Este blog tem por finalidade fornecer material para aprofundamento pessoal e espiritualidade familiar, ajudando as famílias a conviverem harmoniosamente e seus membros serem verdadeiramente felizes.
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
O DESEJO É FUNDAMENTAL
sábado, 29 de julho de 2023
ENVELHECER: PRESENTE DE DEUS
Vivemos
em uma época em que envelhecer é considerado um grande mal a ser evitado.
Procedimentos estéticos de todos os tipos prometem a eterna juventude. As
roupas, modo de falar, atitude dos jovens são adotadas por pessoas de todas as
idades. Ninguém mais quer parecer idoso. Até os pronomes de tratamento “senhor”
e “senhora” são vistos de maneira negativa.
O
problema desse modo de viver é que as pessoas não querem enxergar a realidade,
as circunstâncias da vida que fazem parte de sua existência. Assim, vivem no “mundo
da imaginação” e perdem a oportunidade de efetivamente deixar sua marca na
história, principalmente na história daqueles que convivem com elas.
Cada
fase da vida tem sua beleza, seus desafios, sua importância para o
amadurecimento. O jovem tem muita disposição e vigor físico, mas sua
imaturidade e impulsividade pode atrapalhar a tomada de decisões coerentes. A
pessoa mais velha, pela experiência dos anos vividos, deveria ser o ponto de
referência, o farol para que o jovem se oriente melhor nas decisões de sua
vida. Então num mundo onde só há jovens, onde os mais velhos querem ser sempre
jovens, todos acabam ficando perdidos e sem saber por onde ir.
Outra
desvantagem dessa “eterna juventude” é que se perde a razão pela qual Deus
permitiu que a pessoa ficasse velha: aprender a se desapegar. No processo de
amadurecimento espiritual, devemos aprender a ir aos poucos nos desapegando das
coisas materiais, que são passageiras, para nos fixar no que realmente importa:
a vida eterna.
Quem
está demasiadamente apegado às coisas e às pessoas tem muita dificuldade em se
entregar a Deus, em entender a transitoriedade dessa vida terrena, de saber que
um dia vai deixar para trás esse corpo mortal e todas as coisas materiais. Quem
tem essa visão materialista da vida, pensando que a felicidade completa se tem
aqui nesse mundo, perde a oportunidade de realmente se preparar para a vida em
plenitude, que começa com a nossa morte.
E
para nos ajudar nesse difícil processo, Deus criou a velhice. Com a velhice,
nosso corpo pouco a pouco vai se deteriorando, ficando mais fraco, mais feio e
tudo isso acontece para nos lembrar que o mais importante não é a matéria, mas
a alma imortal. Seria extremamente difícil para o ser humano entender essa
dinâmica do desapego se nunca envelhecêssemos.
Uma
pessoa jovem, em pleno vigor físico, não encara a morte como uma passagem para
uma vida melhor. A morte é uma tragédia, afinal o jovem está vivendo o agora de
uma maneira exuberante. Porém, o idoso percebe melhor a vida indo embora e tem
a capacidade (ou pelo menos deveria ter) de abraçar a morte como uma amiga que
o levará aos braços do Criador.
Vamos
encarar a velhice como ela realmente é: uma grande graça! Uma oportunidade para
aprofundarmos nosso amor a Deus e às pessoas que nos cercam. Claro que não é
fácil; não é gostoso ver a vida e o vigor indo embora, mas devemos abraçar a
velhice como um processo pedagógico que o Pai usa para nos preparar para o
nosso encontro com Ele e a vida eterna.
terça-feira, 30 de maio de 2023
PARE DE RECLAMAR! NOSSA VIDA É MUITO FÁCIL
Sim, tenho certeza de que nossa vida é muito fácil e tentarei
demonstrar... Vamos pensar: há 100 anos, não havia luz elétrica, banheiro com
descarga e a expectativa de vida no Brasil era de 33 anos! E no mundo industrializado
não passava de 47 anos... Muito provavelmente você que está lendo esse post, ou
já estaria na eternidade, ou muito próximo de chegar a ela.
