quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O SACRIFÍCIO QUE ADÃO NÃO FEZ


Scott Hahn, em seu livro “Primeiro, é o Amor”, apresenta um ponto de vista muito interessante sobre o que teria sido o pecado original e que pode ser a chave para que nós consigamos entender a influência que essa herança que recebemos de nossos primeiros pais tem em nossa vida hoje.

Em Gênesis 2,15 está escrito: “Javé Deus tomou o homem e o colocou no Jardim de Éden, para que o cultivasse e guardasse. Aqui vem a primeira reflexão: por que Adão precisaria guardar, proteger o Paraíso? Ou melhor, quem seria uma ameaça a Adão? Certamente Deus já estava avisando que o Demônio poderia tentar acabar com sua criação predileta.

E a narração continua: “E Javé Deus ordenou ao homem: ‘Você pode comer de todas as árvores do jardim. Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá”. (Gn 2,16-17) A morte a que Deus se refere é muito pior do que a morte física, à qual Adão estava imune até aquele momento, mas a morte que corresponde a uma alma atolada em paixões e maldades de todo tipo, a morte da inimizade com Deus. 

Chega então o momento da prova: a serpente entra no jardim e faz a proposta para Adão e Eva desobedecerem a Deus. Aqui precisamos destacar que a serpente era seguramente um animal imponente e mortífero. Em outras partes do Antigo Testamento essa mesma palavra que aqui é traduzida como serpente, é usada como dragão (Is 27,1) ou monstro marinho (Jó 26,13). 

Assim, podemos entender que a Serpente, terrível monstro que poderia efetivamente matar os dois, fez uma ameaça quando disse “vocês não morrerão” (Gn 3,4) se comerem o fruto, mas se não comerem, morrerão, porque eu irei mata-los.

Agora vemos sob outra perspectiva a decisão que Adão precisava tomar: ou ele permanecia fiel à Deus e aceitava ter seu corpo morto pela serpente, ou desobedecia, quebrava a Aliança, e aceitava aquele outro tipo de morte, a morte da desordem da alma e da inimizade com Deus. E o que Adão fez? Ficou calado e deixou que Eva continuasse a conversa com o demônio.

Adão não respondeu à serpente e também não pediu ajuda a Deus. “Por orgulho e por medo, manteve-se silencioso. E junto com sua mulher desobedeceram ao mandato divino. Isso (...) é falta de fé, esperança e amor. Os medos de Adão o fizeram afastar do seu dever de custodiar o paraíso. Impediram-no de confiar no seu Pai Deus e caíram sobre ele na forma de orgulho. (...) Conhecendo o poder da serpente, foi incapaz de oferecer a sua vida, por amor de Deus, ou mesmo salvar a vida da sua amada. Recusar o sacrifício, foi este o pecado original de Adão. Cometeu-o mesmo antes de provar o fruto, mesmo antes de Eva o fazer.”(pg. 61)

Recusar o sacrifício, não querer se doar por amor, pensar em primeiro lugar em si mesmo e no seu bem estar, ou seja, o egoísmo, esse é a raiz de todo pecado. Por isso todos nós temos essa tendência ao egoísmo e precisamos lutar a vida inteira para matar o egoísmo em nós e deixar crescer nosso amor a Deus e ao próximo. 

Desta forma nosso grande exemplo é Jesus Cristo, o novo Adão. Ele veio ao mundo para se doar por amor por todos nós, para cumprir o sacrifício que Adão não fez e assim abrir novamente o Céu para cada um de nós. 

Todos nós nascemos 100% egoístas. O recém nascido exige todo o cuidado, pois o mundo está centrado nele, em suas necessidades. Quer tudo para si, não sabe renunciar nada em favor dos outros. Conforme a criança cresce, deve aprender a fazer pequenos sacrifícios, esperar, adiar um desejo, em benefício dos outros. E essa luta contra o egoísmo deve permanecer por toda a vida. Devemos diariamente pedir a ajuda de Deus, com o apoio de nosso santo anjo da guarda, de sermos menos egoístas, para podermos amar mais e melhor.

photo credit: _foobar_ <a href="http://www.flickr.com/photos/40831125@N03/40737206985">Wooden dragon</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>



sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O PODER DA HUMILDADE


A humildade, segundo o Pe. Antonio Royo Marín é "uma virtude derivada da temperança, que nos inclina a coibir ou moderar o desordenado apetite da própria excelência, dando-nos o justo conhecimento de nossa pequenez e miséria principalmente com relação a Deus". Assim, uma pessoa é humilde na medida em que se conhece realmente, sabendo de suas qualidades, mas principalmente de seus defeitos e entendendo que nada pode por si mesma, que tudo o que é e possui, foi lhe presenteado por Deus para ser colocado ao serviço dos outros.

