quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A FELICIDADE DEPENDE DAQUILO QUE TE MOTIVA

 


Fomos criados para sermos felizes e cada ser humano vive nessa constante busca da felicidade. Porém, a intensidade e a duração da sua felicidade dependem das suas motivações.

"Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa.” (Jo 15,11) Jesus já nos ensina que o desejo de Deus para cada um de nós é a completa alegria, a felicidade sem fim. Por causa do pecado, esse tipo de felicidade infinita não é possível enquanto estamos aqui na terra, porém podemos chegar muito perto disso, dependendo das escolhas que fazemos.

A felicidade não é uma coisa estática, como uma foto, mas é um estado de ânimo que depende muito mais de nossas disposições interiores do que de acontecimentos externos. Por isso, dependendo de como buscamos a felicidade, de qual é a nossa motivação, podemos encontrá-la ou não.

Motivação do prazer

Podemos identificar três motivações básicas do homem para buscar a felicidade, segundo Peres Lopes: o prazer, a intelectualidade e a transcendência. A motivação pelo prazer é a motivação mais básica, que os animais também possuem. A pessoa é movida a agir para sentir prazer, como comer, beber, dormir, ter relações sexuais, entre outros. A recompensa por essa ação geralmente é imediata e pode ser muito intensa até, porém essa sensação logo passa. Isso é causada pela dopamina, um neurotransmissor, que está relacionada com esse sistema de recompensa. Quando os neurônios desse sistema são ativados, eles liberam a dopamina em regiões específicas do cérebro, causando o aumento da sensação de prazer.

Com o vazio desse prazer que já passou, a pessoa busca novamente os mesmos estímulos, porém, cada vez precisa de um estímulo maior para ter a mesma sensação e muitas vezes esse tipo de felicidade fugaz vira um vício.

Motivação intelectual

O segundo tipo de motivação é aquela que estimula o intelecto. Não é mais uma motivação externa, como é o caso da busca do prazer e também não é acessível aos animais. O tipo de alegria proporcionada por essa motivação é uma alegria tipicamente humana, de satisfação pelo crescimento das habilidades intelectuais e do desenvolvimento pessoal. Consequentemente esse tipo de felicidade é mais intensa e mais duradoura que a causada somente pelo prazer e a razão disso é que esse tipo de satisfação exige um certo esforço por parte da pessoa. Não é uma satisfação automática que responde a um estímulo. É um processo, muitas vezes penoso, mas que no fim, gera essa alegria mais sóbria. Alguns exemplos são conseguir tocar um instrumento, ganhar uma competição esportiva ou aprender alguma disciplina, como matemática, física, etc.

Motivação transcendente

O tipo mais elevado de motivação que traz realmente uma felicidade mais plena e duradoura é a motivação transcendente, aquilo que vai além das sensações físicas e intelectuais, aquilo que ultrapassa o próprio ser humano, como por exemplo, a busca da glória ou o amor verdadeiro que deseja causar alegria para outra pessoa ou ainda fazer algo que tenha um impacto positivo para muitas pessoas. Esse tipo de motivação ajuda a pessoa a superar qualquer obstáculo, a fazer os maiores sacrifícios e faz tudo isso com uma grande alegria, pois o que busca não é um simples prazer efêmero ou uma conquista intelectual, mas um bem que ultrapassa a si mesmo.

Alguns exemplos desse tipo de motivação é o jovem que dá aulas gratuitas num cursinho da periferia, ou o voluntário que alimenta os moradores de rua ou o pai de família que realiza um trabalho que lhe custa muito, mas que é importante para o sustento de sua família ou ainda aquela pessoa que está disposta a entregar a própria vida por uma causa.

Felicidade duradoura

Assim, para conseguirmos ter essa felicidade duradoura, mesmo em meio ao sofrimento (do qual ninguém escapa), é preciso que nossas motivações sejam mais elevadas, buscando fazer o bem para os outros. “Buscai as coisas do alto” (Col 3,1), já nos orienta São Paulo.