Tudo bem, 100 anos é bastante tempo. Vamos pensar então em 50
anos: em 1973, para fazer uma chamada telefônica era necessário utilizar um
telefone fixo. E para receber também! Para aquecer seu jantar, era preciso
ligar o fogão. Para mudar os poucos canais existentes na TV era preciso
levantar e apertar o botão. Não existia controle remoto.
O desenvolvimento tecnológico nos últimos anos facilitou
muito a vida de todos nós. Mesmo as pessoas mais desfavorecidas e pobres, hoje
tem mais condições de conseguir se alimentar bem, do que alguém que era da realeza
no século XVIII. O avanço na medicina aumentou muito a expectativa de vida, que
está em torno de 77 anos aqui no Brasil e pode chegar a 88 anos no Japão.
Pensar que o gênio da música, Mozart, morreu aos 35 anos por causa de uma
infecção na garganta...
Apesar de todas as facilidades que o mundo moderno nos
proporciona, ainda nos sentimos insatisfeitos e com vontade de reclamar. Qual
será a razão disso?
O primeiro motivo é que não paramos para refletir sobre a
nossa realidade. Nossa tendência é olhar sempre para aquilo que ainda não
temos, para quem tem mais que a gente ou que tem coisas melhores, mais beleza,
mais inteligência, mais poder... E isso gera insatisfação, certa revolta e muita
reclamação.
Esquecemos o valor da gratidão, de enxergarmos tudo o que
somos e temos, tudo o que já conquistamos, já vencemos. Essa atitude de estar
sempre insatisfeito, reclamando, pode adoecer a nossa alma e nos privar das
pequenas alegrias do dia a dia. Quem está desgostoso da própria vida, não enxerga
o sorriso e os olhos brilhantes do filho quando chega em casa; não consegue
admirar um pôr-do-sol; não percebe uma gentileza no trânsito ou no ambiente do
trabalho. Além disso, a reclamação constante pode aumentar o nível de stress do
nosso corpo, prejudica a memória, deixa o corpo mais cansado, reduz a
autoestima.
Outro motivo mais profundo que nos motiva a reclamar é que,
no fundo de nossa alma, temos um desejo que não pode ser plenamente satisfeito.
Toda reclamação é oriunda da insatisfação de um desejo, então, mesmo sem ter
muita consciência sobre esse desejo mais íntimo, como percebemos que ele não
será satisfeito, acabamos por reclamar.
Esse desejo é a sede pelo infinito, pelo eterno. Toda alma
foi criada com essa sede, essa espécie de “saudade de Deus”, para que possamos
durante a nossa vida, buscá-lo. E como disse Sto. Agostinho: “Inquieto está
nosso coração enquanto não repousa em Ti”. Esse desejo só será plenamente
realizado o dia em que pudermos estar com o Criador no Céu.
O que fazer até lá, então? Precisamos mudar a chave do nosso
olhar, começar a admirar os inúmeros “milagres” do nosso dia a dia e agradecer.
Se você acordou hoje, agradeça, tantos não tiveram esse privilégio e já estão na
eternidade. Se o seu país está em paz, agradeça, quantos irmãos sofrem o
flagelo da guerra. Se você está com saúde, agradeça, tantos sofrem num leito de
hospital. Tudo é motivo para agradecer. Um coração agradecido gera muita paz,
aumenta nossa capacidade de amar e de sermos felizes, mesmo em meio à dificuldades
e frustrações.
quinta-feira, 20 de abril de 2023
O TESOURO DAS INDULGÊNCIAS
Para falar sobre as indulgências, primeiro é necessário falar sobre o pecado e suas consequências. O pecado é uma desordem, uma atitude de rebeldia contra as normas estabelecidas por Deus que tem por finalidade nos conduzir à plena felicidade. Cada pecado tem duas consequências: a culpa e a pena. A culpa, ou seja, a responsabilidade subjetiva pela ação pecaminosa, pode ser perdoada na confissão e a pena deve ser reparada com as penitências.
