Mostrando postagens com marcador casamento. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador casamento. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

MEIA IDADE – MUITO MAIS QUE UMA CRISE

 

Esse artigo foi escrito pela minha amiga Sarah Damm, que com muita generosidade permitiu que eu traduzisse e publicasse aqui. Se desejar, pode ver o post original em: https://blessedisshe.net/blog/midlife-more-crisis/

Era o meu 46º aniversário. Não havia muita festa, porque era uma quarta-feira. E os aniversários no meio da semana podem ser difíceis de fazer numa família ocupada de oito pessoas, com atividades escolares, esportivas e de grupos de jovens. Eu sabia que iríamos comemorar no fim de semana que se aproximava, e eu realmente estava bem com isso.

Então, por que me senti tão triste ao me arrastar para a cama?

Sentir-me melancólica por causa do meu aniversário me fez dar uma volta. Sempre gostei do meu aniversário, e a idade nunca me incomodou. Entrei na casa dos 30 e 40 anos sem nenhum desejo de ser mais jovem do que eu era. E, de fato, tive a tendência de olhar para o ano que se aproximava - mais velho (e esperançosamente mais sábio) - com contentamento.

O que fez com que fazer 46 anos fosse tão diferente? Por que "senti" minha idade de uma maneira que realmente me fez sentir velha? E o que me fez sentir uma tristeza pela vida que eu não tinha sentido antes?

Entrando na meia-idade

Durante os meses seguintes, meu marido e eu tivemos várias conversas sobre as mudanças que estávamos vivendo em nossas próprias vidas, em nosso casamento e em nossa família. Ambos nos sentimos um pouco trêmulos e incertos, como se de repente nossas vidas se sentissem estranhas para nós. Percebemos que o que costumava funcionar não funcionava mais. Nossos ritmos e rotinas normais não mais se sentiam suaves. Ao invés disso, estávamos dando choques na estrada e caindo em alguns buracos bem largos.

Além disso, nossa comunicação estava se tornando irregular e não intencional. E estávamos perdendo oportunidades de crescer juntos nesta nova estação da vida.

Embora não tivéssemos muitas respostas, nós nos rendemos ao fato de termos entrado na meia-idade.

E nos perguntamos: e agora?

Mais para a meia-idade do que uma crise

Fazendo uma simples busca na Internet, a terminologia mais comum em torno da estação de meia-idade é "crise".

Isso não é horrível? E desanimador? Por que esta estação da vida (e não outras) tem que ser referida como uma crise? E a crise é inevitável?

Talvez a meia-idade seja descrita como uma crise porque parece que vem do nada. Um dia, a vida continua como tem sido nos últimos 20 anos. E no dia seguinte, a vida parece muito diferente.

A mudança, no entanto, acontece com o tempo. Mas a agitação da vida nos distrai das mudanças que estão ocorrendo.

Eu pessoalmente noto mudanças de meia-idade em três áreas da minha vida:

1.Maternidade

2.Casamento

3.Missão

Maternidade

À medida que meus filhos terminam o ensino médio e entram na vida adulta, meus filhos em idade escolar estão cada vez mais ocupados com a escola, amigos e empregos de meio período. Todos eles ainda precisam de mim, mas essa necessidade é diferente e certamente mais infrequente. E embora eu ainda seja chamada para estar disponível, também tenho mais tempo em minhas mãos. O tempo que costumava ser preenchido com tanta facilidade agora está pronto para algo... Mas o quê?

Casamento

Olho para meu marido do outro lado da mesa e não consigo me lembrar da última vez que tivemos uma conversa profunda sobre algo que não fossem crianças, horários e finanças. Quem é este homem bom e piedoso? Quero me reencontrar com ele, mas não sei como. Parece que há muito a dizer e não há tempo suficiente para dizer tudo.

Missão

E depois há os objetivos que ainda não foram atingidos. O livro que eu não escrevi. Os lugares que ainda não visitei. Será que eles continuarão sonhos? Chegou a hora de sonhar de novo? Qual é o chamado de Deus para mim? E algo me impede de cumpri-lo?

Da crise ao dom

Enfrentar oportunidades para me redescobrir, me reencontrar com meu marido e redefinir minha maternidade é ao mesmo tempo emocionante e avassalador.

Mas por onde eu começo? Como isso vai funcionar?

Recentemente, fui lembrada que a aridez na oração é simplesmente a maneira de Deus preparar a alma para uma experiência mais profunda dEle. Como um fazendeiro cultiva o solo antes de plantar uma nova cultura, o Senhor limpa a paisagem de nossos corações antes de começar um novo trabalho em nós. Da mesma forma, Deus usa a aridez na oração para aumentar nossa consciência sobre Ele ou reacender nosso desejo por Ele. Naquele terreno recém lavrado, podemos não ver muito desenvolvimento, mas o trabalho oculto do agricultor é vital para o crescimento da nova safra.

Da mesma forma, a meia-idade pode parecer um deserto ou um lote de terra recém-lavrado, mas essa secura ou vazio é simplesmente a maneira de Deus nos preparar para algo mais. Ele está nos convidando a prestar atenção a quem Ele é e o que Ele está fazendo. Ele está nos mostrando que Ele é a resposta às nossas perguntas, e que nossas necessidades e desejos serão atendidos Nele.

Esta perspectiva nos permite perceber a meia-idade não como uma crise, mas como um presente.

Lemos em Eclesiastes 3,1: “"Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo do céu". Diz ainda que Deus "fez tudo bonito em seu tempo".

Isto confirma que a meia-idade não é uma crise. Ao contrário, é um tempo e uma coisa debaixo do céu. É uma estação intencional para entrar "para um tempo como este" (ver Ester 4:14). E se torna o catalisador para Deus cultivar nossos corações para algo novo.

Você não percebe isso?

Como fazemos a mudança da crise para o dom? Como reconhecemos a beleza desta estação?

Aqui estão quatro maneiras de aprender a abraçar a meia-idade como um dom e reconhecer as bênçãos ao longo do caminho.

1. Rezar com a Escritura

Além das Escrituras citadas acima, aqui estão alguns versículos a serem levados à oração durante esta estação da vida.

"O deserto e a terra árida se regozijarão. A estepe vai alegrar-se e florir. Como o lírio ela florirá, exultará de júbilo e gritará de alegria. "Isaías 35,1-2

"Não vos lembreis mais dos acontecimentos de outrora, não recordeis mais as coisas antigas, porque eis que vou fazer obra nova, a qual já surge: não a vedes? Vou abrir uma via pelo deserto, e fazer correr arroios pela estepe." Isaías 43,18-19

"Estou persuadido de que aquele que iniciou em vós esta obra excelente lhe dará o acabamento até o dia de Jesus Cristo." Filipenses 1,6

2. Prestem atenção

Enquanto estamos destinados a estar presentes a nosso momento de meia-idade, é também um momento para observar onde estivemos e contemplar a direção que estamos seguindo.