Isso não significa que não possamos sentir prazer. O prazer foi criado por Deus e é uma coisa boa, mas ele não pode ser a finalidade das nossas ações. A motivação mais elevada que podemos ter é aquela do próprio Jesus: fazer em tudo a vontade do Pai (Jo 4, 34; Jo 6, 38). Essa é a alegria de Jesus que ele quer que esteja em nós, para que a nossa alegria seja plena.

Nossa meta: a santidade

A vontade do Pai para cada um de nós é que sejamos santos! Ser santo significa desenvolver todo o potencial para o qual fomos criados e um dia gozar da felicidade plena no Céu. Assim, precisamos conhecer a nós mesmos e vermos quais virtudes precisamos conquistar. Devemos utilizar todos os meios que a Santa Igreja coloca a nossa disposição para alcançarmos a santidade, que são os sacramentos, especialmente o da confissão e o da eucaristia. Buscar uma rica vida interior, com a oração e a meditação da vida diária, enxergando como o Pai se comunica comigo e demonstra seu amor por mim no dia a dia.

Portanto, busquemos a felicidade onde ela realmente está: em uma vida santa, de amor a Deus e aos outros.

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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

NASCEU PARA VÓS UM SALVADOR

 


Até que ponto cada um de nós tem a consciência de que Jesus nasceu para nos salvar? Para salvar a mim?

Há mais de dois mil anos, um anjo anuncia uma grande notícia para toda a humanidade: “nasceu para vós um Salvador” (Lc 2,11). Ela foi dada primeiro a um grupo de pastores, pessoas simples que deixaram seu rebanho e foram até Belém para adorá-lo.

Para os pastores essa notícia chegou de forma extraordinária, com a aparição de um anjo e depois uma corte celestial que cantava o Glória a Deus nas Alturas! Para cada um de nós, provavelmente essa grande notícia foi nos dada por uma pessoa querida, nossa mãe, nosso pai, nossos avós, talvez ainda misturando o nascimento de Jesus com a vinda o Papai Noel para ganharmos presentes.

Então desde cedo sabemos que Jesus nasceu e seu aniversário é uma grande festa. Porém, pode ser que até hoje ainda não nos conscientizamos que esse nascimento foi por minha causa, por sua causa, por causa do amor infinito do Pai para cada um de nós que quer, um dia, estar conosco na alegria eterna do Céu.

E para que o Céu fosse possível para nós, foi preciso que Deus mesmo se encarnasse no seio virginal de Maria Santíssima e nascesse numa pobre gruta em Belém. “Nasceu para vós um Salvador”. Com quanta alegria e gratidão devemos comemorar esse dia! Com quanto amor devemos tentar retribuir esse gesto de amor infinito.

Como posso aumentar essa consciência de que Jesus nasceu por minha causa?

Vivemos numa sociedade materialista, focada no aqui e agora, que não se importa com o transcendente. Então, precisamos nos esforçar para ter essa visão de Céu, de que necessitamos de salvação e de que o Salvador é uma pessoa que me ama e quer se comunicar comigo.

Assim, o primeiro passo é parar e contemplar. Reservar alguns minutos do dia para refletir essa realidade: “Nasceu para vós um Salvador” e Ele está no meio de nós! Olhar a natureza, olhar nos olhos daqueles que amamos e convivem conosco e enxergar o amor e a bondade de Deus através dessas pessoas e de todas as coisas criadas que foram colocadas a nosso serviço.

Podemos contemplar algum acontecimento do nosso dia, da última semana e nos perguntar: o que Deus quer me dizer com isso? O que eu digo a mim mesmo? Como posso responder a Deus? Essas três perguntas nos ajudam a enxergar o agir de Deus em nossa vida concreta, como a Divina Providência conduz os acontecimentos para a realização de Seu plano de amor para a vida de cada um de nós.