Um exemplo para ajudar a ilustrar o que seria a culpa e a pena de um pecado, é pensar no caso de causar um acidente com o carro de um amigo por uma imprudência. A pessoa pode se arrepender e pedir perdão para o amigo por ter causado o acidente. Porém, mesmo o amigo perdoando, ainda ficam as consequências do acidente: o carro quebrado. Assim, a pena pelo acidente deve ser reparada através do pagamento do conserto do carro.
Da
mesma forma, na confissão, Deus perdoa os nossos pecados, mas ainda assim ficam
as penas, que devem ser reparadas com as penitências. As penas que não forem
suficientemente expiadas enquanto estamos vivos, serão expiadas no Purgatório.
As
indulgências entram para ajudar a reparar as penas devidas pelo pecado e só
podem ser recebidas por quem está em estado de graça (sem pecado mortal).
O
CIC 1471 explica: «A indulgência é a remissão, perante Deus, da pena temporal
devida aos pecados cuja culpa já foi apagada; remissão que o fiel
devidamente disposto obtém em certas e determinadas condições, pela ação da Igreja,
a qual, enquanto dispensadora da redenção, distribui e aplica por sua
autoridade o tesouro das satisfações de Cristo e dos santos» «A indulgência é parcial ou plenária,
consoante liberta parcialmente ou na totalidade da pena temporal devida ao pecado» «O fiel pode lucrar para si mesmo as
indulgências [...], ou aplicá-las aos defuntos»
O
poder para conceder indulgências foi dado à Igreja pelo próprio Jesus quando
disse a S. Pedro: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares
na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado
nos céus" (Mt 16,19). E repetiu depois para os discípulos: "Em
verdade vos digo: tudo o que ligardes sobre a terra será ligado no céu, e tudo
o que desligardes sobre a terra será também desligado no céu.”" (Mt
18,18)
De
onde surgiu a ideia das indulgências?
No
início do cristianismo, as pessoas tinham uma consciência mais delicada com
relação ao mal que o pecado representa, então as penitências eram muito pesadas
e públicas. Podiam durar meses ou até anos.
Pela
realidade da comunhão dos santos, os penitentes iam até os futuros mártires,
que estavam presos em virtude da fé, e pediam a eles que oferecessem o martírio
em remissão dos pecados dos penitentes. Assim, os mártires assinavam uma carta,
que era levada ao bispo, e o penitente ficava livre de sua penitência. Havia
uma transferência para o pecador arrependido o valor satisfatório dos
sofrimentos do mártir.
Tesouro
dos méritos da Igreja
Chamamos
de “tesouro dos méritos da Igreja” os bens espirituais da comunhão dos santos,
ou seja, o preço infinito e inesgotável as expiações e méritos de Cristo oferecidos
para que a humanidade seja liberta do pecado e chegue à comunhão com o Pai e
também orações e boas obras da bem‑aventurada Virgem Maria e de todos os
santos, que se santificaram pela graça de Cristo, seguindo as suas pegadas, e
que realizaram uma obra agradável ao Pai; de modo que, trabalhando pela sua
própria salvação, igualmente cooperaram na salvação dos seus irmãos na unidade
do corpo Místico (CIC 1476 e 1477)
A
vida e as obras dos santos foram mais que suficientes para remir as penas de
seus pecados, então todo o excedente vai para o tesouro espiritual da Igreja.
Assim, a Igreja concede as indulgências tirando desse tesouro espiritual dos
méritos de Cristo e dos santos.
Qualquer
oração ou obra que a Igreja atribua indulgência tem um valor dobrado: o da obra
em si e o valor equivalente concedido pela indulgência.
INDULGÊNCIA
PARCIAL E INDULGÊNCIA PLENÁRIA
A
indulgência parcial apaga parte das penas devidas por nossos pecados. A
quantidade da pena apagada pela indulgência parcial depende do maior ou menor
grau de amor com que fazemos a obra enriquecida pela indulgência.
A
indulgência plenária apaga todas as penas devidas por nossos pecados. Isso
significa que se morrermos logo após receber essa indulgência, vamos
diretamente para o Céu, pois não teremos penas a pagar no purgatório.