* Seja grato pelo passado.

* Reconcilie feridas que eu infligi ou recebi.

* Convide o Senhor a escrever certo por linhas tortas.

* Fique quieto e saiba que Ele é Deus (ver Salmo 46:10).

* Espere no Senhor, mesmo que eu ainda não consiga ver o que Ele está fazendo.

Renovar Sua Vocação

Embora a vida não seja mais o que costumava ser, Deus nos convida a recuperar nossa identidade Nele e descobrir novas maneiras de viver isso.

       - Esteja atenta a novas maneiras de amar e apoiar o filhos adultos.

       - Com relação ao tempo, concentre-se na qualidade sobre a quantidade. 

       - Peça ao marido que vá dar uma caminhada.

       - Escreva-lhe um bilhete de amor

      -  Inscreva-se para um retiro silencioso.

       - Acomode-se em uma oração mais silenciosa e contemplativa.

Vamos caminhar juntos

Sinto-me encorajada a não me acanhar de falar da meia-idade. Pode ser estranho e cru, porque é uma estação tão nova para mim. Eu não tenho nada descoberto, mas estou aprendendo à medida que vou caminhando. E podemos caminhar juntos, lado a lado, com o Senhor como nosso guia, conduzindo-nos através do dom que é a estação da meia-idade.

 

 


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

MATRIMÔNIO: ENTREGA TOTAL



A definição do sacramento do matrimônio, segundo o Catecismo da Igreja Católica, é “o pacto (...), pelo qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenado por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole” (No. 1601)

Da expressão “comunhão íntima por toda a vida” podemos entender que o matrimônio é irrevogável e exige uma entrega total de um cônjuge ao outro, sem a qual é impossível haver uma comunhão. Hoje em dia é muito difícil as pessoas entenderem esse conceito de entrega total, pois vivemos numa sociedade  egoísta, onde o “eu” está em primeiro lugar.

Porém, para que seja possível um matrimônio feliz, é importante que tanto o marido como a mulher estejam dispostos a se entregarem totalmente um ao outro e façam esse exercício durante toda a vida matrimonial. Sem exigir nada em troca, procurando cada dia dar um pouco mais de si, pois foi isso que prometeram um ao outro, no altar, diante de Deus.

No dia do casamento, na verdade, não entregamos nada ao outro, apenas fazemos a promessa de sermos fiéis, na alegria e na tristeza, na saúde ou na doença, em todas as circunstâncias que a vida apresentar, até a morte. É preciso levar essa promessa a sério, pois é dela que depende a própria felicidade, a felicidade do outro e principalmente a felicidade dos filhos, frutos desse amor conjugal.

O amor não é um sentimento, mas um compromisso de trabalhar e cuidar do outro; é como uma fogueira que precisa ser continuamente alimentada com pequenos gravetos, senão, apaga. E esses gravetos são os sacrifícios que fazemos pelo bem do outro, matando o nosso egoísmo para fazer o outro feliz.

Como prometemos uma entrega total, não podemos colocar nenhuma condição para ela. As condições que normalmente aparecem e nos tentam são as seguintes:

- condições de tempo: não tenho tempo para dedicar ao meu cônjuge, sempre tem algo mais importante para fazer, como cuidar dos filhos, da casa, da família estendida, do trabalho. Preciso ter a consciência de que meu marido (minha esposa) é a minha primeira prioridade. Se não cuidar disso, tudo mais desmorona.

- condições de disposição: “agora não posso porque estou cansada(o)”. Ou seja, só faço algo para agradar ou cuidar do outro quando estou disposto. Essa condição também revela que o “eu” vem antes do “tu” e não ajuda a construir um matrimônio saudável.

- condições de gosto: “não faço isso porque não gosto”, é mais uma expressão do egoísmo que mata o amor. Devo procurar fazer o que agrada ao outro, mesmo que não seja agradável para mim.

- condições para perdoar: “só perdoo se me pedir desculpa” ou “só perdoo se fizer isso ou aquilo”. O perdão tem que ser sempre incondicional. Perdoo porque amo e ponto! Perdoo porque também preciso de perdão. Preciso buscar o autoconhecimento para enxergar que também tenho defeitos que o outro acaba por suportar. Quem se dá conta da miséria pessoal tem mais misericórdia dos defeitos alheios.

Essa entrega total não é possível se contarmos apenas com nossas próprias forças. Nossa natureza é egoísta em virtude da mancha do pecado original, então somente com a graça de Deus e a graça específica que recebemos no dia do sacramento do matrimônio é que podemos ser vitoriosos nessa luta.

Quando contraímos matrimônio, a aliança não é apenas entre o marido e a mulher, mas entre ambos e Deus. Então, precisamos sempre recorrer a esse parceiro essencial de nossa aliança matrimonial pedindo todas as graças necessárias para vivermos o sacramento da forma que ele foi sonhado para nós. Podemos contar também sempre com a ajuda de Nossa Senhora, que desde as bodas de Caná, ajuda os cônjuges para que não falte nada, principalmente o vinho do amor verdadeiro.


photo credit: _.Yann Cœuru ._ <a href="http://www.flickr.com/photos/132252613@N08/28917891918">Wedding  day</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/">(license)</a>

quarta-feira, 9 de maio de 2018

DA CASTIDADE NASCE O AMOR


Castidade e amor, duas palavras tão mal interpretadas nos dias de hoje. Castidade normalmente está relacionada com repressão, falta de liberdade, puritanismo. E o amor muitas vezes é confundido com paixão, sexo, sentimento espontâneo que não exige esforço. Porém, existe uma íntima relação da castidade, entendida como a capacidade de adiar a satisfação de um desejo, com o amor conjugal verdadeiro e duradouro, que pode ser entendido como a capacidade de sacrificar a si mesmo para o bem e a felicidade do outro.

A natureza humana é tanto animal como espiritual. Possuímos corpo e espírito. O nosso corpo, para se manter vivo, possui alguns instintos básicos, como se alimentar, descansar e se reproduzir. O instinto sexual, portanto, faz parte da nossa natureza, porém, ao contrário dos outros animais, que não tem espírito e por isso não tem a capacidade de controlar seus instintos, deve ser conduzido para a realização plena (corpo e espírito) e não apenas para a satisfação imediata do corpo.

Todos temos o anseio por nos realizarmos, por sermos felizes e essa realização pessoal vai muito além da realização de nossos instintos físicos. Não basta estarmos alimentados, vestidos, descansados para nos sentirmos realizados. A realização espiritual do ser humano só acontece na medida em que se sente útil, importante, que faz diferença. E isso só se dá através dos relacionamentos que construímos durante nossa vida. O ser humano é um ser que precisa se relacionar, não foi criado para viver isolado.

