segunda-feira, 23 de março de 2015

A MULHER E O TRABALHO

O tema da mulher e o mercado de trabalho é sempre controverso. Se por um lado as mulheres alcançaram uma grande fatia do mercado de trabalho, exercendo cargos, até pouco tempo impensáveis para elas, contribuindo bastante no orçamento doméstico, por outro lado muitas mães ficam sobrecarregadas com a dupla jornada, fora e dentro do lar e ainda sentem-se culpadas por não ficarem tempo suficiente com o marido e os filhos.

A reflexão que se deseja fazer aqui é: até que ponto é um bem para a família a mãe trabalhar fora de casa. Muitas são as razões que levam uma mãe a procurar emprego: dificuldades financeiras, desejo de uma carreira que seja valorizada pela sociedade, vontade de faze algo que lhe dê mais prazer, pressão do marido para ajudar no orçamento, entre outras.

Quando a família passa por sérias dificuldades financeiras, onde existe o risco de faltar o essencial para a subsistência (casa, a comida, roupas, etc), não há muito o que se pensar: o trabalho fora de casa é uma necessidade para a mãe.

"Muitas pessoas acreditam que precisam de uma segunda fonte de renda para melhorar o orçamento doméstico, porém muitos estudos demonstra que ao se deduzirem as despesas como o cuidado com as crianças, guarda-roupa para o trabalho, almoços, viagens e outros itens, a família tende a manter apenas 10% da segunda fonte de renda. Para a maioria das pessoas, este montante não faz tanta diferença.
Outros trabalham porque seu valor pessoal depende disto. Enquanto trabalhos significativos pessoalmente são importantes para uma identidade forte e saudável, a pessoa deve tomar cuidado para não resumir a sua identidade a partir do que se faz. Quando você é dependente do seu trabalho para definir seu valor pessoal, você se deixa aberto para ser explorado por empregadores que não se importam com sua vida familiar, e você se deixa aberto para ser conivente com a atitude de que sua carreira é mais importante que seu cônjuge e filhos. E claro, ele não é.
A chave para tanto homens e mulheres que trabalham fora de casa é lembrar que como cristãos, quem somos é melhor representado pelos valores que possuímos e as prioridades que exemplificamos em nossa vida diária - não os nossos trabalhos. É preciso muita coragem para viver isto, mas o esforço traz suas próprias recompensas na forma de maior intimidade no lar, paz interior e uma visão mais profunda e espiritual da vida, ao invés de simplesmente uma visão de simples sobrevivência."[1]

O que se verifica em grande parte dos casos é de mães que se ausentam do lar, para priorizar suas carreiras, buscando fora de casa sua realização pessoal como pessoa, como mulher. E muitas vezes o resultado disso são filhos educados por terceiros (escolas, babás, parentes) e mães que se sentem frustradas e não conseguem essa almejada realização pessoal, nem como mães, nem como profissionais.

"Em primeiro lugar, o nosso trabalho é o trabalho de uma mãe. Em parceria com nossos maridos e de acordo com o plano de Deus, trazemos a vida a este mundo (...) nutrimos e cuidamos das necessidades cotidianas dos mais preciosos presentes de Deus, nossos filhos, e somos as ajudantes de nossos cônjuges. Transmitimos os tesouros de nossa fé para nossas famílias e garantimos sua educação formal. Nosso trabalho diário consiste nas tarefas de dirigir e organizar as nossas casas, alimentar as nossas famílias e fazer o nosso melhor para nos mantermos saudáveis durante o processo."[2]
A questão maior é o fato do trabalho no lar não ser devidamente valorizado. Nas últimas décadas, as meninas foram educadas para serem profissionais, para escolher uma carreira, deixando de lado a importância do papel da mulher como esposa e mãe. É muito raro ver famílias onde é explicado para a menina o grande valor de ser esposa, de ser mãe, de saber cuidar e administrar um lar. E isso faz com que as jovens priorizem sempre a carreira profissional fora do lar, pensando que a mulher que fica em casa para cuidar do marido e dos filhos, na verdade, é uma pessoa incapaz, que não conseguiu emprego ou está “desperdiçando” seu potencial se dedicando exclusivamente para a sua família.