Apesar
de cumprir todas as condições, na prática é muito difícil ter certeza se
realmente recebemos a indulgência plenária, porque é necessário estar
absolutamente desprendido de todo pecado deliberado, o que exige uma dor sincera
por todos os pecados cometidos, tanto veniais como mortais e o propósito de
evitar daí para a frente até o menor pecado. De qualquer forma, pelo menos a
indulgência parcial está garantida, no caso de não recebermos a plenária.
As
condições para se receber uma indulgência plenária são: confissão sacramental,
comunhão eucarística e orações nas intenções do Papa. Essas condições podem ser
cumpridas em dias diversos daquele em que se fez a obra prescrita, mas a
comunhão e oração pelo Papa devem ser feitas no mesmo dia. Não há uma regra
expressa sobre a distância entre o dia da confissão e o da obra indulgenciada, mas
o costume é que seja entre 8 e 15 dias no máximo (antes ou depois). Claro, sem
ter cometido pecado mortal nesse período. Com uma só confissão, pode-se obter
várias indulgências.
A
Igreja concede muitas indulgências plenárias, então precisamos aproveitar ao
máximo.
Quem
pode receber as indulgências?
Podemos
lucrar as indulgências para nós mesmos ou para as almas do purgatório. Como é
uma liberalidade da Igreja que necessita que a pessoa queira receber e esteja
em condição de receber, não é possível lucrar indulgência para outra pessoa que
esteja viva.
As
indulgências que recebemos para nós, podemos ter certeza de sua aplicação para
a nossa alma, pois está dentro da autoridade da Igreja. Para as almas do
purgatório, devemos confiar na misericórdia de Deus. As indulgências nunca são
perdidas. Se não vai especificamente para a pessoa para a qual pedimos, outra
alma recebe. Em virtude dessa incerteza, podemos oferecer mais de uma vez a
indulgência plenária para o mesmo defunto.
A
indulgência plenária pode ser recebida somente uma vez por dia (exceto em
perigo de morte). As indulgências parciais podem ser recebidas várias vezes ao
dia.
Exemplos
de indulgências
O
manual das indulgências (Enchiridum Indulgentiaram) elenca várias obras
indulgenciáveis, então vale a pena verificar todas elas. Aqui elencamos apenas
algumas:
-
Concede-se indulgência parcial ao fiel que se abstém de coisa lícita e
agradável, em espírito espontâneo de penitência
-
Concede-se indulgência parcial ao fiel que visitar o Santíssimo Sacramento para
adorá-lo; se o fizer por meia hora ao menos, a indulgência será plenária.
-
A comunhão espiritual, feita em qualquer fórmula piedosa, é enriquecida com
indulgência parcial.
-
Concede-se indulgência parcial ao fiel que se dedica a ensinar ou aprender a
doutrina cristã.
-
Oração o Terço: para a indulgência plenária determina-se o seguinte: 1. Basta a
reza da terça parte do Rosário, mas as cinco dezenas devem-se recitar juntas.
2. Piedosa meditação deve acompanhar a oração vocal. 3. Na recitação pública,
devem-se anunciar os mistérios, conforme o costume aprovado do lugar; na
recitação privada, basta que o fiel ajunte a meditação dos mistérios à oração
vocal.
São
muitas oportunidades que temos durante o dia de recebermos indulgências, então
uma dica é, na oração da manhã, já pedir a Deus todas as indulgências que se
pode lucrar naquele dia, acrescentando a oração do pai nosso e ave maria nas
intenções do Papa.
CRÉDITO DA FOTO: Foto de Ashin K Suresh na Unsplash
sexta-feira, 24 de março de 2023
ENFRENTAR O SOFRIMENTO EM PÉ
Sofrer faz parte da nossa vida.
Desde o nascimento, que é uma grande aflição tanto para o bebê quanto para a
mãe, até a hora de nossa morte, que será nosso último momento de dor, sofremos.
Alguns sofrem mais, outros sofrem menos, mas é impossível viver sem esses
constantes companheiros: dor e sofrimento.