O amor é a forma mais sublime do relacionamento humano, pois vai muito além de querer bem o outro, ou se alegrar com a companhia. O amor verdadeiro nos impulsiona a desejar fazer o outro feliz e somente amando dessa forma, nos livrando do egoísmo que quer nos aprisionar em nossos próprios desejos, é que nos sentimos realizados. Mas como aprendemos a amar dessa forma?

Vamos falar aqui especificamente do amor conjugal. Os outros tipos de amor (materno/paterno, filial, de amizade, etc) também precisam sem aprendidos, mas a forma é um pouco diferente e podemos falar disso em outro post. O amor não é instinto, precisa ser ensinado e aprendido. O instinto relacionado ao amor conjugal é o da atração para a satisfação do desejo sexual. Esse desejo sexual pode ser de três tipos: “vênus”, “eros” e reprodutivo.

O desejo tipo “vênus” é aquele mais animal, que quer o corpo do outro para a própria realização. Aqui não importa a pessoa, com suas qualidades intelectuais e afetivas, apenas o seu corpo. É o instinto mais primitivo.

O desejo tipo “eros” (ou cupido), é o “filho de vênus”, ou seja, parte desse primeiro instinto que quer só o corpo, para desejar também a alma, os sentimentos, os afetos. É a paixão, que envolve a pessoa como um todo.

Porém, “vênus” e “eros” ainda não estão completos, porque quando o relacionamento com a pessoa ultrapassa a fase da paixão, amadurece e quer ver aquele sentimento prolongado no tempo, através dos filhos. Assim, para chegarmos ao verdadeiro amor conjugal, a pessoa precisa, através do uso da razão, saber administrar esses três tipos do desejo sexual.

E é aqui que entra a castidade. Qualquer instinto primário que é imediatamente satisfeito, gera um certo repúdio para aquilo que o satisfez. Se estamos com muita fome e comemos um enorme prato de feijoada, estando satisfeitos não conseguimos nem mais olhar para o prato de comida. O mesmo acontece com o desejo “vênus”. Se a atração pelo corpo é satisfeita logo com a relação sexual, o natural é que, em breve, esse “corpo” que me satisfez me cause repulsa. E aí vou procurar outro corpo que me satisfaça, entrando num ciclo vicioso que jamais irá me realizar plenamente.

Adiar a satisfação do desejo sexual gera o interesse pela pessoa e não só pelo corpo. A castidade faz com que o instinto saia da fase puramente animal e se torne mais humano. O interesse passa a ser para uma pessoa específica, essa que me atraiu primeiramente pelo corpo, mas em virtude da castidade, fez com que me interessasse também pelo espírito.

A castidade permite ainda que a pessoa passe a considerar a satisfação do instinto sexual reprodutivo, ou seja, ter filhos com a pessoa amada e ajuda os dois a enxergarem que a forma mais adequada de satisfazer esse instinto é através do casamento. O casamento é um compromisso assumido publicamente que deve garantir a união daquele homem e daquela mulher, por toda a vida. Uma união exclusiva que tem como finalidade o bem dos filhos.

Os filhos são a prova que os dois se tornaram uma só carne. Com os filhos aprendemos a nos doar totalmente para o outro, sem esperar nada em troca. Aprendemos a amar de verdade, a nos sacrificarmos pelo bem do outro. Amando os filhos, aprendemos cada dia a amar mais o cônjuge.


E esse amor verdadeiro nasce da castidade. Sem a castidade, nos tornamos cada vez mais egoístas, pensando apenas na própria realização, em usar o outro para o meu prazer. Essa atitude a longo prazo (às vezes nem tão longo assim) traz frustação e infelicidade. Ser casto não é ser reprimido. Ser casto é aprender a controlar uma satisfação imediata tendo em vista a felicidade futura. Aprender a ser casto é aprender a amar. 

photo credit: taylormackenzie <a href="http://www.flickr.com/photos/34442610@N06/32526976670">Cupid's lunch break</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-sa/2.0/">(license)</a>

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

MEDO DE FILHO

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais aversão a crianças, chegando agora ao extremo de muitos estabelecimentos, como restaurantes, pousadas e hotéis, não permitirem a entrada dos pequenos, reforçando o estilo de vida “child free”, ou seja, sem filhos.

Infelizmente nossa sociedade hoje não enxerga os filhos como dons, como presentes, mas como um “mal necessário”, como um fardo, como fonte de despesas sem fim. Essa aversão aos filhos também é fruto de uma mentalidade que busca o prazer, mas não aceita suas consequências. É fruto do egoísmo onde o bem estar pessoal está acima do que é o bem comum, o bem da família, o bem da sociedade. 

Todos nós, de alguma forma, estamos contaminados por essa visão antinatalista e precisamos tomar o cuidado de enxergar quando estamos aderindo a essa mentalidade e tentar nos livrar dela. Precisamos nos questionar se usamos a expressão “evitar filhos”, ou “correr o risco de engravidar”, ou ainda se falamos sobre “como é difícil educar os filhos hoje em dia”, “como filho dá despesa”, “não vejo a hora deles crescerem e saírem de casa”.

Como reagimos quando um casal nos comunica uma gravidez? Sempre nos alegramos, ou ficamos pensando “nossa, nestas condições eles não deveriam engravidar...”. Ou, “coitada, está gravida de novo!”, “corajosa, você, hein?!”. Pensamos que ter muitos filhos hoje em dia é coisa de “loucos” ou irresponsáveis? 

Agindo dessa forma acabamos também influenciando nossos próprios filhos. Institivamente, quando são pequenos, o que mais pedem é irmãos, porém, com o passar do tempo, acabam aderindo a essa mentalidade e podem já falar que filho dá despesa, dá trabalho, que não querem ter muitos filhos, ou até nem querem casar. 

Vede, os filhos são um dom de Deus: é uma recompensa o fruto das entranhas.Tais como as flechas nas mãos do guerreiro, assim são os filhos gerados na juventude. Feliz o homem que assim encheu sua aljava: não será confundido quando defender a sua causa contra seus inimigos à porta da cidade (Salmo 127, 3-5)

Não há nada mais sublime do que ser cocriador, com Deus, de almas imortais! Quando Deus nos chama para o matrimônio, está nos chamando para ajudá-lo a povoar o Céu de santos. Precisamos aprender a confiar em sua infinita sabedoria e bondade e saber que ele só enviará os filhos que formos capazes de cuidar e educar. 

Ninguém em sã consciência se negaria a receber um presente valiosíssimo, como um diamante raro, de seu próprio pai. Muito menos não gostaria de receber 4, 5 ou 10 desses diamantes. Se pensamos assim com relação a um bem material, por que nós não pensamos da mesma forma com relação aos filhos, verdadeiros dons preciosíssimos, sendo cada um seres únicos e irrepetíveis, com uma alma que dura para sempre?