É urgente que esta questão seja revertida, pois o trabalho da mulher dentro de casa e o papel da mãe junto a seus filhos, especialmente na primeira infância, é primordial para o desenvolvimento deles, para a criação de um vínculo afetivo saudável, enfim, para o bem estar de toda a família.

"Todos nós queremos saber que estamos fazendo um bom trabalho. Só que, no trabalho de uma mãe, no entanto, não há avaliações de desempenho anuais ou aumentos salariais por mérito. Estamos fazendo algo a longo prazo e é provável que não vejamos por muitos anos o resultado final de todos os nossos esforços. Embora possamos ser capazes de realizar as tarefas de 'dobrar a roupa' e 'lavar a roupa' rapidamente e logo riscá-las de nossa lista de tarefas do dia, nosso trabalho nunca está verdadeiramente completo."[3]
“Não há dúvida que a igual dignidade e responsabilidade do homem e da mulher justificam plenamente o acesso da mulher às tarefas públicas. Por outro lado, a verdadeira promoção da mulher exige também que seja claramente reconhecido o valor da sua função materna e familiar em confronto com todas as outras tarefas públicas e com todas as outras profissões. De resto, tais tarefas e profissões devem integrar-se entre si se se quer a evolução social e cultural seja verdadeira e plenamente humana. (...) Portanto, a Igreja pode e deve ajudar a sociedade atual pedindo insistentemente que seja reconhecido por todos e honrado no insubstituível valor o trabalho da mulher em casa. Isto é de importância particular na obra educativa: de fato, elimina-se a própria raiz da possível discriminação entre os diversos trabalhos e profissões, logo que veja claramente como todos, em cada campo, se empenham com idêntico direito e com idêntica responsabilidade. Deste modo aparecerá mais esplendente a imagem de Deus no homem e na mulher.

Se há que reconhecer às mulheres, como aos homens, o direito de ascender às diversas tarefas públicas, a sociedade deve estruturar-se, contudo, de maneira tal que as esposas e mães não sejam de fato constrangidas a trabalhar fora de casa e que a família possa dignamente viver e prosperar, mesmo quando elas se dedicam totalmente ao seu próprio lar.

Deve, além disso, superar-se a mentalidade segundo a qual a honra da mulher deriva mais do trabalho externo do que da atividade familiar. Mas isso exige que se estime e se ame verdadeiramente a mulher com todo o respeito pela sua dignidade pessoal, e que a sociedade crie e desenvolva as devidas condições para o trabalho doméstico.”[4]

Outro fator que deve ser analisado é o fato de muitas mulheres postergarem a maternidade para “investirem” em suas carreiras e quando decidem ser mãe, após os 35 anos de idade, encontram muitas dificuldades para engravidar, o que causa muito stress e frustrações. Então, buscam métodos artificiais para conseguir a gravidez, o que pode trazer muitos riscos para a sua saúde, podendo chegar inclusive ao extremo de contratar “barriga de aluguel”.

Toda escolha tem suas consequências e é necessário ter bem claro quais são as implicações para toda a família de ter a mãe trabalhando fora de casa ou de adiar a chegada dos filhos em virtude da carreira. O marido também precisa estar bem consciente destas consequências, antes de pressionar sua esposa para voltar ou permanecer no mercado de trabalho, pensando apenas na divisão de sua responsabilidade em prover a família.