Depois, devemos agradecer. Alegrar-nos por estarmos vivos, por termos a capacidade de amar e de ser amados. Agradecer também as dificuldades que servem para nos amadurecer e nos aproximar de Deus, que quer cuidar de cada pequeno detalhe da nossa vida.

E por fim, retribuir. Recebemos tanto todos os dias, podemos tentar retribuir pelo menos um pouco, causando alegria a alguém, ajudando os mais necessitados, fazendo alguma renúncia, oferecendo esse sacrifício para o bem de quem mais amamos.

Desta forma, buscando trazer para a realidade do nosso dia a dia a maravilhosa notícia de que “nasceu para vós um Salvador” e realmente fomos salvos, que somos muito amados e de que apenas precisamos aceitar essa salvação e viver de acordo com essa realidade, aos poucos seremos pessoas melhores e mais felizes.





segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

A FORÇA LIBERTADORA DA ROTINA

 


Apesar de parecer contraditório, possuir uma rotina com horários fixos para fazer as coisas efetivamente nos torna mais livres para sermos quem fomos criados para ser.

A palavra “rotina” normalmente é associada a monotonia, a uma repetição sem sentido, da qual todos querem se livrar. Porém, a rotina traz ordem ao nosso dia e, de acordo com os neurocientistas, nosso cérebro é condicionado a buscar sempre a ordem, pois ela permite que ele tenha previsibilidade para executar tarefas.  Isso traz tranquilidade, gera serotonina que é um neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar.

O problema da desordem

Quando estamos em um ambiente desorganizado, nosso cérebro tem duas opções: ou perdemos tempo para organizar primeiro para depois cumprir nossa tarefa, por exemplo, estudar ou cozinhar ou precisaremos nos esforçar muito mais para conseguir nos concentrarmos para realizar essa mesma tarefa no meio da bagunça.

Isso acontece também com a nossa agenda. Se não temos horários para cumprir nossos deveres, nosso cérebro está sempre em uma situação de alerta, de não saber o que vai acontecer depois, causando muito mais cansaço, esquecimentos e frustrações. Podemos verificar essa realidade facilmente na vida das crianças: aquelas que vivem numa rotina bem estruturada, com horários para tudo: acordar, brincar, comer, tomar banho, estudar, dormir, são crianças muito mais calmas e tranquilas do que aquelas que não tem essa rotina fixa.

Liberdade para grandes realizações

A ordem remete ao belo, então quando vivemos de uma maneira organizada, nossa mente fica mais aliviada e mais livre para sermos mais criativos, para acharmos soluções para os problemas e principalmente realizar nossos grandes objetivos da vida.

O primeiro passo rumo a essa liberdade é gastar um pouco do tempo para pensar e estipular uma rotina. Uma sugestão é elaborar uma agenda com períodos de 30 minutos e anotar o que você deve fazer naquele tempo determinado. Comece com o horário para se levantar e siga preenchendo até o horário estipulado para dormir. Claro que tarefas que exijam um tempo maior para ser realizadas ocuparão mais de um espaço nessa agenda.

Você pode começar estipulando a rotina de 2ª a 6ª, deixando, a princípio, os finais de semana mais livres. Porém, com o tempo, verá que é importante também estabelecer alguma ordem para o fim de semana, mesmo que não seja tão rígida como a da semana.

Depois, é importante se concentrar para realizar a tarefa determinada no tempo estipulado. Como dizia S. Josemaria Escrivá: “faz o que deves e estás onde fazes”. Ou seja, não adianta ter um horário estipulado para preencher um relatório se nesse tempo estou pensando no que preciso comprar no supermercado. Ou no tempo que estipulei para brincar com meus filhos, ficar pensando na reunião que terei no dia seguinte. Na hora do trabalho, eu trabalho. Na hora de fazer compras, eu organizo a lista e faço as compras. E assim por diante.

Para aqueles que tem muita dificuldade com estabelecer e cumprir uma rotina, uma dica é começar escolhendo um período do dia para colocar na prática. Por exemplo, organizar primeiro o período da hora de acordar até a hora do almoço. Pratique por um tempo essa rotina e quando estiver mais seguro, organize também o período da tarde. E por fim, o período da noite.