Porém não conseguiremos nos imunizar dessa cultura sozinhos. Precisamos entregar essa situação nas mãos de nossa querida Mãe e Rainha para que ela nos eduque e nos ajude a seguir esse caminho da confiança filial. Peçamos a ela uma confiança inabalável na Divina Providência, para que nos libertemos do medo de filho, do medo de nossa fertilidade. Só assim seremos verdadeiramente livres e capazes de influenciar positivamente a nossa cultura.

photo credit: jaci XIII <a href="http://www.flickr.com/photos/34700343@N08/35968250704">What will it be?</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>



quinta-feira, 8 de junho de 2017

TROCANDO O MEU PELO NOSSO



“O amor deve facilitar-nos a dar pelo outro tudo quanto nos é caro”. Essa frase do Pe. José Kentenich deveria ser lembrada diariamente por todo casal que luta para ter um matrimônio feliz. Nosso compromisso como esposa, como esposo é buscar fazer o outro feliz. O amor nos levou até o altar, onde prometemos ser fiéis a esse compromisso não importa o que a vida nos apresentasse daquele dia em diante.

Todos sabemos que isso não é nada fácil. O maior inimigo da nossa felicidade é a minha felicidade. Sim, o contrário do amor não é o ódio, mas o egoísmo. Toda vez que coloco a minha realização pessoal, a minha vontade, os meus projetos acima do que é o melhor para a nossa família, estou minando a nossa felicidade.

Desde a fundação da nossa família, precisamos lutar dia a dia para trocar o meu pelo nosso. É um processo longo e doloroso, afinal todo mundo nasce egoísta, pensando em si mesmo, no seu prazer, no seu bem estar, na sua sobrevivência. Faz parte do desenvolvimento humano passar de uma mentalidade imatura de criança que quer tudo para si, para o amadurecimento do adulto que sabe que vivemos em comunidade e que precisamos buscar o bem comum.

Assim, não deve existir o meu carro, mas o nosso carro, que será usado para o bem da família. Não existe o meu salário, mas o nosso salário que será usado da forma que melhor sirva as necessidades da família. Também não existe o seu filho (é, na hora que a criança apronta, o filho é seu e não meu), é o nosso filho que precisa ser educado tanto pelo pai como pela mãe.

Os problemas também não são meus, são nossos. As conquistas não são minhas, são nossas. A promoção também é nossa. A doença é nossa também, mesmo que o tratamento seja feito apenas em um, mas os dois sofrem juntos.  A decisão de comprar ou vender é nossa. E aquele parente chato? É nosso.

Mas então quer dizer que precisarei me anular para ter um casamento feliz? Claro que sim!!! Vou procurar anular a cada dia aquela parte de mim que quer satisfazer a si mesmo em primeiro lugar, anular aquelas imperfeições que incomodam tanto meu cônjuge, anular a vontade de fazer tudo do meu jeito, não me preocupando se é o melhor para a nossa família.

Ser pai e ser mãe ajuda muito nesse processo de amadurecimento do amor. Quando o filho chega, um serzinho tão indefeso que precisa da gente para absolutamente tudo, vivenciamos na prática o que significa anular a si mesmo para o bem do outro. E quanto mais filhos, mais rápido crescemos na construção da nossa felicidade.

Sozinho é muito difícil conseguir abrir mão do meu para o bem do nosso, mas as graças que recebemos através do Sacramento do Matrimônio nos ajudarão nessa jornada. Devemos sempre pedir a Deus que aprendamos a amar como ele nos ama: ele deu a sua própria vida para a nossa salvação.


photo credit: Caaru <a href="http://www.flickr.com/photos/34882354@N02/15679677086">Save The Date</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/">(license)</a>

terça-feira, 6 de junho de 2017

O QUE É PRECISO PARA SER ABERTO À VIDA


No último post, falei sobre a minha recente descoberta do que realmente significa ser aberto à vida, que é deixar Deus, em sua amorosa providência, determinar o número de filhos que cada família é chamada a educar. Quem defende essa ideia atualmente é taxado, no mínimo, de louco ou irresponsável, pois vivemos numa cultura totalmente antinatalista. Porém, como essa é a verdadeira doutrina da Igreja Católica e representa realmente o plano de Deus para o matrimônio e a família, vale a pena lutar para assumir essa verdade em nossas vidas.

O primeiro passo é se convencer que Deus efetivamente pede a todo casal que entregue em suas mãos amorosas e providentes sua fertilidade, deixando a seu encargo o número de filhos que deverão trazer ao mundo. Para isso, você pode se aprofundar na leitura da encíclica Humanae Vitae, especialmente o No. 10; a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, No. 50, a atual encíclica Amoris Laetitia, No. 14 e 84, um livro excelente da Kimberly Hahn, “O amor que dá a vida” e alguns posts que já indiquei (veja aqui e aqui).

Depois, é necessário um amadurecimento da nossa fé prática na Divina Providência, ou seja, conseguir efetivamente sentir que Deus é Pai que nos ama infinitamente e não permitirá que tenhamos mais filhos do que possamos criar adequadamente. Confiar, confiar e confiar. E só crescemos na confiança, confiando. Intensificando nossa vida de oração, de meditação do amor de Deus por nós (aqui tem uma orientação de como meditar), frequência aos sacramentos, especialmente da Eucaristia e da Confissão. Ajuda muito ouvir testemunhos de famílias numerosas que colocaram na prática esse ensinamento. Acreditem: elas não são tão raras de encontrar, basta procurar um pouco!

Uma coisa que me chamou a atenção e que parece um pouco contraditória é a seguinte: se somos chamados a confiar totalmente na Providência Divina e deixar somente Deus decidir o número de filhos que devemos ter, qual é a razão da Igreja aceitar o uso dos métodos naturais quando existem graves razões? Deus também não cuida dos casos graves?

Bom, aqui entra a grandeza da Igreja que é Mestra, mas principalmente Mãe. Ela sabe que Deus não exige mais do que cada um possa suportar. E para cada pessoa, pede um grau de heroísmo diferente. Assim, todos são chamados a confiar cegamente na Divina Providência, mas nem todos conseguem isso imediatamente e necessitam de meios para caminhar nessa direção. Logo, quando efetivamente existem razões graves para se adiar uma gravidez, é lícito ao casal recorrer aos períodos infecundos para as relações sexuais e desta forma, buscar, de uma maneira natural e de acordo com a moral sexual, que a gravidez não ocorra.  

Acredito também que os métodos naturais, mais especificamente o Método de Ovulação Billings (MOB), pode se um caminho para se chegar a abertura total à vida. Pode ser que um casal não consiga, de uma hora para outra, parar com os contraceptivos e entregar sua fertilidade nas mãos de Deus. Então, pode começar por usar o MOB ainda adiando uma gravidez, pois, ao menos, não estariam mais colocando nenhuma barreira física ou química em suas relações sexuais. Já estariam se entregando totalmente um ao outro e não estariam violando as promessas que fizeram no altar.  

