens e mulheres de carne e osso que, como diz o Apocalipse, “lavaram suas vestes, tornando-as brancas no sangue do Cordeiro". Estes são os verdadeiros vencedores.” 

Segundo levantamento do site World Watch List de 2020, oito cristãos são mortos e dez são presos injustamente todos os dias virtude de sua fé e 182 igrejas cristãs são atacadas todas as semanas. Esses números são expressivos e quase não são noticiados. Apenas quando acontecem em grandes cidades do Ocidente, como foi o caso das três pessoas mortas a facadas por um adepto do islamismo na cidade francesa de Nice no fim do mês de outubro, é que recebemos alguma informação. 

Será que nós estamos preparados para dar a vida por nossa fé? Ou se chegar esse momento, renegaremos a Cristo para não perdermos a nossa vida? Claro que por nós mesmos, não conseguimos nada. Quem dá a graça da perseverança até o fim é o próprio Jesus. Mas isso não significa que devemos ficar esperando a graça sem fazermos nada. Podemos e devemos nos preparar para defender a nossa fé a qualquer custo. 

Essa preparação se dá primeiramente com uma vida de oração constante e com a frequência aos sacramentos, especialmente a confissão e a eucaristia. O estudo da doutrina católica e do magistério da Igreja também nos fortalece. Ler a biografia de tantos santos que deram sua vida por Jesus pode ser uma grande inspiração. 

Nem todos seremos chamados ao martírio de sangue, isso também é um privilégio reservado a alguns escolhidos, de acordo com a amorosa providência de Deus Pai. Porém, no mundo em que vivemos, em alguma medida cada um de nós, cristãos, passa por algum tipo de martírio. Viver segundo o Evangelho significa valorizar mais o ser do que o ter; significa renunciar a si mesmo, aos nossos gostos e desejos para fazer o bem para o outro; significa ser contrário a tantas ideologias que estão na moda ou são “politicamente corretas” e isso pode resultar em perda de amizades, dificuldades no trabalho e às vezes dentro da própria família. 

Não devemos desanimar com o sofrimento e as dificuldades. Devemos contar com a ajuda sempre pronta de nosso santo anjo da guarda que quer nos ver no Céu, um dia. Temos uma Mãe Santíssima que cuida de nós com amor infinito. E o próprio Jesus nos encoraja: “Mas quem perseverar até o fim, será salvo!” Mt 10,22


photo credit: Beyond Forgetting <a href="http://www.flickr.com/photos/23342600@N00/8226888">POPE JOHN PAUL II</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

terça-feira, 6 de outubro de 2020

DEUS QUER FALAR COM VOCÊ TODOS OS DIAS!

 

Vivemos numa sociedade que se esquece de Deus. Mesmo que tem religião, muitas vezes acaba deixando Deus em segundo plano, ou como um compromisso para o fim de semana. A vida se torna mecânica, sem uma integração entre o racional e o espiritual, entre a vida material e a vida da graça. Separa-se a fé da vida e frequentemente pode-se até se falar de Deus, mas as pessoas se esquecem de falar com Deus.

Desde a criação do ser humano Deus quer se comunicar com cada alma que ele criou para amar e ser amado. Antes do pecado, essa comunicação era mais fácil e direta, porém, com a rebeldia de nossos primeiros pais, falar com Deus e perceber Deus falando conosco ficou um pouco mais difícil.

Deus é Amor e o amor precisa se relacionar com quem ama. O amor é um movimento de sair de si mesmo para encontrar o outro, onde ele esteja. Deus é amor infinito e perfeito, então todos os dias e todos os momentos está buscando se relacionar, se comunicar, com cada um de nós. O problema é que, com nossa preocupação excessiva com as coisas materiais, não percebemos todos os gestos de amor, todos os sinais que Deus coloca em nossas vidas.

Quando fazemos o propósito de parar um pouco a correria do dia a dia e nos colocar na posição de querer ouvir o que Deus quer nos falar naquele momento, nossa vida se transforma. Não de uma hora para outra como se fosse mágica, mas pouco a pouco. Essa constância em procurar Deus em minha vida, nos dá acesso a uma existência superior, entramos em contato com o mundo sobrenatural que é tão real quanto o mundo material e assim conseguimos enxergar o todo, não apenas uma parte de nossa existência.

Santo Tomás de Aquino fala das “causas segundas”. A Causa Primeira é Deus, princípio de tudo, e todas as coisas criadas, são as “causas segundas” e querem comunicar um pouco do Criador. As “causas segundas livres” são os seres humanos e são os únicos que podem escolher se desejam ou não comunicar algo de Deus. Todo o mais que foi criado, por seu próprio ser, comunicam algo da Beleza, Bondade e Verdade de Deus, basta prestar um pouco de atenção que conseguiremos enxergar.

Esses dias aprendi que, se fotografarmos todos os dias o sol, no mesmo horário e do mesmo lugar, ao final de um ano, o trajeto que o sol fez no céu é exatamente o símbolo do infinito![1] Fiquei encantada com essa descoberta! Um dos símbolos de Jesus Cristo é o sol, então é como se Jesus nos falasse de seu amor infinito por cada um de nós!

Muita gente pode dizer que isso é bobagem, que tudo é coincidência, que não tem nada de extraordinário no trajeto do sol pelo céu, ou de uma flor que se abre no seu jardim, ou da chuva que chega quando o calor está grande, ou do amigo que manda uma mensagem com aquilo que justamente você estava precisando ouvir. Tudo isso é “normal e natural”. Sim, é natural, mas Deus utiliza da natureza, das pessoas, dos acontecimentos para nos comunicar algo de seu amor, para que nós consigamos sentir o seu amor e seu cuidado e, assim, conseguir corresponder com atos de amor.