Uma vida bem vivida

Não é necessário muito tempo praticando a ordem na rotina para colher seus frutos de tranquilidade e de sensação de liberdade. O tempo é um dos maiores dons recebidos de Deus e empregá-lo bem, cumprindo fielmente o nosso dever, aquilo que estabelecemos para fazer naquele determinado momento, nos proporciona uma sensação maravilhosa de realização pessoal.

“Realiza o teu dever e ele te realizará”, nos diz D. Rafael Cifuentes. As pessoas mais felizes são aquelas que sabem que estão cumprindo bem o seu dever e por isso são mais fortes, conseguem resistir melhor aos imprevistos que a vida lhes apresenta.

Nosso tempo é finito. Chegará um momento em que ele acabará e deveremos prestar contas de nossa vida ao nosso Criador, por isso precisamos cuidar muito bem do que fazemos com ele. E como somos um organismo integrado, perceberemos que, cumprindo bem nossa rotina, outros aspectos da nossa vida também melhorarão, teremos mais facilidade de lidar com nossos defeitos e limitações, podendo, pouco a pouco, nos tornarmos pessoas mais virtuosas e chegarmos ao fim da nossa vida com a tranquilidade do dever bem cumprido.


photo credit: Photo by Covene on Unsplash

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

VOCÊ ESTÁ QUEBRANDO PEDRA OU CONSTRUINDO UMA CATEDRAL?


A importância de saber o motivo de fazer as coisas

Ouvi uma história muito interessante sobre como um mesmo fato pode gerar diferentes pontos de vista, dependendo da motivação de cada um. Havia três homens que trabalhavam na construção de uma grande catedral. Aos três foi feito a mesma pergunta: “o que você está fazendo?” O primeiro respondeu: “estou quebrando pedra”; o segundo disse: “estou sustentando a minha família” e o terceiro falou: “estou construindo uma catedral!”

As três respostas estão absolutamente corretas, porém demonstram como cada um desses homens enxerga as suas atitudes, o seu trabalho. A visão do primeiro está focada no imediato, no que está fazendo naquele instante. Esse tipo de atitude frente à vida leva a pessoa a ser muito inconstante, a ser influenciada pelas circunstâncias, a simplesmente “reagir” aos acontecimentos e não ter uma postura de ação, de fazer porque sabe o que está fazendo. Aquele que enxerga só o momento, perde a noção do todo, da história; muitas vezes se sente entediado e tende a buscar “sensações”, prazeres físicos, para se sentir feliz.

A postura do segundo já mostra um pouco mais de sentido de responsabilidade pelos outros, de saber que a sua atitude influencia na vida de outras pessoas. Ele está quebrando pedra, porém com o objetivo de sustentar a sua família. A visão é um pouco mais ampla, mas ainda falta enxergar o todo, a beleza da existência humana, o motivo do próprio existir. Se a vida se limitar a cumprir as obrigações para ter o próprio sustento, ela é muito pobre (mesmo se cheia de dinheiro) e não preenche os anseios do coração humano.

O terceiro é aquele que entendeu realmente o profundo sentido de sua existência. Ele sabe que sua ação aqui e agora, mesmo que sirva para sustentar a sua família, vai ecoar por toda eternidade. As catedrais são monumentos que duram séculos, então por mais monótono que seja aquele quebrar pedra, ele é necessário para construir uma obra espetacular que estará de pé por muitos e muitos anos depois que acabar a existência desse pequeno construtor.

O verdadeiro sentido da nossa existência

Já disse o poeta: “ao brilhar de um relâmpago nascemos e ainda brilha seu fulgor quando morremos, tão curto é o viver”. Por isso é tão necessário entender o que estamos fazendo nesse mundo, saber que enquanto estamos aqui, temos a oportunidade de preparar nossa vida futura, aquela que nunca acabará, o destino eterno de nossa alma.

Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, falava da sacralidade do momento, de que esse instante em que estamos vivendo, jamais voltará, por isso precisamos vive-lo da melhor forma possível. Ensinava ainda sobre o “fiel e fidelíssimo cumprimento do dever” e de “fazer o ordinário de forma extraordinária”. Tudo isso para nos mostrar como é importante cumprirmos de maneira excelente as nossas obrigações de cada dia, pois as nossas atitudes aqui é que determinam a nossa qualidade de vida, nossa realização como ser humano e também o futuro da nossa alma quando encerrar nossa existência nesta terra.

Nosso Senhor Jesus Cristo passou 30 anos de sua vida no ordinário de sua família, cumprindo seus deveres, para dar o exemplo de como devemos agir no nosso cotidiano. Nesses anos todos Ele já estava realizando sua obra redentora, santificando a vida familiar, mostrando a importância da família e o valor redentor do trabalho bem feito.

A santificação da vida diária

Assim, a nossa santificação ocorre na nossa vida diária, que deve ser um caminhar constante rumo ao Céu. Minha avó Amábile sempre dizia que o bem que fazemos aqui, os gestos de amor, de doação, os pequenos e grandes sacrifícios, são como “tijolos” que enviamos para a construção da nossa casa no Céu. Quanto mais fizermos aqui, melhor será nossa morada na eternidade.

Para conseguirmos santificar o nosso dia, precisamos nos conscientizar da presença de Deus ao nosso lado e para isso precisamos da ajuda de nossa imaginação e de nossa memória. Sabe aquela paradinha que você dá para olhar as mensagens do WhatsApp durante o dia? Aproveite esses momentos para dizer “oi” pra Deus.

Essa saudação pode ser através de jaculatórias, que são “flechas” de amor que mandamos para o Céu. São frases curtas e simples que demonstram nossa vinculação ao mundo sobrenatural. Alguns exemplos: “Jesus, eu confio em vós!”, “Nossa Senhora cuide de mim!”, “Jesus eu te amo e quero estar um dia contigo no Céu!”, “Vem Espírito Santo!”, “Valei-me São José!” enfim, cada um pode também criar a sua preferida ou pegar inspiração na vida dos santos e nas jaculatórias que eles usavam.

Conforme vamos nos conscientizando dessa presença divina, conseguimos cumprir melhor nossos deveres, lutar contra nossas imperfeições e pouco a pouco enxergar o sentido da nossa existência, que não é apenas “quebrar as pedras”, mas “construir uma catedral”. O santo é um monumento vivo que demonstra toda a majestade divina, muito mais que uma catedral de pedras. Então, a busca e a luta pela nossa santidade é a maior catedral que podemos construir para Deus.  

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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

COMO RECLAMAR E DESCULPAR-SE DE MANEIRA EFICAZ




Pare para pensar sobre o quanto você reclama no seu dia: é o trânsito que está pesado, o preço da gasolina que aumentou, levou uma advertência do chefe, é o bife que ficou muito passado, o filho que não arrumou o quarto, o calor que está forte, a internet que está lenta, enfim, são inúmeras pequenas situações que podem deixar você aborrecido e irritado.

O professor Marcello Danucalov ensina que o aborrecimento acontece quando algo mal ocorreu e não deveria ter ocorrido. Um limite, um padrão justo foi transgredido, um compromisso foi quebrado. E todo aborrecimento pede ou gera uma reclamação.

Características da reclamação que funciona

Existem algumas características na reclamação para que ela seja efetiva e útil. Uma reclamação inútil só causa desconforto tanto para quem a produz, como para aqueles que estão ao seu redor, por isso devemos evitar esse tipo de reclamação.

A primeira coisa que precisamos identificar é para quem iremos dirigir nossa reclamação. Se não temos um destinatário, não há como nossa reclamação ser efetiva, porque não há ninguém que possa reparar de alguma forma o que aconteceu. Reclamar para alguém que não foi o responsável pela situação ou que não pode fazer nada a respeito, é perda de tempo e de energia.