Com o passar do tempo, refletindo a cada ciclo se realmente possuem graves razões para adiar uma gestação, o casal pode crescer na confiança filial na Divina Providência e chegar à conclusão de que não precisam mais de gráficos e tabelas e que podem celebrar seu amor sem maiores preocupações.


Enfim, é importante ter em mente que ser aberto à vida não significa de que terão muitos filhos. A fertilidade é um dom muito frágil e que varia muito durante a vida. Conheço casais que nunca utilizaram nenhum tipo de contraceptivo e tem somente dois ou três filhos. Outro fator é que as pessoas estão casando mais tarde, por volta dos 30 anos, o que diminui muito a quantidade de filhos que naturalmente podem conceber. Então, não há o que temer! Devemos buscar fazer sempre a vontade de Deus e confiar que Ele fará tudo perfeitamente bem, para a nossa salvação e a salvação de nossos filhos! 

segunda-feira, 20 de março de 2017

CASAR PRA QUÊ?

Muitos casais hoje se afastam do sacramento do matrimônio não encontrando nenhuma razão para se casar na Igreja. E muitos outros só casam na Igreja por causa da festa, ou do sonho de entrar na igreja de véu e grinalda. Mas afinal, qual é a importância para um casal receber esse sacramento?

Ninguém casa para ser infeliz, isso é fato mais do que evidente. Mas o que é necessário para sermos felizes? Só existe um caminho para a verdadeira felicidade, aquela que completa o nosso coração e nos deixa extasiados, mesmo se estivermos passando pelas maiores dificuldades e sofrimentos. A única maneira de sermos realmente felizes é se descobrirmos e buscarmos viver o ideal para o qual Deus nos criou. Se não buscarmos cumprir nossa missão, a razão pela qual fomos criados e existirmos, não encontraremos nunca a felicidade. Poderemos até ter muitos prazeres, mas felicidade real não.

Tendo isso em mente, o autor Gregory Popcak afirma que só existe uma única razão para se casar que garante uma vida longa de felicidade e torna o casamento relevante e que se os noivos não tiverem isso em mente, é melhor nem casar mesmo. Mais do que amor e companheirismo, a função real do matrimônio cristão é para marido e mulher se ajudarem mutuamente a se tornarem as pessoas que Deus os criou para serem.

A real dignidade do matrimônio cristão vem da promessa de passar cada dia de suas vidas descobrindo e realizando suas identidades em Cristo. Em outras palavras, o casamento é trilhar o caminho para o Céu com um companheiro.

Através do matrimônio, Deus dá a cada um de nós uma responsabilidade sagrada: preparar seu esposo, sua esposa para passar a eternidade no Céu com Ele. Deus diz a cada pessoa que se casa na Igreja: “Eu estou escolhendo você para ter um papel central na santificação de seu esposo, de sua esposa. Ele ou ela talvez não consiga se santificar sem você. Certifique-se de que seu esposo, sua esposa se santifique com você.”

Essa responsabilidade não deveria ser surpresa para você, porque a santificação é o trabalho principal de qualquer sacramento. Quando você se casa na Igreja, você está reconhecendo que daquele dia até o dia da sua morte, Deus te fez responsável, abaixo apenas do trabalho salvador de Jesus Cristo e do livre arbítrio de seu cônjuge, de ver que seu marido ou sua esposa se torne a pessoa que Deus o(a) criou para ser. E você está reconhecendo que você sinceramente acredita que tem uma chance melhor, com seu cônjuge do que sem ele ou ela, de se tornar tudo o que Deus pretende que você seja.

Porém Deus não nos dá essa grande responsabilidade e nos abandona para nos virarmos sozinhos. Aí é que vem a grande ajuda do sacramento do matrimônio. O sacramento que recebemos no dia do casamento nos dá todas as forças necessárias para cumprirmos essa missão. Esse sacramento tem o poder de santificar o vínculo entre marido e mulher e assim, ajudar a cada um dos cônjuges a se santificar também.

Sempre que estivermos passando por alguma dificuldade no matrimônio devemos recorrer ao sacramento do matrimônio, às graças que recebemos e continuamos receber todos os dias de nossa vida de casados. Na prática, devemos lembrar em nossas orações do sacramento que recebemos, pedindo a Deus que pela força desse sacramento, envie as graças necessárias para superarmos as crises que enfrentamos.

Outra forma de lembrar que temos direito a essas graças, é renovarmos, ao menos por ocasião do aniversário de casamento, as promessas que fizemos diante do altar. Falar novamente ao esposo, à esposa: “Eu te recebo por minha esposa, por meu esposo e te prometo ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te e respeitando-te todos os dias de minha vida.”


Assim, quando alguém perguntar por que casar, você pode responder que o sacramento do matrimônio é a forma pela qual Deus quer dar a você uma pessoa que ficará responsável por toda sua vida a ajuda-lo a ser realmente feliz, a cumprir a sua missão aqui na terra para um dia poder gozar da alegria eterna no Céu. Quer razão melhor??

terça-feira, 26 de abril de 2016

A VISÃO CATÓLICA DO SEXO

Estamos rodeados por uma cultura muito erotizada, que banaliza o sexo e grita por aí: “Curta a vida! Faça sexo com quem você quiser, quando você quiser. Conceda o máximo de prazer a si mesmo e quando tiver usado e abusado dos seus amantes, jogue-os fora e troque-os por outros!” Essa é a mensagem da sociedade onde chamar uma mulher de recatada torna-se uma ofensa.

Muitas pessoas tem a visão equivocada que a Igreja Católica é uma entidade repressora, que condena o prazer, principalmente o prazer sexual. Porém estão completamente errados. Conforme Gregory Popcak explica em seu livro Beyond the Birds and the Bees, São João Paulo II mostrou claramente em sua Teologia do Corpo qual é a visão católica do sexo. Vamos explorar aqui algumas questões levantadas nesse livro.

O sexo estimulado por nossa cultura não é vital, porque é abertamente hostil à nova vida. Ao invés de vir de uma amizade espiritual profunda entre duas pessoas, ele procura substituir e subverter aquela amizade. Ele não melhora com o tempo (na verdade, ele enfraquece), porque nenhuma intimidade real pode existir na falta de uma amizade espiritual. Sem intimidade, qualquer relação sexual se torna, com o tempo, entediante e menos interessante. Ele não resiste ao conflito e ao stress porque nessa versão da sexualidade, o conflito não deveria existir, apenas o êxtase maravilhoso. E no primeiro sinal de problema, então, a paixão morre e o casal se separa.

Para a visão católica, esse tipo de sexualidade nem de longe expressa a verdadeira sexualidade. Ela é apenas erotismo e/ou masturbação na presença de outra pessoa. A versão verdadeira da sexualidade é aquela que Deus pretendeu quando nos deu nossa sexualidade. É infinitamente mais real, mais bonita e mais satisfatória do que essas imitações esfarrapadas que o mundo tenta nos impingir.