Assim, precisamos nos conscientizar da importância de fazer nossa meditação diária, esse momento de encontro com o Deus da minha vida. Para começar, pode ser apenas 15 minutos, onde nos conectamos com Deus através da oração, pedindo ao Espírito Santo e ao nosso anjo da guarda que nos ajude a ver e entender o que Deus quer falar conosco naquele dia. Escolhemos um momento daquele dia ou do dia anterior e nos perguntamos: o que Deus quis falar para mim com esse acontecimento? O que eu digo a mim mesmo? O que respondo a Deus?

Essa atitude simples pode transformar a sua vida. Você pode anotar em um caderno as respostas diárias a essas perguntas simples e, depois de um tempo, ler novamente para agradecer todas as maravilhas que Deus opera em sua vida e que estavam passando desapercebidas. E, como um “bônus”, verá que tomar decisões no mundo material ficará muito mais fácil depois de ter um relacionamento mais íntimo com o mundo sobrenatural. Faça essa experiência!



[1] O nome científico desse fenômeno é analema

photo credit: tj.blackwell <a href="http://www.flickr.com/photos/8185633@N07/4679548147">Brain of the Sistine Chapel</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

photo credit: StarryEarth <a href="http://www.flickr.com/photos/65131760@N06/14597630538">rutan02-001</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

QUAL HERANÇA VOCÊ DEIXARÁ?


Estamos vivendo num tempo de pandemia onde as pessoas foram forçadas a encarar, mais de perto, a morte e as suas consequências. Algumas pessoas começaram a se preocupar em “deixar as coisas em ordem”, para o caso de virem a morrer. Procuraram organizar a documentação de seus bens materiais e esboçar uma eventual partilha, pensando também em evitar discussões entre os herdeiros, que normalmente são seus entes mais queridos.

Infelizmente o que mais vemos hoje são disputas entre os herdeiros. Não importa se o falecido é rico ou pobre, a grande maioria das vezes, existe briga e discussão por causa da herança. E, se não há bens para serem divididos, ainda pode haver briga para ver quem pagará as despesas com o funeral... Isso dentro da própria família!

Essa triste realidade me fez pensar sobre que tipo de herança eu gostaria de deixar para meus filhos. Qual é a herança que realmente importa e fará diferença na vida deles? Sabemos que os bens materiais são importantes para a nossa sobrevivência, mas o que realmente importa, aquilo que efetivamente irá trazer a felicidade duradoura, é a herança espiritual.

Da mesma forma que podemos partilhar nossos bens terrenos, também podemos partilhar os nossos dons espirituais, aquelas graças que recebemos continuamente durante toda a vida para buscar realizar a missão que Deus Pai nos confiou. Desde o nosso batismo, fazemos parte do Corpo Místico de Cristo. Como membros desse Corpo, tudo o que fizermos de bem, reflete em todos os outros membros, principalmente naqueles que mais amamos.

O testemunho que vemos na vida de muitos santos é que a busca pela santidade é “contagiante”. Aqueles que lutaram para viver heroicamente as virtudes, buscando afastar seus defeitos e imperfeições, puderam experimentar também aqui na Terra, a influência desse estilo de vida para as pessoas que mais amavam. Santa Rita de Cássia conseguiu a conversão do marido e a salvação de seus filhos. Santa Mônica também viu a conversão de seu marido e a santidade de seu filho Agostinho, que se tornou Doutor da Igreja. Santa Zelia e São Luis Martin são os pais da grande doutora da Igreja Santa Terezinha do Menino Jesus. Entre suas outras quatro filhas, todas religiosas, também há mais uma, Leonie Martin, que está em processo de beatificação.

Assim, a melhor herança que podemos deixar para os nossos descendentes é o nosso esforço para desenvolver todos os talentos que Deus nos confiou para cumprirmos nossa missão. É mostrarmos que o tempo que estamos por aqui passa muito rápido e que deve ser usado para construir nossa morada no Céu. Quando partirmos, não levaremos nada daqui, a não ser as boas obras que fizemos, justamente esse anseio por amar cada dia mais e melhor a Deus e ao nosso próximo. O mais incrível é que esses mesmos bens espirituais que apresentaremos ao nosso Pai Eterno, o Justo Juiz, no dia de nossa morte, são aqueles que também podemos deixar para os nossos herdeiros e que efetivamente vão ajuda-los em sua caminhada rumo ao Céu.

Da mesma forma que podemos fazer crescer os bens materiais que recebemos como herança de nossa família, também podemos fazer crescer e aperfeiçoar a herança espiritual. Se não recebemos muitos bens espirituais, se nossos antepassados não tiveram as oportunidades e os conhecimentos que possuímos para crescer espiritualmente, temos a obrigação de melhorar essa herança para nossos filhos. Afastar aquilo que não é muito bom, eventualmente quebrar algum círculo vicioso e construir sobre o alicerce da graça. Precisamos assumir essa responsabilidade sabendo que, como disse o Pe. José Kentenich, “o teu ser e a tua vida repercutem neles: determinam sua desgraça ou aumentam a sua felicidade”.

Sozinhos nunca conseguiremos. Mas temos todo um Céu que reza e intercede por cada um de nós. Temos uma Mãe Santíssima que cuida, nos educa, nos conduz pela mão. Temos a Igreja, que nos dá os sacramentos, que nos fortalecem e nos santificam nessa caminhada. Temos também a promessa de que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.” (Rm 8,28) Procuremos amar a Deus com todo o nosso ser e demonstrar esse amor através do amor ao próximo, para assim deixarmos uma santa herança.


 photo credit: Dawlad Ast <a href="http://www.flickr.com/photos/60072593@N05/30327576363">Tumbas de la familia Gordon y Charlton</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>