A origem desse mal foi o pecado
original. O plano de Deus para o ser humano era uma existência sem dor e sem
morte, mas, pela desobediência e orgulho de nossos primeiros pais, o sofrimento
passou a fazer parte da nossa vida. Assim, a questão levantada é: é possível
sofrer bem? É possível fazer com que o sofrimento se transforme em benefício
para nós?
A experiência me diz que é
possível, pois há pessoas que enfrentam os maiores sofrimentos e não perdem a
paz nem a alegria. Outras, porém, face a alguma dor, podem sucumbir e se
desesperar. A minha impressão é que nos tempos passados, quando não havia tanta
tecnologia à disposição e a vida diária era muito mais difícil do que a que
vivemos hoje, as pessoas eram mais resilientes, suportavam melhor as dores e as
amarguras. E hoje, a chamada “geração Nutella” não suporta o menor contragosto.
Certamente a vida ter se tornado
mais fácil é um fator que contribui para que as pessoas fiquem mais fracas
frente às adversidades. Mas não é só isso: a grande maioria das pessoas não enxerga
um sentido para o sofrimento, então, não importa se ele é grande ou pequeno, a
pessoa se abate e muitas vezes não deseja mais continuar vivendo.
Dessa forma, para podermos enfrentar
o sofrimento em pé, com fortaleza e coragem, o primeiro passo é entender que
todo sofrimento, seja ele consequência de nossas atitudes ou permitidos diretamente
por Deus pelas circunstâncias da vida, são destinados a nos tornarem pessoas
melhores e mais fortes. É uma das formas que Deus tem de chamar a nossa atenção
para Ele, para voltarmos nosso olhar e nossos corações para o Pai, suplicando
sua ajuda e cuidado.
Outra função do sofrimento é nos
ensinar a amar mais e melhor. A única maneira que posso provar meu amor por
alguém ou que me sinto verdadeiramente amada, é quando sofro pelo outro ou vejo
o outro sofrer por mim. O sofrimento é uma forma de me desprender do meu
egoísmo, do meu orgulho, dos meus gostos, para mostrar como aquela pessoa que
amo é importante para mim.
Então, se acolho as dores e angústias
de minha vida como um chamado do Pai a me entregar inteiramente em suas mãos
amorosas, tudo fica mais leve, fica mais fácil. Ver que aquele momento que estou
passando faz parte do plano de amor do Pai para a minha vida, que tem um único
objetivo: estar um dia com Ele na glória do Céu. Para ir para o Céu, é preciso
aprender a amar de verdade e o amor verdadeiro requer o aniquilamento de si
mesmo para se entregar inteiramente a quem amo. E Deus, sendo Amor, sabe
retribuir com alegrias indescritíveis àqueles que se entregam totalmente a Ele.
Claro que amar assim não é fácil
e se dependesse apenas da minha vontade, de fazer sacrifícios voluntários,
nunca aprenderia a amar, pois meu egoísmo é muito grande. A bondade infinita do
Pai, então, permite os sofrimentos para que aprenda mais rapidamente e mais
eficazmente, esse processo do amor, que se esvazia para receber do outro o
melhor. E o próprio Deus nos deu o exemplo de como amar de verdade: se encarnou
e deu sua vida por mim, por você, por cada um de nós, para provar seu amor e
para nos possibilitar estarmos um dia na alegria eterna do Céu. Uma só gota de
sangue de Jesus seria suficiente para salvar a humanidade toda, mas para o amor
infinito dele por nós, não era suficiente. Quis dar todo o seu sangue e passar
pelas maiores dores e humilhações para nos mostrar o quanto nos ama e nos quer
junto dele.
Uma cena da Paixão de Cristo
sempre me intrigou: por que somente S. João ficou em pé sob a Cruz? Como ele,
que era o mais jovem dos apóstolos, teve essa força extraordinária de
acompanhar os últimos momentos de vida de seu Mestre amado? A resposta mais
obvia para mim foi porque ele estava junto com a Virgem Maria. Foi Maria
Santíssima que o ajudou a suportar tanta dor e sofrimento, que ela mesma estava
sentindo de maneira superabundante. Perto de Maria, foi possível ficar em pé em
meio a tão grande sofrimento.