A sexualidade católica, oferece algo completamente diferente:

* oferece aos esposos a chance de amar e ser amado (ao invés de usar e ser usado) da maneira que mais ansiamos
* oferece ao casal a liberdade de serem divertidos e alegres de uma maneira que nunca é degradante ou humilhante
* permite que o casal experimente a relação sexual tanto como um sinal físico da paixão que Deus tem pelo casal como um prenúncio do êxtase divino que nos espera no Paraíso
* permite ao casal comunicar todo o seu ser físico, emocional, espiritual e relacional, um ao outro, todas as vezes que fazem amor
* convida o casal a renovar suas promessas matrimoniais com a “linguagem de seus corpos” – e celebrar seu sacramento – todas as vezes que fazem amor
* oferece proteção contra doenças e corações partidos
* encoraja o casal a celebrar um amor tão poderoso, tão profundo, que em muitos casos, “o amor precisa receber seu próprio nome em nove meses”
* encoraja o casal a considerar em oração os planos de Deus para suas vidas a cada mês, perguntando se Deus os está chamando para expandir sua “comunidade de amor” ao estarem abertos a adicionar mais uma vida a sua família
* desafia a capacidade de vulnerabilidade do casal e os ajuda a superar a culpa básica que toda a humanidade experimentou depois do pecado original. Ela contribui para preparar que eles permaneçam, completamente expostos, ante nosso divino Amante quando chegarem ao Banquete Nupcial do Cordeiro com Deus – no Paraíso.

O discurso da Igreja sobre o sexo é mais ou menos esse: “É claro que você deve se divertir e curtir a vida. Para fazer isso, você deve ter certeza de encontrar um parceiro que possa amá-la apaixonadamente, respeitosamente, poderosamente e em oração da mesma forma que o próprio Deus quer que você seja amada. Encontre alguém que pense, fale e aja como se você fosse seu maior tesouro. Então mantenha aquela pessoa para o resto de sua vida como seu grande tesouro ao lado de Jesus Cristo e sua própria vida. Encontre um amante que queira ajudá-la a se tornar a pessoa que Deus criou você para ser, que olhe para você e veja seus filhos ainda não nascidos em seus olhos e que saiba controlar a si mesmo para que você não se sinta usada ou ameaçada e então você possa se doar totalmente. Encontre alguém que encoraje você em todas as coisas que você quiser fazer e todas as coisas que Deus está lhe chamando a ser.”

A sexualidade católica é difícil de viver. Ela envolve disciplina, trabalho, sacrifício, autocontrole, mas também é a única forma de viver a sexualidade onde alguém possa esperar encontrar verdadeira alegria, verdadeiro amor divino, verdadeira realização, verdadeira confiança, verdadeira vitalidade e verdadeira felicidade.


photo credit: <a href="http://www.flickr.com/photos/12239756@N03/22136529849">IMG_8433</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

segunda-feira, 20 de abril de 2015

AS FINALIDADES DO MATRIMÔNIO E A FECUNDIDADE DO AMOR CONJUGAL

Consoante os ensinamentos de João Paulo II, o amor carnal (sexual) deve expressar a linguagem do amor ágape, ou seja, daquele amor que Cristo tem por cada um de nós.

Este amor possui quatro características. "Primeira: Cristo dá livremente seu corpo ('Ninguém me tira a vida, mas eu a dou por própria vontade' Jo 10,18). Segunda: entrega seu corpo totalmente, isto é, sem resevas, condições ou cálculos egoístas ('até o extremo ele os amou' Jo 13,11). Terceira: dá seu corpo fielmente. ('Estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos' Mt 28,20). Quarta: entrega seu corpo frutuosamente ('Eu vim para que tenham vida' Jo 10,10). Se homens e mulheres souberem evitar as armadilhas do falso amor e viver plenamente sua vocação, a união deles deve expressar o mesmo amor - livre, total, fiel e frutuoso que Cristo expressou.
Outro nome para este tipo de amor é matrimônio. E isto é precisamente o que uma noiva e um noivo fazem diante do altar. Quando o celebrante pergunta:'"Vieste aqui livremente e sem reservas para vos entregardes um ao outro no matrimônio? Prometeis ser fiéis até a morte? Prometeis receber amorosamente os filhos que Deus vos mandar?' Noivo e noiva, cada um, por sua vez, responde: 'sim!'"[1]

Assim, o matrimônio é uma aliança, um contrato pelo qual o homem e a mulher se comprometem a amarem-se com este grau de amor, da mesma forma que Cristo ama a sua Igreja. Para conseguirem isto, o próprio Jesus elevou esta aliança ao nível de Sacramento. Os efeitos principais deste sacramento são: ele dá graças para fortalecer o amor dos esposos, para compreenderem mutuamente seus defeitos, superarem as dificuldades na vida conjugal e na educação dos filhos e, especialmente para santificar os esposos até o fim da vida.
Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “os sacramentos são sinais eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis sob os quais os sacramentos são celebrados significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Produzem fruto naqueles que os recebem com as disposições exigidas”[2]
Os sacramentos foram instituídos por Jesus para ajudar na caminhada rumo ao Céu, para sinalizar este caminho, pois transmitem as graças necessárias para cumprir a missão de cada um.
No caso do sacramento do matrimônio, a graça que se recebe é a santificação do vínculo que une marido e mulher para sempre. A aliança de amor que é selada com o sacramento do matrimônio, este laço que unirá aquele homem e aquela mulher eternamente, se transforma num sinal eficaz da união de Cristo com sua Igreja.
“O matrimônio, segundo o que foi dito, não é a consagração de duas pessoas, mas a consagração do laço que as une. A relação entre ambas é elevada sacramentalmente. Nisso consiste precisamente a sacramentalidade conjugal. O amor que os une e o vínculo que se gera se faz sinal e sacramento. O amor conjugal puramente humano se faz amor consagrado e por isso mesmo já é uma realidade religiosa. A comunidade conjugal entre ambos se faz comunidade de Deus e com Deus. Neste contexto podemos dizer que o amor redentor de Cristo, que desperta em nós uma resposta proporcional, se desdobra no matrimônio através do amor recíproco dos esposos.”[3]
Os esposos, tendo recebido o sacramento do matrimônio, são chamados a ser sinais do amor de Cristo por sua Igreja e do amor da Igreja para o seu Senhor. Quem vê um casal cristão deve poder ver a presença de Deus, sua atuação na vida daquela família. O casal também deve permitir que Deus influencie as pessoas que os rodeia, através de seu matrimônio.

A Igreja defende, em primeiro lugar, a dimensão da comunhão ou finalidade unitiva da sexualidade conjugal, expressa na comunhão de corações e de vontades na relação íntima dos esposos. De outra parte, a Igreja defende, ao mesmo tempo, a finalidade procriativa inerente ao amor conjugal. O amor dos esposos quer ver-se prolongado no filho. Existe neles um anseio natural de se perpetuar criadoramente. Seu amor é transcendente, não estéril.