Em nosso mundo moderno, tudo conspira contra a humildade. Somos incentivados a ter cada vez mais coisas, a buscar um lugar de destaque, a fazer tudo para conquistar mais poder. E isso ainda não basta: precisamos nos exibir para todos através das mídias sociais para mostrar como somos importantes!

E o que esse estilo de vida acarreta? Transformamo-nos em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e experimentar. Colocamos nosso “eu” no centro de nossas vidas e nos esquecemos de olhar para o lado, para o outro que pode estar precisando de ajuda. Tornamo-nos cada vez mais egoístas, cheios de direitos e qualquer mínima ameaça à imagem que temos de nós mesmos é capaz de despertar uma grande ira e partimos para o ataque.

Quanto maior o nosso ego, maior é o alvo para qualquer coisa nos atingir. E isso nos torna fracos, suscetíveis, mal humorados, rabugentos e reclamões. Então, a verdadeira força, o verdadeiro poder está na humildade. Pela humildade reconhecemos quem realmente somos: criaturas imperfeitas, que precisam uns dos outros para sobreviver e ser feliz.

Mas como alcançar a verdadeira humildade? São João da Cruz nos ensina: “mostra-te sempre mais propenso a ser ensinado por todos do que a querer ensinar quem é inferior a todos.(...) Alegrando-te com o bem dos outros como se fosse teu e procurando sinceramente que estes sejam preferidos a ti em todas as coisas, assim vencerás o mal com o bem, afastarás o demônio para longe de ti e alegrarás o coração. Procura exercita-lo sobretudo com aqueles que te são menos simpáticos. E sabe que, se não te exercitares nesse campo, não chegarás à verdadeira caridade nem tirarás proveito dela.”

O Papa Francisco também nos mostra o caminho da humildade: “A humildade só se pode enraizar no coração através das humilhações. Se não fores capaz de suportar e oferecer a Deus algumas humilhações, não és humilde nem estás no caminho da santidade. (...) Não digo que a humilhação seja algo de agradável, porque isso seria masoquismo, mas se trata de um caminho para imitar Jesus e crescer na união com Ele. Isso não é compreensível no plano natural, e o mundo ridiculariza semelhante proposta. É uma graça que precisamos implorar: ‘Senhor, quando chegarem as humilhações, ajuda-me a sentir que estou seguindo atrás de ti, no teu caminho.’” (GE 118 e 120)

A humildade nos liberta de nós mesmos e começamos a olhar o outro com mais compaixão e misericórdia. Tomamos consciência de que somos fracos, que podemos cair a qualquer momento, assim fica mais fácil perdoar também aquele que nos magoa. Diante de uma ofensa, quem tem um reto conhecimento de si mesmo e é humilde, pensa: “se eu tivesse tido a mesma educação, sofrido os mesmos traumas, vivido as mesmas experiências que essa pessoa que me ofendeu, provavelmente teria agido muito pior.”

Não é nada fácil chegar à verdadeira humildade. Todo ser humano nasce 100% egoísta, querendo que o mundo gire em torno de si, então esse trabalho de se libertar do próprio eu leva uma vida toda. Um santo já disse: “o egoísmo morre 15 minutos depois que a pessoa morre!”. Então, precisamos pedir insistentemente a graça da humildade. Sugerimos a oração da ladainha da humildade, composta pelo Cardeal Merry del Val:

Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.
Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuido, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

 photo credit: Catholic Church (England and Wales) <a href="http://www.flickr.com/photos/27340278@N03/13759363753">Conference day 2</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/2.0/">(license)</a>

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O CHAMADO A SERMOS POBRES



Em nossa sociedade consumista, a palavra pobreza tem uma conotação muito negativa. Ninguém quer ser pobre, todos lutam para ter uma vida melhor, ganhar mais dinheiro, ter mais status social. Mas então como entender o chamado de Jesus à pobreza? 

"Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me" (Mt 19,21)
“Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3)
“Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus! Porque é mais fácil entrar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.” (Lc 18,24-25)
“Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6, 24).

A pobreza que Jesus se refere é o desapego dos bens materiais ou na expressão usada pelo Pe. Jose Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, “vinculação heroica às coisas”; é usar de tudo aquilo que o bom Deus nos proporciona, mas com o espírito de administrador e não de dono. Precisamos cultivar a consciência de que todos os bens que possuímos, na verdade, não são nossos: eles foram emprestados por Deus para que os usemos da melhor forma possível, repartindo com os mais necessitados e um dia teremos que prestar contas de como administramos esses bens.

Criar essa consciência é muito difícil, pois temos a tendência de pensar que se eu trabalhei tanto para conseguir comprar um carro, por exemplo, não é “justo” falar que foi Deus quem me deu. Porém é Deus quem sustenta a sua vida a cada respiração, caso contrário, você já teria morrido. É Deus quem permite você ter saúde para trabalhar e conseguir juntar dinheiro. É Deus quem te deu a inteligência e os dons que você possui para conseguir ter esse emprego. E essa lista dos dons que Deus te concede diariamente é infinita...

Precisamos aprender a falar como Jó: “Nu saí do ventre de minha mãe, nu voltarei. O Senhor deu, o Senhor tirou: bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1,21). Criar esse sentimento de gratidão, de louvor, por tudo o que somos e o que temos, mesmo no meio do sofrimento e da privação dos bens materiais. Esse é o conselho evangélico da pobreza: lutar a cada dia pelo meu sustento, pelo sustento da minha família, mas não me preocupar angustiadamente pelo amanhã, confiar na Divina Providência. Não devo me preocupar em acumular bens materiais, não posso cair na tentação do consumismo, de buscar sempre aquela novidade, aquela roupa nova, aquele celular mais moderno.

Santo Agostinho nos adverte: “O supérfluo dos ricos é propriedade dos pobres”. Ou seja, todos nós deveríamos nos preocupar em não gastar dinheiro com o que é supérfluo, pois esse dinheiro seria muito melhor aproveitado se fosse dado aos pobres, a quem falta o que é necessário, como alimento e roupas.

Mas como colocar esse conselho evangélico da pobreza na prática? Compartilhamos com vocês algumas ideias que podem ajuda-los nessa difícil missão de nos autoeducar para o desapego dos bens materiais e de ensinar os nossos filhos a ter essa visão.

* desde pequenos, falar para os filhos que tudo o que eles tem, na verdade é do papai e da mamãe (o que é uma realidade, pois os filhos não fizeram nada para “merecer” aquilo que tem). Os pais emprestam as coisas para que os filhos cuidem bem delas. Isso ajuda as crianças a criarem essa consciência de serem administradores e não proprietários. Ajuda também a se livrarem aos poucos do egoísmo próprio das crianças. Por exemplo, quando um chorar porque o irmão pegou o “seu” carrinho, lembrar que o carrinho não é dele, é do papai e da mamãe, que emprestaram para ele usar e cuidar. Da mesma forma, ele deve aprender a emprestar o carrinho para o irmão, sem ficar triste por isso.   

* sempre que comprarem roupas, sapatos, brinquedos, doar alguma roupa, sapato ou brinquedo na quantidade equivalente ao que foi adquirido. Isso vale também para os presentes que recebemos nas datas especiais (aniversário, Natal)

* quando fizerem uma festa de aniversário, por exemplo, doar o equivalente ao que foi gasto na festa para alguma família mais necessitada ou instituição de caridade. Isso ajuda a sermos moderados nos gastos com comemorações e ensinamos desde cedo, aos filhos, a importância da simplicidade e de darmos alegria aos mais pobres quando estamos celebrando.

Devemos aprender com Santa Catarina de Sena que diz: "Nada te preocupe! Nada te perturbe! Tudo passa. Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem possui a Deus, nada lhe falta. Só Deus basta!"

photo credit: Daniel E Lee <a href="http://www.flickr.com/photos/71081860@N08/33852384322">Time To Pack</a> via <a href="http://photopin.com">photopin</a> <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.0/">(license)</a>