Então, precisamos aprender com S.
João: nos momentos de angústia, de dor, de sofrimento, peçamos colo à Mãe de
Deus. Peçamos a ela que nos acompanhe nos momentos de tribulação, que nos dê as
forças necessárias para aprender tudo o que o Pai quer nos ensinar com os
sofrimentos que permite para nossas vidas. Maria, como boa mãe, fará de tudo
para que nosso sofrimento seja aliviado e que não sejamos abatidos pela dor. A
Mãe cuida de tudo perfeitamente bem.
sexta-feira, 10 de março de 2023
A SEGUNDA CONVERSÃO
Na Quarta Feira de Cinzas, quando
recebemos as cinzas em nossa fronte, fomos convidados: “Convertei-vos e crede
no Evangelho”. Mas será que realmente precisamos de conversão? Afinal já
estamos na igreja, participamos da santa missa pelo menos aos domingos e dias
santos, já ouvimos o chamado de Jesus e respondemos: “aqui estou”. Recebemos os
sacramentos do batismo, primeira eucaristia e até o crisma; cumprimos os
mandamentos da Igreja de pagar o dízimo, confessar pelo menos uma vez por ano,
fazer jejum e abstinência de carne na Quarta Feira de Cinzas e na Sexta-Feira
Santa. Então como assim eu preciso de conversão? Esse chamado não é só para os
pecadores, aqueles que estão fora ou afastados da Igreja?
O que é a segunda conversão?
Na verdade, para aqueles que já
tem uma vida espiritual, de caminhada dentro da Igreja e cumpre os mandamentos,
o chamado é para uma segunda conversão. É como passar da infância para a
adolescência da fé. O Pe. Garrigou Lagrange explica: “Os autores
espirituais, com frequência, têm escrito também sobre esta segunda conversão,
necessária para um cristão que, após ter pensado seriamente na sua salvação e
ter-se esforçado por caminhar no caminho de Deus, recomeça a cair, pela ladeira
de sua natureza, numa certa tibieza, como uma planta que foi enxertada, mas que
tende a voltar para o estado selvagem”.[1]
A segunda conversão dos Apóstolos
Os Apóstolos também passaram por
essa segunda conversão. Todos foram chamados pessoalmente por Jesus e deram seu
“sim” à missão. Eles foram testemunha de toda a pregação do Reino de Deus, viram
os milagres, foram ordenados sacerdotes na última ceia e receberam pela
primeira vez a sagrada eucaristia. Mas na hora da Paixão, do sofrimento, quase
todos abandonaram seu Mestre. S. Pedro, o primeiro Papa, chegou a negar Jesus por
três vezes.
Através desse sofrimento que experimentaram
testemunhando a Paixão, cada um deles (a exceção de Judas Iscariotes, que não
acreditou na infinita misericórdia do Pai), arrependidos de sua covardia de
abandonarem Jesus, passaram pela segunda conversão. S. Pedro, através do olhar
de Jesus após a negação, teve a perfeita contrição e foi curado de sua presunção,
tornando-se mais humilde. S. João, o único que por uma graça especial teve
forças para permanecer aos pés da cruz, se converteu ao ouvir as últimas
palavras de Jesus antes dele entregar seu espírito.
Assim, um a um dos apóstolos, no
período entre a Paixão e depois da Ressurreição, foram se convertendo pela
segunda vez e abrindo os olhos, compreendendo realmente o que significa ser
cristão, como está narrado na passagem dos discípulos de Emaús, que reconheceram
Jesus no partir do pão.
Chamado a aprofundar a fé e o
amor
Da mesma forma que os apóstolos
precisaram passar por uma segunda conversão, também nós somos chamados a aprofundarmos
nossa fé e nosso amor a Jesus. São as nossas imperfeições que exigem essa
segunda conversão, especialmente nosso amor próprio, nossa tendência a querer
fazer tudo do nosso jeito, impondo nossa vontade. Esse amor-próprio desordenado
é fonte de muitos pecados veniais, por isso é necessária essa purificação.