Outro aspecto é sobre o que pode (e deve) ser objeto de uma reclamação. Existem acontecimentos que mesmo que nos causem certo tipo de aborrecimento, não merecem uma reclamação, pois não tem como ser reparados ou melhorados. Um exemplo seria se aborrecer com o calor ou o frio.

Por fim é preciso saber se havia um pacto prévio a respeito comportamento que gerou o aborrecimento. Se não havia um combinado, não há por que ter a reclamação, pois não houve o comprometimento da outra parte a agir de uma forma ou de outra.

Forma efetiva de reclamar

Se o acontecimento passou nessas três “peneiras”, então podemos fazer uma reclamação efetiva para a pessoa responsável, lembrando a outra parte que havia um acordo e esse foi quebrado. Pedir explicações sobre essa quebra e mostrar os danos que essa quebra produziu em você e no sistema como um todo e repactuar um novo acordo.

Por exemplo: se o filho deixou o quarto bagunçado, você deve chamá-lo, mostrar a bagunça, lembrar que o combinado é ele deixar o quarto arrumado antes de sair de casa e que a bagunça demonstra que ele não está se importando com o quanto você trabalha para conseguir comprar as coisas, já que deixar desorganizado pode também causar danos aos objetos. Além disso, a casa é sua e ele, como seu hóspede, deve manter a ordem que você determina. Um ambiente desorganizado afeta a todos que vivem na casa, pois o cérebro humano é conectado para buscar sempre a ordem e a desordem causa desconforto e estres. Assim, a atitude negativa dele afetou tanto você como toda a família.

A reclamação efetiva exige desculpas úteis

A reclamação que funciona exige um pedido de desculpas que também seja útil. Caso você se dê conta de que fez algo que prejudicou alguém, a primeira atitude é pedir perdão por ter quebrado o acordo, contando eventuais justificativas para você ter agido daquela forma. Depois deve perguntar qual foi a extensão do dano tanto para a pessoa ofendida como para o ambiente e o que você pode fazer para repará-lo. Faça o possível para reparar da forma mais eficiente e plena.

Mais um exemplo com relação aos filhos (para ensinarmos a se desculparem efetivamente): se sua filha derrubou um copo de leite na sala da tia, não basta que peçamos para ela pedir desculpas para a titia (que vai aceitar com o maior carinho). Além de pedir desculpas, precisa pegar um pano para ajudar a limpar.

Portanto devemos evitar gastar energia reclamando inutilmente e precisamos aprender a pedir desculpas de uma maneira eficiente, assim, além de crescermos em maturidade, ajudamos a equilibrar o ambiente em que vivemos.

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quarta-feira, 8 de setembro de 2021

SERÁ QUE REALMENTE SOMOS LIVRES?



A liberdade é um dos direitos fundamentais de todo ser humano. Mas ela também é um direito muito frágil, podemos perdê-la se não cuidarmos bem. Podemos falar em dois tipos de liberdade: aquela interior, de agir de acordo com a própria razão e vontade e a exterior, que é regulada pela sociedade em que cada pessoa vive, que pode limitar ou até extinguir o direito de ação do indivíduo. Esses dois tipos de liberdade vivem constantemente ameaçados.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 1731, assim define a liberdade: “A liberdade é o poder, baseado na razão e na vontade, de agir ou não agir, de fazer isto ou aquilo, portanto de praticar atos deliberados. Pelo livre-arbítrio, cada qual dispõe sobre si mesmo. A liberdade é, no homem, uma força de crescimento e amadurecimento na verdade e na bondade. A liberdade alcança sua perfeição quando está ordenada para Deus, nossa bem-aventurança.”