[1] WEST, Christopher Teologia do Corpo para Principiantes - Uma introdução básica à revolução Sexual de João Paulo II. Ed. Myriam. Porto Alegre. 2008 Pg. 103
[2] Cf CIC No. 1131
[3] “Matrimônio, vocação de amor”, Fernandez, Jaime, pgs. 8-9, impresso como manuscrito – 1989 – Movimento Apostólico de Schoenstatt, Santa Maria/RS
crédito da foto: photopin.com 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

CRIADOS PARA AMAR - ÚLTIMA PARTE

Nos ensinamentos de S. João Paulo II ele procura abordar duas questões humanas fundamentais: 1. O que significa ser humano? 2. Como vivo minha vida de forma a obter a verdadeira felicidade? Para responder a primeira questão temos que olhar para três estágios do drama humano: nossa origem, a nossa história e o nosso destino. Onde estivemos, onde estamos agora e para onde vamos. 

Voltando a nossa origem descobrimos o plano original de Deus para a união dos sexos, quando homem e mulher estavam nus e não sentiam vergonha, porque viviam o perfeito amor de Deus. Porém isso não durou muito. Nós herdamos a vergonha, o que demonstra que para nós é um esforço muito difícil amar à imagem de Deus com nossos corpos. Já não vemos o corpo como uma teologia.

Cristo nos chama através do dom da redenção para vencer a luxúria. A luxúria é uma distorção do apetite sexual. Através do dom da redenção, há um poder real a fluir da morte e ressurreição de Cristo para desatar o que o pecado da luxúria tinha distorcido. Esta é a boa nova com a qual vamos ao mundo. Nós não vamos ao mundo condenando as pessoas pelos seus excessos. Vamos para o mundo demonstrando o que o mundo verdadeiramente anseia, que Cristo nos redimiu e nós podemos viver uma sexualidade redimida. Podemos aprender gradualmente, aceitando nossa cruz e seguindo a Cristo, podemos aprender o que significa amar.

Assim podemos entender a vocação ao celibato e ao matrimônio, as duas vocações fundamentais do cristão. O celibatário não rejeita a sua sexualidade, mas devota todas as suas energias e desejos de união, para o matrimônio definitivo que será no Céu. Os celibatários consagrados revelam ao mundo o propósito fundamental e o significado de nossa sexualidade, pois estamos destinados ao casamento de Cristo com sua Igreja. E agora temos um novo contexto para compreender a união matrimonial. A união matrimonial só faz sentido para o cristão se for vivida de acordo com o plano original de Deus em antecipação ao casamento definitivo de Cristo com a Igreja.

Se a união do homem e da mulher em uma só carne deve ser a imagem da união de Cristo com sua Igreja aqui temos um novo contexto para compreender a Encíclica Humanae Vitae do Papa Paulo VI. Cristo disse: eu vim ao mundo para que minha noiva possa ter vida, e vida em abundância. A Teologia do Corpo significa que o mistério de Deus é revelado através de nossos corpos, através de nossa fertilidade. O amor de Deus dá vida, o amor de Deus gera, é generoso, e por isso Deus nos deus órgãos genitais, para podermos ser imagem de sua generosidade, gerando amor.

Tornar a união estéril é dizer: eu não quero ser a imagem de Deus. Eu não quero amar minha esposa como Cristo ama sua Igreja. "Para que serve realmente a anticoncepção? (...) Os contraceptivos não foram inventados para evitar a gravidez. Já dispúnhamos de um meio cem por cento eficaz, cem por cento seguro para isto - a abstinência. Em última análise, a contracepção tem como objetivo poupar-nos a dificuldade que experimentamos ao ter de optar pela abstinência. Quando toda a fumaça desaparecer, veremos que os contraceptivos foram criados por causa de nossa falta de controle; para justificar nossa entrega à luxúria." (Christopher West, "Teologia do Corpo para Principiantes", pg. 119)

A imagem do esposo deve ser: este é o meu corpo que dou a vós e a imagem da esposa deve ser: faça-se em mim segundo a vossa palavra. Mas se inserirmos a contracepção neste cenário, a linguagem é totalmente diferente, torna-se uma contradição, pois nega esta entrega.

"A contracepção deve ser considerada tão profundamente imoral, que nunca, por razão nenhuma, seja tida como aceitável. Pensar ou dizer o contrário equivaleria a afirmar que, ao longo da vida, podem surgir situações nas quais seja legítimo não reconhecer Deus como Deus. (J. Paulo II, 10.10.1983)

S. João Paulo II disse que o corpo humano na relação sexual é profético. E o que é um profeta? É aquele que proclama o mistério de Deus. E o Papa acrescenta: temos que ser muito cuidadosos para distinguir entre verdadeiros e falsos profetas. Porque se podemos falar a verdade com nossos corpos, também podemos dizer mentiras com nossos corpos. E se escolhermos contar mentiras com nossos corpos, então negamos o valor e o significado da própria humanidade, criada homem e mulher a imagem e semelhança de Deus. Este é o novo contexto que o Santo Padre nos apresenta para compreendermos a Humanae Vitae.


"Quais foram as mentiras que lhe impingiram, as falsidades que engoliu pensando serem verdades? Também aqui precisamos ficar atentos, porque, atrás de tudo, encontra-se o sei anseio por um amor autêntico. O pecado sexual é uma busca de satisfação que nenhuma 'água tônica' consegue saciar. É justamente aqui que Jesus se encontra conosco, sem jamais nos condenar. (...) O pecado fecha para o dom, enquanto a fé abre para o receber e com ele satisfazer-se.Não tenha medo! Jogue bem abertamente a sua sexualidade diante de Cristo. Ele jamais nos despojará de nossa humanidade. Ao contrário, no-la revelará plenamente." (Christopher West, "Teologia do Corpo para Principiantes", pg. 78)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

CRIADOS PARA AMAR - PARTE 4

Ontem, falávamos que no princípio e no fim da Bíblia o casamento de Adão e Eva é uma prefiguração do casamento de Cristo e sua Igreja. É por isso que somos homens e mulheres. Estamos destinados a algo muito maior do que esta Terra pode oferecer. A união dos sexos é tão bonita e maravilhosa como é, é só uma prefiguração de algo muito maior a união de Cristo e a Igreja.

"Nas alegrias do seu amor aqui na terra, Deus lhes dá (aos esposos) um antegozo do festim de núpcias do Cordeiro" (CIC 1642)

Quando perdemos a visão da união fundamental de Cristo e da Igreja, começamos a adorar a imagem, começamos a adorar a criatura em vez do Criador. E por isso, como S. Paulo disse no Capítulo 1 da Carta aos Romanos, quando isso acontece, quando adoramos o corpo humano, em vez daquilo que o corpo nos revela, o divino, então estamos nos entregando à luxúria, à perversão, porque já não compreendemos que a união dos sexos é um mistério sacramental que nos conduz a algo muito maior.