Apesar de ser o melhor para a
nossa alma, Deus respeita imensamente a nossa liberdade e espera o nosso “sim”
ao seu chamado para buscarmos a perfeição, a santidade. Ele sabe que o amamos,
mas ainda somos demasiadamente apegados a nós mesmos, aos nossos gostos e
vontades. E para sair desse estado, é preciso deixar Deus agir em nossa alma, através
da purificação dos sentidos.
Essa purificação se dá através de
um conhecimento experimental de nossa miséria e de nossa profunda imperfeição,
como nos diz Sta. Catarina de Sena, junto com uma certa aridez da alma, um
afastamento sensível de Jesus, sem sentir consolação ou gosto na prática da
oração e atos de piedade. É preciso que o Senhor se afaste um pouco da alma,
para que ela consiga se desapegar de si mesma e das coisas desse mundo, para
estar pronta a se entregar inteiramente ao Pai.
Frutos da segunda conversão
Nos ensinamentos do Pe. Garrigou
Lagrange “os frutos desta segunda conversão são, como aconteceu com S.
Pedro, um começo de contemplação pelo entendimento progressivo do grande
mistério da Cruz ou da Redenção, entendimento proveniente do valor infinito do
Sangue do Salvador derramado por nós. Com esta contemplação nascente, há uma
união com Deus mais livre das flutuações da sensibilidade, mais pura, mais
forte, mais contínua.”[2]
Podemos experimentar alegria e maior paz em nossa alma, mesmo em meio às
adversidades. Experimentamos realmente que Deus nos ama e cuida de cada detalhe
de nossas vidas.
Como chegar a essa segunda conversão?
Mas como chegar a essa segunda
conversão? Deus é extremamente gentil e não fará nada sem o nosso consentimento,
então precisamos pedir a graça desse aprofundamento na fé e no amor. “Senhor eu
creio, mas aumenta a minha fé” (Mc 9, 24). Pedir a fé é a única oração que
podemos ter certeza absoluta de que será atendida, porque esta é a vontade do
Pai para cada um de nós, que tenhamos fé. E pedir para amar mais e amar melhor
a Deus é um pedido que certamente lhe agrada, pois aos poucos nos tornaremos
menos egoístas e menos centrados em nossos desejos, para estarmos livres para
servir melhor a Deus e ao próximo.
Aproveitemos esse tempo de
Quaresma, onde somos chamados a aprofundar nossa vida de oração, a olharmos
para nós mesmos, para nossa alma e ver o que precisa ser mudado, e peçamos a
graça dessa segunda conversão.
[1] LAGRANGE, Garrigou “As 3 vias e as três
conversões”, 4ª edição, Ed. Permanência, pg. 41
[2] LAGRANGE,
Garrigou “As 3 vias e as três conversões”, 4ª edição, Ed. Permanência, pg. 54
Crédito da foto: pixabay.com
sábado, 4 de fevereiro de 2023
VOCÊ É A SUA HISTÓRIA
“Quem é você?” Normalmente quando ouvimos essa pergunta, respondemos com nosso nome e sobrenome. “Eu sou a Flávia Ghelardi”. O nosso nome revela a nossa identidade, a forma como somos conhecidos e identificados em nossa sociedade. E o sobrenome nos vincula a uma família, a uma descendência. Algumas vezes, dizer só nosso nome não é o suficiente para a pessoa entender quem somos, então acrescentamos nossa profissão, ou nossa filiação, ou nossa condição de ser pai ou mãe de alguém, ou amigo, ou parente, ou fazer parte de alguma comunidade, enfim, falamos algo que faz parte da nossa história.
Assim, para a pergunta “quem é você?” há todo um leque de possibilidades de respostas além do nosso nome e todas essas respostas fazem parte de quem nós somos. Cada um de nós nasceu em um determinado dia, em uma família específica, em uma cidade determinada, em um país que tem uma língua que foi a que aprendemos para nos comunicar. Nascemos em uma determinada época da história da humanidade e ao longo de nossa existência fizemos algumas escolhas e sofremos as consequências das escolhas de outras pessoas para sermos quem somos hoje.
