sexta-feira, 5 de setembro de 2014

JÚLIA, ESCOLHEMOS A VIDA

"Escolha, pois, a vida, para que você e seus descendentes possam viver" (Dt 30,19)

No quarto mês de gestação da minha quarta filha, a Júlia, descobri que havia algo de errado com o bebê e, segundo a opinião do médico geneticista, provavelmente era uma síndrome rara (nanismo tanatofórico) e o bebê deveria morrer logo após o parto, havendo riscos também para mim. Este médico recomendou fazer um exame do líquido amniótico e, confirmado o diagnóstico, eu poderia pedir autorização judicial para a realização do aborto, pois, segundo ele, “não valia a pena sofrer com uma gravidez em que o bebê iria morrer ...”, e eu deveria pensar no bem estar dos meus outros três filhos saudáveis.  

Depois de rezar e refletir bastante, decidi, junto com meu marido, não fazer o exame, pois existia o risco do próprio exame um aborto. Nossa filha tinha uma missão para cumprir e, por mais dolorosa que fosse, nós não teríamos o direito de interromper a sua vida, apenas para “evitar mais sofrimento”. O sofrimento é impossível de ser evitado, todo mundo sofre. Nós como pais temos a missão de ensinar os nossos filhos a sofrer e não tentar impedir que eles sofram.

A gravidez prosseguiu com muitos problemas e a Júlia nasceu no dia 08 de novembro de 2007, depois de um parto muito complicado. Foi encaminhada para a UTI onde foi confirmado o nanismo tanatofórico. Neste mesmo dia, sua madrinha pode entrar por alguns minutos na UTI e fez o batismo de urgência. Os médicos deram poucos dias para ela, todavia a pequena Júlia, superou todas as expectativas.

Foram meses de muita dor, ela sofreu muito, realizava exames diários, só se alimentava por sonda e ficou muito tempo entubada para conseguir respirar. Além disso, tinha uma febre inexplicável, pois os exames sempre eram negativos para infecção e apesar da febre seu estado geral sempre era bom, o que intrigava muito todos os que estavam diretamente envolvidos com seus cuidados.

Um dia um dos médicos me chamou em sua sala para dizer que não existia nenhuma razão cientificamente explicável para ela ainda estar viva depois de mais de três meses, pois não havia casos registrados de bebês com esta síndrome terem sobrevivido tanto tempo. A única razão pela qual ele poderia explicar o fato dela não ter morrido era o amor que nós sentíamos e demonstrávamos por ela e ela sentia pela nossa família. Isso, segundo ele, o havia marcado profundamente como médico e o fez perceber que vale a pena lutar pela vida, por pior que seja o prognóstico. 

No dia 03 de fevereiro de 2008, com permissão especial dos médicos, pudemos completar o batismo da Júlia, com a presença do padre, de nós pais e de seus padrinhos lá mesmo na UTI. Alguns dias após a cerimônia, todos puderam testemunhar uma grande graça: a Júlia começou a respirar sozinha! Utilizava apenas um pequeno suporte de oxigênio e pela primeira vez os médicos falaram da possibilidade dela vir para casa. Foram 15 dias maravilhosos. Pudemos pegá-la no colo e como ela ficou sem medicação, interagia mais conosco e até sorria...

Após este tempo ela voltou a piorar e ficou outros quinze dias com o tubo. Mais uma vez ela mesma retirou o tubo e conseguiu ficar o restante do tempo com um suporte de oxigênio, as vezes no capuz, as vezes com cateter nasal.

Foram 5 meses e 11 dias até eu e meu marido sermos chamados no hospital para receber a triste notícia de que ela havia partido para a casa do Papai do Céu. Segundo a equipe que estava com ela neste dia, tudo aconteceu muito rápido, seu coraçãozinho simplesmente parou e o médico não conseguiu reanimá-la. Ela partiu em paz.

Apesar de todo o sofrimento, nossos corações se regozijam de felicidade nos poucos momentos que pudemos estar com ela, sendo gratos a DEUS por nos ter dado o privilégio de sermos seus pais. Com a Júlia, nossa missão como pais está completa. Nós temos uma filha no Céu. Com nossos outros três filhos, ainda temos muito o que fazer para que eles também, um dia, possam estar com sua irmãzinha no Céu.


Nossa família amadureceu e se uniu muito com a vinda da Júlia. A dor que sentíamos diariamente, a sensação de impotência perante seu sofrimento era imensa, mas não conseguimos imaginar nossas vidas sem ela. 

8 comentários:

  1. Flá, parabéns por mais essa iniciativa. Vocês são exemplo e inspiração para muitas pessoas, e motivo de orgulho para nós!! Que Deus continue abençoando e conduzindo seus caminhos e que a nossa Querida Mãe a cubra, sempre, com seu manto protetor.
    Beijos saudosos,
    Ju, Fer e bebê.

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  2. Que belo testemunho de fé e amor! Imaginamos os desafios diários, medos e sofrimentos, mas sabemos também que, além de terem podido ter a bebê com vocês por este breve tempo e guardar as lembranças em seus corações, agora colhem principalmente a paz na consciência por terem feito o que compete a todo cristão: ser generoso, caridoso, e carregar a cruz que nos cabe.

    Deus guarde esta família e que esta santinha reze por todos nós.

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  3. Que história linda... quanto amor. me inspirei e quero sempre ter esse amor sobrenatural que faz milagres..eu acredito em milagres pois tenho uma...bjs obrigada pela partilha

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    1. Muito obrigada pelo carinho, Michele. Com certeza esse amor sobrenatural só vai crescer e se espalhar!

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  4. É a segunda vez que leio, e não canso de me emocionar com a beleza de uma vida, que para alguns pode ser até descartável, mas para Deus e para uma família cheia de amor, é um milagre! Obrigada por essa linda partilha! ♥️

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