Portanto, para conseguirmos exercer bem esse poder de agir ou não agir, precisamos utilizar nossa inteligência para discernimos o que é o bem e fortalecermos nossa vontade para conseguir agir de acordo com esse discernimento. “Quanto mais pratica o bem, mais a pessoa se torna livre. Não há verdadeira liberdade a não ser a serviço do bem e da justiça.” (CIC 1733)

Ninguém pode tirar nossa liberdade

Essa liberdade interior, de agir de acordo com a própria consciência, ninguém pode nos tirar. Nós só perdemos essa liberdade por própria culpa, quando não discernimos o que é o bem ou quando, mesmo sabendo o que é o bem, nossa vontade não tem força para agir de acordo com o que a inteligência propõe. Cedendo aos nossos impulsos, nos tornamos escravos deles. E ao invés de agir, apenas reagimos.

O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, mesmo preso num campo de concentração durante a 2ª Guerra, manteve sua liberdade interior intacta. Apesar de fisicamente limitado pela prisão, ele vivia com o coração e a mente no Céu. Aceitou aquela circunstância como permissão divina e a utilizou para ajudar quem ele pode a sobreviver àquele verdadeiro inferno.

Não existe liberdade total

Ninguém é totalmente livre, pois existem várias limitações impostas pela própria natureza. Não somos livres para escolher onde nascemos, para sentir fome ou frio, para ser mais alto ou baixo. São inúmeras circunstâncias que não controlamos e que interferem em nossa vida. Porém, se buscarmos viver as virtudes, com o tempo conseguiremos um alto grau de liberdade interior e estas circunstâncias externas interferirão muito pouco no modo como agimos.

Conta-se que todos os dias um homem passava por uma banca de revista e cumprimentava o jornaleiro. Como resposta, sempre recebia alguma grosseria. Um dia seu amigo perguntou por que ele continuava sendo gentil e cumprimentando o jornaleiro se a resposta sempre era negativa. Ele respondeu que era livre para fazer o que achava certo e não era a atitude do outro que iria afetar seu modo de agir.

Desta forma para não perdermos nossa liberdade interior, precisamos lutar constantemente para adquirir as virtudes, como a paciência, temperança, fortaleza, prudência, entre outras. Cada um precisa analisar onde está seu ponto mais fraco, para iniciar essa luta que vai durar a vida toda.

A liberdade exterior não está em nossas mãos

Quanto a liberdade exterior, muito pouco podemos fazer para permanecermos livres. Basta um simples decreto de uma autoridade civil e não podemos mais sair de casa ou até expressarmos nossa opinião publicamente. Claro que devemos sempre lutar pela liberdade com os meios que possuímos, mas no fundo, vivemos em sociedade e, para termos segurança, abrimos mão dessa liberdade e a damos ao governo.

Isso não deve nos afligir, pois não adianta ter liberdade exterior, se interiormente somos escravos de nossos desejos e paixões. Façamos tudo o que está em nosso alcance para permanecermos livres exteriormente, mas lutemos bravamente contra nossas imperfeições para possuirmos o máximo de liberdade interior possível.

A liberdade torna o homem responsável por seus atos, na medida em que forem voluntários. O progresso na virtude, o conhecimento do bem e a ascese aumentam o domínio da vontade sobre seus atos.” (CIC 1734)

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quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A QUESTÃO DA AUTORIDADE E A FORMAÇÃO DA CONSCIÊNCIA

 


Nossa sociedade, a cada dia mais, rejeita a questão da autoridade. A figura da autoridade é vista hoje como sendo “opressora” e, por isso, deve ser combatida. “Todos somos iguais” então ninguém tem o “direito de mandar” em ninguém. Essa imagem distorcida da autoridade se refere a pais, professores, governantes, sacerdotes, policiais, enfim, todos que, por direito, possuem alguma autoridade, mas praticamente são impedidos de exercê-la.

A palavra autoridade deriva do latim auctoritas, que vem por sua vez de auctor, aquele que faz crescer. Quem possui autoridade tem a missão de conduzir seus dirigidos para que esses cresçam, amadureçam, sejam mais livres e aprendam, se for necessário, a exercer a autoridade algum dia. A pessoa com autoridade também tem a missão de proteger quem está sob os seus cuidados, tanto de eventuais ataques externos, como de condutas da própria pessoa que possa causar algum dano a ela própria ou aos outros.