"O estado moral de um povo é avaliado pelo sentimento de decoro de suas mulheres e pelo valor que os homens conferem à nobreza e honestidade da mulher. Quem, para seguir a moda e o cultivo do corpo, romper o véu protetor do sentimento do decoro, despertando os apetites sexuais do homem, cava a ruína de seu próprio povo." (P. Kentenich)

Se a união dos sexos deve ser uma prefiguração do Céu, se deve nos mostrar a realidade eterna da Trindade, por que não a vemos deste modo? O inimigo de Deus quer nos afastar do Céu, assim ele ataca a união dos sexos que deve ser uma prefiguração do Céu. O que é mais sagrado no mundo é o mais profundamente profanado. Atacando isso, o demônio nos confunde e não sabemos mais o que é ser homem e ser mulher, assim nos desconecta com o divino.  Porque é a nossa criação como homem e mulher, chamados a tornarem-se uma só carne que revela ao mundo o mistério eterno escondido em Deus.

A Teologia do Corpo é um forte chamado para reclamarmos o que o diabo plagiou. É uma ilusão pensarmos que podemos construir a cultura da vida, se não reclamarmos o que o diabo plagiou. Se 
quisermos reclamar isso, devemos estar prontos para uma violenta batalha espiritual.

"Desde o pecado original, há profunda cisão entre a vida instintiva, espiritual e sobrenatural. A vida instintiva luta constantemente e com todas as forças contra a vida do espírito. Não quer mais servir, mas dominar. Desde então, o corpo não é súdito dócil, submisso e tranquilo, porém um revolucionário inquieto. A mortificação tem a tarefa de tirar as rédeas do homem instintivo e colocá-las nas mãos do homem espiritual e divinizado." (P. Kentenich)

Não é coincidência que logo depois que S. Paulo explicou em Efésios 5 o significado da união em uma só carne, no Capítulo 6 ele nos chama a pegarmos nossas armas para a batalha espiritual. E a primeira arma que ele diz para pegarmos para ganharmos esta batalha é "cinjam sua cintura com a verdade". Esta "cintura" da qual ele fala são os órgãos genitais. Vivemos numa cultura que nos encoraja a proteger nossa "cintura" com látex.

Precisamos conhecer a verdade sobre a nossa sexualidade, para que fomos criados como homens e mulheres e é esta a arma que precisamos para sermos vencedores na grande batalha espiritual em que vivemos atualmente.


"Os esposos que, pela graça de Deus, se amam conforme o plano original do Criador - e confiam na sua misericórdia quando falham no seu amor mútuo - não precisam temer o teste. Eles estão prontos e dispostos a colocar-se 'entre as forças do bem e do mal (...) porque o amor confia na vitória do bem e está pronto a fazer o que for necessário para garantir sua vitória' (J. Paulo II, 27.06.1984)" (Christopher West, "Teologia do Corpo para Principiantes", pg. 112)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

CRIADOS PARA AMAR - PARTE 3

Continuando nosso estudo sobre a Teologia do Corpo vemos que as Escrituras utilizam muitas imagens para nos ajudar a compreender o amor de Deus por nós e a mais utilizada é do amor nupcial. A união do homem e da mulher numa só carne. E Deus queria que este eterno plano conjugal, fosse tão claro para nós, tão óbvio para nós, que ele inscreveu uma imagem dele nos nossos corpos, fazendo-nos homens e mulheres e chamando-nos a nos tornar uma só carne.

"Deus não depositou o ideal da perfeição humana num sexo, mas o entregou ao homem e à mulher; é por isso que ambos os sexos são chamados a completar-se mutuamente." (Pe. Kentenich)

A união dos sexos, deve ser, em certo sentido, um sinal sacramental, do eterno mistério de Deus, de que o próprio Deus é uma eterna comunhão de amor e de que nós, como homens e mulheres, estamos destinados a tomar parte desta comunhão. Aqui o São João Paulo II traz um enorme desenvolvimento no pensamento católico. Tradicionalmente, os teólogos diziam: somos a imagem de Deus como indivíduos, através de nossa alma racional. Isto é certamente verdade. Mas o Santo Padre se atreve a dar um passo mais longe. Ele diz que não só somos a imagem de Deus como indivíduos, mas também somos a imagem de Deus, através da comunhão do homem e da mulher, que Deus criou desde o princípio.

"Esposos cristãos são vinculados por um tríplice laço: pelos vínculos naturais de união de carne e sangue, pela diferença dos sexos e pelo vínculo sobrenatural do sacramento. Já na aurora da criação, a sabedoria e a bondade de Deus teceram vínculos da união de carne e sangue. Formou Eva, (...) da costela do homem que dormia. Adão reconheceu-o e disse: Eis o osso dos meus ossos e a carne da minha carne. Por isso o homem deixa pai e mãe, para dedicar-se à sua esposa. (...) A experiência de todos os dias comprova a vigorosa união que existe entre as particularidades corporais e anímicas dos dois sexos. Quanto mais acentuada a particularidade, de ambos os sexos, quanto mais viril o homem e mais feminina a mulher, tanto maior será a atração mútua." (P. Kentenich)

E desta forma, o Santo Padre está dizendo, que a própria relação sexual, se torna uma imagem, um ícone, em certo sentido, da vida interior da Trindade. Deus em si mesmo não é sexuado, usamos o amor sexual só como uma analogia, do mistério trinitário. A analogia é frágil. Deus permanece infinitamente transcendente para qualquer imagem ou linguagem humana. Deus não é feito em nossa imagem como homens e mulheres, mas nós somos feitos à Sua imagem como homens e mulheres. Por isso, apesar de Deus não ser sexuado, a nossa sexualidade revela algo no mundo do mistério escondido em Deus. Algo daquela comunhão de amor que dá vida que encontramos na Trindade, não esquecendo que há um abismo infinito entre o Criador e a criatura.

Mas esta união do homem e da mulher revela não somente a eterna comunhão de amor da Trindade, como também revela o nosso destino para tomar parte desta comunhão de amor. E como? Carta aos Efésios Capítulo 5 "por esta razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e os dois serão uma só carne." E depois ele acrescenta: "Isto é um grande mistério".

"Pelo sacramento, o matrimônio se torna imagem e símbolo da misteriosa união entre Cristo e sua Igreja." (P. Kentenich)

Qual é o mistério? A união de Cristo com sua Igreja. Foi Cristo quem deixou seu Pai no Céu, foi quem deixou a casa de sua Mãe na terra, para entregar seu corpo à sua noiva, para que nós, como esposa de Cristo, possamos nos tornar uma só carne com Ele. Onde nós tornamos uma só carne com o noivo Cristo? Na Eucaristia. A santa comunhão do homem e da mulher em uma só carne, desde o princípio, desde o Gênesis deve ser uma prefiguração da santa comunhão de Cristo e sua Igreja.