Não se pretende aqui que todas as mulheres abram mão de suas carreiras para ficar com suas famílias, mas que ao menos façam uma séria reflexão do que realmente é importante para sua felicidade e a felicidade de sua família e qual a melhor maneira de conciliar estes interesses.
A economista norte-americana Sylvia Ann Hewlet, publicou um livro chamado “Creating a life: Women and the Quest for Children” onde sugere algumas dicas para as mulheres que pretendem conciliar o trabalho e a família:
1.                  “ Imagine que tipo de vida você quer ter aos 45 anos. Se pretende ter filhos (cerca de 86% a 89% das mulheres com salários entre 55 mil e 65 mil dólares anuais querem ser mães) é essencial que você se comprometa com a ideia, e aja rapidamente.
2.                   Tenha o seu primeiro filho antes dos 30. O milagre da maternidade tardia, pouco comum, traz muitos riscos e a sua possível não realização, muitas frustrações.
3.                  Escolha uma carreira que lhe permita controlar seu tempo. Certas carreiras dão mais flexibilidade e não se ressentem tanto de interrupções.
4.                  Escolha uma empresa que se comprometa a ajudá-la a atingir o ponto de equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. Descubra se a empresa tem programas de jornada reduzida e se concede licença com garantia de retorno ao trabalho (...)
Não digo que joguem fora a sua carreira, mas para as mulheres em torno dos 30 anos, idade em que fundar uma família e ter filhos é relativamente fácil, esta deve ser a prioridade, e não o trabalho.".[5]
"Nosso trabalho, como mães, é colocar os nossos filhos e sua educação no centro de nossas vidas. Como isso vai parecer e como as coisas vão ficar em cada lar será diferente. Você sabe em seu coração se está dando a Deus as 'primícias' de seu trabalho diariamente. Seja dentro ou fora de nossas casas, temos que ter orgulho do nosso trabalho e oferecê-lo como nossa oração diária."[6]
Ser mãe é ao mesmo tempo uma dádiva de Deus e uma grande tarefa, que precisa ser exercida com muita responsabilidade, dedicação, amor, abnegação e sacrifício.  Toda mulher deveria procurar desenvolver ao máximo este dom da maternidade, inclusive a maternidade espiritual (para aquelas que não são mães fisicamente), pois desta maneira conseguirá alcançar todo o potencial para o qual foi criada, obtendo a tão sonhada realização pessoal.
"Como trabalhadoras em nossos cantinhos da vinha do Senhor, vamos fazer as seguintes perguntas quando se trata de discutir o nosso trabalho:
- Estou escutando e respondendo 'sim' ao chamado único de Deus em minha vida?
- Estou colocando as necessidades do meu marido e de meus filhos no topo das minhas prioridades na vida?
- Estou oferecendo o desempenho de minhas tarefas de cada dia e de minhas responsabilidades como uma oração?
- Estou realizando a minha vocação no máximo de minha capacidade, com orgulho do meu trabalho, independentemente de quão insignificante ou sem importância o mundo em geral possa considerar que ele seja?
- Eu faço o meu trabalho com o coração alegre? Estou me sentindo ressentida, crítica, arrogante ou indiferente em meu serviço para com os outros?
- Estou realizando o meu trabalho para fins egoístas pelo reconhecimento público, ou em busca de bens materiais?
- Tenho dado graças a Deus hoje através de minhas ações e glorificado o Senhor através do fruto do meu trabalho?" [7]


[1] Tradução livre do livro "Parenting with Grace - The Catholic Parent´s Guide to Raising Almost Perfect Kids", Gregory K. Popcak e Lisa Popcak, 2a. edição, Ed. Our Sunday Visitor, 2010, EUA
[2] "O Manual da Mãe Católica", Lisa M. Hendey, Ed. Ave Maria, 1a. ed., 2013, pg.138
[3] "O Manual da Mãe Católica", Lisa M. Hendey, Ed. Ave Maria, 1a. ed., 2013, pg.142
[4] Exortação Apostólica de João Paulo II “A missão da família cristã no mundo de hoje”, item 23
[5] http://noticias.cancaonova.com/imprimir.php?id=152392
[6] "O Manual da Mãe Católica", Lisa M. Hendey, Ed. Ave Maria, 1a. ed., 2013, pg.140
[7] Tradução livre do livro "Parenting with Grace - The Catholic Parent´s Guide to Raising Almost Perfect Kids", Gregory K. Popcak e Lisa Popcak, 2a. edição, Ed. Our Sunday Visitor, 2010, EUA
crédito da foto: photopin.com

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