Desta forma, se cada um de nós pode ser definido como a sua história, qual é a história que você quer contar? A história da nossa vida teve um começo, está em seu desenvolvimento e um dia terá um fim. Não é uma história pronta e acabada e muito menos já tem um desfecho definido. Cada um de nós tem a liberdade para escrever essa história da forma que achar melhor. E quem não assume o protagonismo da própria história, acaba sendo levado pelas histórias dos outros e ao fim da sua vida percebe que “foi vivido”, mas efetivamente não “viveu”.
É muito fácil se deixar levar pela rotina, pelos acontecimentos e simplesmente ir reagindo conforme as coisas vão acontecendo. Saber qual história se está vivendo, ter um plano, um ideal, uma missão requer esforço e dedicação. Exige fazer escolhas nem sempre fáceis. Precisa de fidelidade e de um eterno recomeçar. Mas tudo aquilo que realmente tem valor, custa um esforço e viver sem ter um sentido é uma experiência muito frustrante.
O ser humano, diferente dos animais, não se sente realizado apenas com a satisfação dos instintos, como é o caso dos animais. Comer, beber, se divertir, ter relações sexuais, terminar um projeto, tudo isso é muito bom, mas não preenche, não traz felicidade. Como disse Sto. Agostinho “meu coração está inquieto enquanto não repousa em Ti”.
Precisamos aprender a contar nossa história. E o primeiro passo é saber que existe Alguém que é o Senhor da história, e que nos colocou nesse mundo para que vivamos com um objetivo, um propósito claro: um dia estar com Ele no Paraíso. Saber onde queremos chegar facilita a escolha do caminho a seguir.
Para chegar a esse fim, existem vários caminhos que podemos escolher seguir, várias narrativas ou maneiras de contar nossa história. Cada um precisa refletir e ver qual caminho se identifica mais, para qual deles possui mais aptidão. Por exemplo, existe a narrativa daquele que busca cumprir fielmente o seu dever, que deseja obter os meios materiais para seu sustento e o sustento da sua família. Ele sabe o valor objetivo das coisas, enxerga a realidade e quer ter prosperidade. Sente-se mais realizado quando coloca seus dons e talentos a serviço dos outros. Os comerciantes, os prestadores de serviços e profissionais liberais tendem a escolher esse tipo de narrativa.
Outra narrativa pode ser daquele que tem um anseio para coisas mais subjetivas, como ser nobre, leal, justo, honrado. A sua luta no dia a dia é para viver de acordo com essas virtudes, para servir não só a sua família, mas toda a comunidade. Esse tipo de narrativa é normalmente escolhida por militares, bombeiros e policiais. Aqui entraria também a vocação a política, mas a verdadeira política, aquele que entra no serviço público realmente para fazer o bem para a comunidade e não pensa em si mesmo.
Mais uma forma de narrar nossa história é daqueles que tem um anseio pela busca da Verdade, por entender as coisas e tem o desejo de partilhar o que aprenderam com outras pessoas. Gostam do estudo, tem vocação intelectual e estão sempre em busca do que é verdadeiro, belo e bom. Os sacerdotes, professores, filósofos normalmente escolhem esse tipo de narrativa.
Não há narrativa melhor ou pior, cada um tem o chamado para seguir um caminho. O importante é saber qual o caminho e ser fiel a ele. As narrativas que fazem sentido e que trazem uma certa sensação de realização são aquelas que buscam viver a vida para além de si mesmo, para além da busca do prazer e da fuga da dor, que é típica dos animais.
Quem sabe qual tipo de história está narrando, ao final de cada dia consegue saber se o que fez ou o que deixou de fazer, está de acordo com sua história, se está sendo fiel ao caminho que escolheu seguir. Saber que história está contanto ajuda no momento de fazer escolhas e tomar decisões. E, no final da vida, seja ele quando for, poderá prestar contas do que fez com os talentos recebidos para o Justo Juiz.