Não é fácil exercer a autoridade com essa visão, principalmente quando se é pai ou mãe e os filhos já estão crescidos. Os pais precisam “treinar” desde cedo os filhos a fazerem boas escolhas, sofrendo as consequências quando escolhem mal. Quando são crianças, o exercício dessa autoridade é um pouco mais fácil, pois, mesmo que os filhos “esperneiem” um pouco, no final, precisam acatar o que os pais decidem, afinal eles são os adultos e responsáveis pela família.

A partir da adolescência a questão fica um pouco mais complicada, porque não basta o filho obedecer, ele precisa entender o porquê daquela determinada ordem. Se ele não entende a razão de agir dessa ou daquela forma, assim que se tornar adulto ou quando achar que os pais não vão descobrir, pode agir de forma totalmente diferente da que os pais gostariam, ou entendem ser melhor.

Marge Fenelon, em seu livro “Strenghtening your Family”, explica que, quando os filhos crescidos têm algum tipo de dilema moral e são tentados a tomar decisões que os pais não concordam, os pais tendem a dois extremos: ou simplesmente ignoram o que o filho quer fazer ou partem para cima do filho tentando forçá-lo a seguir a linha de pensamento deles. Nenhuma dessas opções são realmente efetivas. Ignorar pode dar a falsa impressão de que a escolha que ele está fazendo é permissível e forçar só vai fazê-lo correr para a direção oposta. Essas duas escolhas são uma abdicação da responsabilidade como pais; o trabalho dos pais é educar os filhos para que tenham uma consciência cristã bem formada. Isso leva tempo, paciência, diligência e frequentemente algum “frio na barriga” e unhas roídas...

As consciências são desenvolvidas e formadas pela autoridade. Uma boa autoridade é muito diferente de autoritarismo, ela significa liderança. Como pais, devemos liderar os filhos através de nosso próprio exemplo e direcionamento. É preciso conversar muito. Falar de todos os assuntos polêmicos em casa. Entender a visão de cada filho e mostrar onde podem estar pensando errado, onde estão sendo manipulados pela cultura, pela mídia, pelos amigos. Sempre fazê-los refletir sobre o que estão falando, o que estão acreditando e repetindo.

O Catecismo da Igreja Católica fala sobre o papel dos pais na formação da consciência no parágrafo 1784: “A formação da consciência é tarefa para toda a vida. Desde os primeiros anos, a criança desperta para o conhecimento e para a prática da lei interior reconhecida pela consciência moral. Uma educação prudente ensina a virtude: preserva ou cura do medo, do egoísmo e do orgulho, dos ressentimentos da culpabilidade e dos movimentos de complacência, nascidos da fraqueza e das faltas humanas. A formação da consciência garante a liberdade e gera a paz do coração.”

Importante ressaltar que, como pais, precisamos estudar e entender a doutrina moral católica para poder viver e transmitir esses valores aos filhos. Atualmente temos a imensa vantagem de ter todo esse conhecimento a nosso alcance, graças a inúmeros bons livros e tecnologia da internet. Existem vários blogs e sites católicos que oferecem uma enorme gama de opções de cursos, palestras, vídeos para aprofundarmos no conhecimento da nossa doutrina, então não podemos desperdiçar essas oportunidades.

Por fim, para termos sucesso nessa empreitada de exercer bem a autoridade e formar a consciência de nossos filhos para que possam fazer escolhas condizentes com sua condição de cristão e não simplesmente decidirem baseado no medo, na pressão dos outros ou no que está na moda, precisamos pedir muito as luzes do Espírito Santo e o cuidado maternal de Maria Santíssima. Peçamos a Nossa Senhora, como Mãe e Educadora, que nos ajude a educarmos nossos filhos no caminho que os conduzirão ao Céu.